segunda-feira, 7 de novembro de 2011

REEDIÇÃO DE UM SONHO (feito livro)



A ideia de reeditar em blogue aquele que eu considero o meu primeiro livro minimamente conseguido surgiu como forma de recuperar alguma dinâmica escrevinhadora - que, pelas mais variadas razões, muito definhou nos últimos meses.
Mas convém apresentar esta minha ideia (talvez alguns a achem um pouco peregrina...), tentar torná-la mais apelativa.
O que vou trazer aqui nos dias mais próximos, distribuído por capítulos ou partes destes (mas tudo na sequência do próprio original), é todo o livro Eça de Queiroz e os seus clones, publicado em 2006 pela editora Guerra & Paz. Não é um livro pacífico, reconheço-o ainda hoje. Mas hoje também, mais ainda do que há cinco anos, considero-o actual e capaz de acrescentar algo ao que já é conhecido por todos os que apreciam a obra do meu bisavô.
Como aviso prévio, confesso que isto não era para ser um livro. Na verdade tudo começou num programa televisivo de José Hermano Saraiva, onde o conhecido comunicador apresentava uma teoria absolutamente excêntrica ao que era conhecido até então sobre o nascimento do mestre do Realismo em Portugal. 
Houve troca de argumentos, pública e privada, uma ameaça de edição conjunta dessa nossa correspondência, e, por fim, a decisão de fazer tudo sozinho.
Ainda bem que foi assim, porque se não o livro seria coisa bem diferente e não teria dado o gozo que realmente me deu – como provavelmente irão perceber os que tiverem a pachorra de aturar esta arqueologia familiar (e também literária, porque não?...).
Mas antes do livro em si, começo por mostrar a forma como encontrei um editor, o meu editor desde então – o meu Amigo querido Manuel S. Fonseca. Para tanto fui roubar ao blogue É tudo gente morta (onde o Manuel me enterrou comodamente e onde muito me diverti) um excerto de um texto que lhe dediquei no ano passado, pelo seu aniversário.   

O caso do editor que por pouco não seria

Corriam os idos de Setembro de 2006 e eu era então possuidor duma dessas coisas a que ainda hoje se chama manuscrito e que nem por isso deixou de o ser.  Não sabia bem o que fazer com aquilo. Tratava-se de obnóxia coisa (editorialmente falando) e eu sentia que iria ter grandes dificuldades em conseguir que a publicassem. Pode-se imaginar mesmo que eu aceitaria a primeira oportunidade que me surgisse, fosse ela qual fosse.
Ora foi exactamente isso que aconteceu – só que na melhor das versões.
Passo a explicar.
A conselho de um velho amigo, que acabava de arrancar com uma micro-editora cheia de magníficos projectos (a Palimpsesto), decidi telefonar para o até então quase desconhecido (para mim) Manuel S. Fonseca. O argumento do meu amigo foi o de que a Guerra & Paz gostava de polémicas, e sem dúvida o meu manuscrito podia perfeitamente constar de tal categoria – pelo menos em boa parte.
Se bem me lembro nem sequer telefonei: de facto acho que um bocado a medo me limitei a enviar um mail para a G&P, em nome do Manuel, com o texto anexado.Depois aconteceu aquele que para mim foi um dos episódios formais mais divertidos da minha vida.
Continua a ser.
Porque um dia, sem se fazer anunciar que não pela maneira mais directa possível, recebo um telefonema do nosso MSF com os seguintes dizeres: que sim, que gostaria muito de editar o meu livro mas que tal não era possível dado ele próprio, Manuel S. Fonseca, fazer parte do grupo de pessoas que eu, directa ou indirectamente, desancava na presuntiva obra.
Confesso que fiz cara de parvo ao telefone.
Por outro lado o tom de sinceridade divertida que eu sentia nas palavras do meu interlocutor deixou-me momentaneamente perplexo. E ele, o interlocutor, lá prosseguiu do outro lado da linha, no mesmo tom leve e despreocupado (a dramatização é da minha lavra):
– Bem, a verdade é que eu faço parte do alvo das suas críticas. Porque enquanto director de Programação da SIC fui responsável e um dos grandes incitadores à realização do filme português O crime do padre Amaro…
Aquilo foi como uma bomba de neutrões!
O que agora vou confessar é inconfessável mas verdadeiro.
Ainda em estado de choque profundo, meti o mainframe de emergência a funcionar. E ele, qual Hall 9000 na fase obediente, disse por mim estas matemáticas e quase infames palavras:
– Ah!…, mas isso não tem qualquer espécie de importância! Porque nos agradecimentos prévios dedico o livro a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a escrevê-lo…
E de facto na dedicatória de Eça de Queiroz e os seus clones está escrito o seguinte:
«Todas as ajudas são preciosas, mas decorre dos factos que umas o sejam mais do que outras… Por vezes, curiosamente, são aqueles que se nos opõem quem fornece as melhores.
Dedicado a todas as pessoas que, de alguma forma, me ajudaram a escrever este livro».
Enfim, mais uma facécia das minhas.
Mas sim, aquele a «todas as pessoas» colocava realmente MSF na minha zona de tiro franco (um quarto de capítulo, não era coisa pouca!). E também na dos agradecimentos prévios – o que era duma ambiguidade clamorosa, convenhamos.
Fosse como fosse, facécia ou não, vilania pura ou levérrima chantagem emocional, o facto é que o meu Hall 9000 alternativo acertou em cheio com os seus métodos.
Porque o Manuel, com aquela voz desempoeirada e vibrante que se lhe conhece, logo entendeu que «então assim está tudo bem», entrando de seguida na área dos precisos: que era preciso fazer isto, e mais aquilo, e assim, e assado…
O livro saiu lindo como nunca imaginei que ficaria, num recorde temporal que também não sabia possível.


EÇA DE QUEIROZ E OS SEUS CLONES

Todas as ajudas são preciosas, mas decorre dos factos que umas o sejam mais do que outras...Por vezes, curiosamente, são aqueles que se nos opõem quem fornece as melhores.Dedicado a todas as pessoas que, de alguma forma, me ajudaram a escrever este livro

PREÂMBULO

Estranha viagem esta, a que me propus fazer pelo mundo de Eça de Queiroz.
Estranha mas muito interessante.
Nela encontrei várias pessoas que viam personagens do escritor nas mais diversas paragens e situações, e que se apropriavam mesmo, nestas suas visões subjectivas, de mundos paralelos onde também coexistiam certos e determinados Eças. Consequentemente, deparou-se-me também o escritor transformado em personagem temporário destes irremediáveis queirólogos, que o exibiam muito mais complexo, sofrido e esquisito do que na realidade alguma vez ele poderá ter sido ou sequer aparentado de forma fugaz. Eram as extrapolações de Eça – uma espécie de clones tortos, à semelhança do que a melhor ciência vigente produz, sempre dotados de graves insuficiências quando comparados aos modelos originais.
Tais exercícios não derivavam, portanto, do que na realidade o escritor fez, foi ou escreveu: eram espécimes alternativos, e surgiam aleatoriamente ao sabor da fantasia ou da oportunidade de momentos concretos. Para os criadores destes clones genética e psicologicamente modificados de nada serviram os documentos, os dados oficiais e, menos ainda, os testemunhos dos pais e de outros familiares directos – que ainda chegaram aos meus dias de bisneto distante.
Porque tão criativa gente achou sempre que tudo isso era apócrifo, mentira ou, no máximo, uma encenação piedosa.
Aproveitando o advento de nova versão fantástica sobre o nascimento de Eça (copiosamente ornamentada de pormenores romanescos, como de costume), decidi produzir uma espécie de guião que deveria seguir por uma estrada obrigatoriamente dedutiva e também um pouco interior – mas sempre sinalizada da forma mais objectiva (tanto quanto isso é possível).
Com esta viagem pretendi mostrar aquilo que, apesar de múltiplas evidências, essas pessoas pretendem negar através dos frutos da sua vastíssima e por vezes desenfreada imaginação. A principal razão que me levou a entrar em semelhante repto não foi a defesa de Eça – ele dispensa perfeitamente tal investimento.Foi antes a qualidade social dos autores de tais especulações: é gente ligada à cultura, que, dada a sua diversificada notoriedade, saberá certamente reconhecer o reflexo das respectivas responsabilidades enquanto difusora dessa mesma cultura. A segunda razão foi, naturalmente, a minha consciência de que as suas teorias estavam profusa e fundamente erradas. 
Houve quem me dissesse para não fazer este trabalho, que poderia não ser boa ideia – que me iam zurzir as orelhas!, pela certa... Ora!, como não?!, pensei na altura. Só podia ser estimulante – com zurzidelas ou sem elas. Corria um suposto e muito discutível risco que – por entre muitas outras coisas interessantes que entretanto foram acontecendo – me trazia um imediato e inexplicável retorno de prazer e realização. 
Esta impressão antecipada materializou-se plenamente. Porque toda esta minha reflexão sobre o escritor revelou-me um ser permanentemente em busca de conhecimento, aventurando-se no acontecer da Vida como alguém que já sabe não ser esta uma actividade especialmente sedentária – seja no tempo, seja no espaço. Alguém convicto da sua honestidade intelectual e da sua capacidade (em permanente actualização) para descrever o que essa mesma Vida lhe ia mostrando em determinados momentos.Apresentou-me também a um herói que desconhecia em absoluto – o muito novo, solidário e inflexível cônsul de Portugal em Havana –, exibiu-me o filho de uma relação complexa e, finalmente, deu-me a conhecer – ainda que de forma subsidiária – uma certa morbidez muito lusa que adora tintas bem carregadas quando se trata de fazer (e até de ver) retratos de seres que a transcendem de forma radical.
E por este trilho peripatético fui sabendo das várias terras onde o meu glorioso antepassado nasceu (diz-se), dos vários pais e mães que teve (diz-se...) e da possibilidade de ele ter sido ainda um sodomita encoberto ou apenas um mero diletante na sua arte (diz-se também!). Tomei conhecimento dum mandarim chinês e dos seus milhares de assassinos potenciais, dum amante impotente – triste como a noite –, dum tetravô maçon e duma trisavó tremenda.
É o que agora relato nesta pequena publicação. Com grande prazer e a certeza absoluta de que muito mais haverá para descobrir nesse ser único e fascinante que tive a sorte e a honra de ter como bisavô. 
António Eça de Queiroz
(amanhã há mais...)


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Wreckage colonial (**)

Havia um engenheiro de máquinas, hoje gestor de importante grupo empresarial aqui do Norte, que um certo major quis um dia transformar em governador civil de uma cidade já quase fantasma. 
Recém-formado, engajado na nossa tropa de fim-de-guerra, deveria representar alguma forma de Poder administrativo, evitar um vazio formal.
O major pretendia continuar a ser o que já era na cidade desde há escassos quatro meses: governador militar e comandante do batalhão que tentava assegurar uma qualquer paz em Malange. 
Isto passou-se em Maio de 1975 – ou, como costumo dizer para me rir do Tempo, no último quartel do último século do milénio passado. Mais concretamente no início da guerra civil que opôs o MPLA de Agostinho Neto (desde então sempre no poder) à FNLA de Holden Roberto e à Unita de Jonas Malheiro Savimbi.
O caos é relativamente conhecido: de nada serve tentar reproduzir o estertor de uma cidade, o medo das bombas, o stress da incerteza total, a evidência do desastre. E a multidão com os seus olhos brilhantes, inquietos de impotência, quase gastos de procurar a ajuda da esperança no impossível.
O major sabia muito bem disso tudo. 
Mas também sabia – ou talvez apenas achasse dever ser assim, seguir o livro, simplesmente – que a autoridade civil tinha de existir formalmente para que ele pudesse exercer a sua função militar. Por certo que achava isso, talvez achasse que ainda era possível fazê-lo.
Os dois jovens oficiais milicianos indigitados para tão estranha tarefa – a de redimir um poder civil que fugira à frente do fogo da guerra, também ela civil, e das suas bem sopradas brasas – rapidamente tentaram demonstrar o equívoco do seu superior:
– O senhor estará louco?! Já não há nada para segurar! O comércio foi arrasado, as lojas e as casas estão a ser permanentemente saqueadas, há pessoas que são abatidas simplesmente por estarem nas ruas!... A única coisa que agora fazemos é cobrir os corpos de cal... Vamos governar o quê?!... Com o apoio de quem? De Luanda? O senhor acredita nisso?!..., defendia nervosamente o  proposto governador civil a contragosto.
Então o major fez que sim com a cabeça, disse que concordava, que realmente não acreditava em nada do que acabara de propor.
– Mas não tenho outra opção. O nosso alferes sabe muito bem da situação em que estamos porque manda na 'ferrugem'[*]: eu não tenho viaturas para levar toda a gente para Luanda, disse o militar de carreira, marcando de forma sincopada as orações desta sua última frase. Porque não eram apenas os 500 homens do batalhão, havia que contar com mais de mil civis nas mais variadas circunstâncias. – Já não conseguimos proteger coisa nenhuma e estamos encurralados: não podemos sair daqui. Você tem alguma ideia, alferes Botelho?...
– O meu major sabe que estive anteontem debaixo de fogo durante quatro horas... Nada do que possa acontecer agora me espantará muito, mas é claro que tenho medo!, contrapôs, defensivo, o alferes engenheiro. Depois de breve pausa, continuou: – Bem..., se me arranjar alguma protecção eu e os meus mecânicos tentaremos arranjar peças e os carros necessários.
E assim teve de ser.
O miliciano, alferes da 'ferrugem', sem grande porte atlético e com cara de quem andava ali um pouco ao engano – afinal, a mesma de todo o batalhão –, passou cinco dias em incursões nocturnas, acompanhado dos seus especialistas e de uma Berliet com um pelotão de atiradores para protecção de proximidade e pouco mais.

Durante cinco dias retiraram de camionetas e carros abandonados uma quantidade apreciável de peças sobressalentes. Ao fim de uma semana a frota estava completa. No dia seguinte o batalhão abandonaria Malange, rumo a Luanda, acompanhado pela desgraça de mais de um milhar de civis subitamente desterrados.
Nessa última tarde, três militares do batalhão português cederam a uma tentação: foram vistoriar os destroços. Três amigos, um deles armado de uma velha Walther P-38[†]– e mais nada.
Uma livraria escaqueirada deu-lhes livros de pintura – esquecidos pelos anteriores assaltos. A casa de um radioamador local forneceu uns óculos escuros muito bons (Ray-Ban), um excelente e completíssimo atlas da National Geographic, de 1972, e um receptor de ondas curtas que nunca foi possível voltar a pôr em funcionamento.
Na última casa – que era rica de aspecto mas despojada de conteúdo – a busca foi severa.
Os três amigos viraram tudo de patas para o ar, à procura sabe-se lá de quê.
Subitamente, uma porta fechada!... À chave!... A gula cresceu primária, de forma natural. Havia que arrombar a porta, nada de particularmente difícil.
Mal a porta se abriu de rompante a vontade dos 'salteadores' logo ali murchou como o canhão subitamente amolecido num filme de desenhos animados: dentro da sala tão bem resguardada por dentro do edifício, mas agora já esventrada na sua parede exterior (talvez por uma morteirada), estava um preto – muito, muito preto – com uma espingarda de caça nas mãos.
A velha Walther não permitia grande sabedoria, ou sequer diplomacia, sobre o que fazer perante o indivíduo – que por segundos morosos olhou o petrificado grupo com o branco dos olhos todo saltitado de pânico.
Depois aconteceu o que no fundo toda a gente queria que acontecesse: num gesto rapidíssimo o tipo abriu a caçadeira, virou-a ao contrário – deixando cair os cartuchos –, e fugiu com velocidade digna de registo e uma salva de palmas de benefício.
Nessa última noite houve uma improvisada banda de música a chinfrinar, que festejava, inconsciente de álcool, de cannabis e de alguma esperança, o regresso à Metrópole[‡].
Isto tudo nas ventas dos que largavam o sítio que em muitos casos os vira nascer e singrar na vida. Agora, fugiam por razões que na verdade compreendiam muito mal.
Na manhã seguinte, às sete da manhã, a incrível romaria de desterrados (de um e do outro lado) iniciava os seus últimos dias em África.
Alguns, porém, ficaram, e outros até voltaram.
Outros não.

[*]
 Secção de mecânica-auto dum quartel ou destacamento operacional
[†] Pistola alemã vulgarizada na Segunda Guerra Mundial
[‡] Designação então corrente para Portugal

(**) Este texto foi publicado no blogue brasileiro 'Borboletas nos Olhos', da minha amiga Luciana Nepomuceno

(as fotos são da autoria do meu camarada d'armas Rui Romão)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A campainha do Mandarim

Os factos que aqui apresento não são conhecidos da grande maioria do público leitor, mesmo daquele que se considera fã incondicional do escritor português.
Utilizei-os para escrever um texto já destinado ao volume Eça de Queiroz e os seus clones, onde surge com o título Jovem cônsul enfrenta perigosa campainha. No entanto acabaria por ser publicado no Expresso/Actual com o razoável pretexto de comemorar o 160º aniversário do seu nascimento - apresentando então o título que agora reutilizo. 
Pretendi assinalar a simbiose entre o romancista e o diplomata.


O historial diplomático de Eça de Queiroz como cônsul português em Havana mostrou-me à saciedade a grande confiança que o jovem José Maria tinha, já então, na sua honestidade intelectual – característica que, como todos sabemos, deverá envolver o todo do usufrutuário, desde o pensamento germinal até ao acto conclusivo ou à síntese absoluta.
A propósito do que então aconteceu em Cuba e da incidência dos vários momentos que o escritor ali viveu e provocou na sua posição de diplomata – aos 27 anos –, o seu amigo Eduardo Prado diria que ele «teve a rara boa sorte de iniciar a sua prática dos homens e das coisas por uma obra de realidade, de honra e de amor».
A minha única dúvida a este respeito é se é exacto caracterizar o que Eça fez como um sucesso ou acaso da sorte – ainda que da boa.
Estes dois anos épicos (porque não?) da presença de Eça em Cuba levaram-me também à arriscada conclusão de que toda a génese de O Mandarim, toda a matéria-prima dessa aparentemente simples fábula simbolista de Eça, aconteceu e coexistiu com o escritor na sua passagem, enquanto responsável máximo pelos negócios do reino – económicos, políticos ou humanos –, pela ainda colónia espanhola.

Olhemos os factos.
Colocado em Havana em 1872, Eça enfrenta quase imediatamente um desafio singular e desmedido: opõe-se de forma radical à auto-denominada ‘Central de Colonização’ – um cartel empregador dominado pelos proprietários das plantações de cana-de-açúcar da ilha caribenha.

O cônsul português denuncia de forma veemente o tratamento infra-humano imposto às dezenas de milhar de emigrantes chineses que, chegados via Macau, engrossam as hordas de trabalhadores de que toda a economia cubana tanto carece – que, à data, rondariam as cem mil pessoas. Com tal atitude, Eça conquistou de uma assentada uma grossa e entusiástica falange de ricos inimigos e umas quantas resmas de problemas – como é bom de ver e a seguir se confirma.
Eça revolta-se com especial ênfase contra a legislação cubana dirigida ao trabalhador coolie (termo depreciativo para o emigrante chinês de então), que representa, afinal, uma armadilha sem saída: o seu contrato de trabalho, que lhe assegura e mal os limites da sobrevivência, é por oito anos; findo este tempo, o coolie pode apenas voltar à China (com que dinheiro?), renovar o contrato, ou então recolher aos chamados ‘depósitos’ – autênticos ghettos abarracados, repletos de miseráveis permanentemente explorados por quem lhes fornece alimentação a preços da usura.
Quando alguém precisa de mão-de-obra, vai lá e requisita oficialmente... escravos! Considera o cônsul não haver «ninguém mais infeliz do que o coolie (...) a não ser o fellah no Egipto e na Núbia»... 
Um dos seus relatórios, enviado ao ministério de que dependia, sintetiza toda a máquina viciosa dos senhores do açúcar:
«(...) Assim o depósito é apenas um intervalo escravo entre duas escravidões».
No seu livro Eça de Queiroz e o século XIX, o escritor brasileiro Viana Moog descreve a situação em que o cônsul português se encontrava no auge deste seu combate humanitário sob bandeira oficial:
«Em face desta situação, o cônsul Eça de Queiroz tem que optar por uma destas alternativas: ou adere à Comissão Central» (a famigerada ‘Central de Colonização’ que, actuando à margem de qualquer lei, boicotava todos os pedidos de nacionalidade portuguesa solicitados pelos coolies junto do consulado português) «ou luta contra ela. No primeiro caso tornar-se-á rico, receberá toda a classe de considerações, sobretudo se soube de começo simular hostilidade capaz de alarmar os negociantes. No segundo caso, terá de percorrer um caminho cheio de lutas, de ameaças e dissabores».

A fortuna a um passo

Ou seja: o diplomata sabe perfeitamente que lhe bastaria entrar no jogo do cartel cubano do açúcar para ficar rico de vez – e que está mesmo na posição ideal para o fazer. Não fugirá, no entanto, à sua atitude inicial, como refere Moog:
«Não tem dúvidas ou vacilações. Fica ao lado dos chineses», lutando «contra tudo e contra todos, em defesa da massa anónima dos oprimidos que nada lhe podem dar em troca».
Do outro lado da barreira, irritadíssimos com aquele peralvilho armado em cônsul, espantam-se os terratenientes cubanos com a «insensibilidade de Eça em frente da fortuna e a sua inacessibilidade pelas seduções».
E é no meio desta intensa e desigual luta de já quase dois anos – durante a qual o diplomata propôs as mais variadas alterações à legislação, emitiu centenas de certidões de nacionalidade e aturou os ódios e as mais variadas altercações por parte do governo da ilha e seus senhores – que surge em cena o marquês de Chin-Lan-Pin.
Tratava-se dum elemento do conselho imperial da China em função diplomática. Ele e uma comissão por si chefiada passeiam-se por Cuba, aparentando inteirar-se das condições dos seus compatriotas emigrados. Pin faz-lhes bastas promessas e juras, assume um repúdio aparentemente genuíno com tudo o que de mal ali se passa, consegue mesmo uma grande manifestação de apreço por parte de toda aquela gente perdida no meio do Atlântico. E consegue também que os poderosos locais lhe reconheçam autoridade total (imagina-se facilmente a troco de quê) no que concerne aos coolies.
Com isso retira todo e qualquer protagonismo ao cônsul português, que realmente era o único ser ali preocupado com o destino de todos aqueles paupérrimos reféns.
Eça, que coloca mesmo a hipótese de encerrar o consulado – criando assim um incidente diplomático com Espanha –, relata a situação junto de Portugal nos seguintes termos:
«(...) Desde que o Governo da ilha reconhece a autoridade dessa comissão, todas as questões dos colonos passam, desde logo, a ser tratadas directamente entre os enviados chineses e o Governo da ilha. Eu nem mesmo posso reclamar o direito de intervenção nos interesses daqueles colonos que têm o título de nacionalidade portuguesa, pois que o Governo se prepara para anular a validade desses títulos».
Tudo isto se passa na órbita temporal da ‘Guerra Grande’ cubana e das expectativas de independência face a Espanha – que em simultâneo atravessa o seu momento de adesão ao fim da escravatura.
Eça sabe disto e muito mais, já que numa das várias exposições que faz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal mostra mesmo as armas de que dispõe para obrigar Madrid a aceitar as reformas que continuamente tem vindo a propor:
«No dia em que o porto de Macau se fechasse à emigração, uma grande ruína abalaria a indústria açucareira de Cuba. Por esta razão, as exigências que impõe o Governo de S. M., serão aceites».
Depois de mostrar a ameaça com que se pode esgrimir, Eça exibe o argumento prático que deriva da necessidade que Cuba tem de substituir o trabalho escravo por uma colonização dotada de leis concretas:
«Tenho a convicção de que o governo espanhol aderirá à justiça desta reforma, posto que a nação que emancipa os escravos, não pode logicamente escravizar os colonos».
É este o teor global da guerra pessoal que o escritor ‘comprou’ em Cuba, na sua estreia como diplomata, e que terminaria apenas quando abandonou Havana de vez.
No seu livro Eça de Queiroz, Cônsul ao Serviço da Pátria e da Humanidade, o embaixador Mário Duarte (que foi cônsul em Havana a partir de 1945) descreve pormenorizadamente o comportamento de Eça como diplomata, destacando naturalmente aquilo que comprovou de forma documentada in loco.
Ou seja: uma certa ideia de que Eça foi um banal funcionário consular, um burocrata macio, perde com estes testemunhos qualquer credibilidade.
Neste passo, natural é que alguém se pergunte o que é que isto tudo tem a ver afinal com o livro O Mandarim – publicado seis anos mais tarde no Diário de Portugal sob a forma de folhetim.
Era algo escrito já há algum tempo, porque o escritor o entregou a um nervoso editor em substituição de uns já prometidos Maias – ainda em fase de acabamentos.

Título misterioso na cabeça da página

Na verdade, omiti até agora – propositadamente – a categoria social a que pertencia o plenipotenciário chinês que se cruzou com Eça de Queiroz em Cuba.
Acontecia que o nosso já conhecido marquês de Chin-Lan-Pin – que nada terá cumprido do muito que prometeu aos seus conterrâneos emigrados – era simplesmente um mandarim de 1ª classe.
E agora, que já tenho o título fixado na cabeça da página, vamos à procura da tal campainha na qual nunca se deve tocar.
E aí está ela, bem visível: a vil riqueza que Eça podia ter arrecadado facilmente se não tivesse feito as ondas que fez. Bastava ter fechado os olhos àquela infâmia. Bastava, enfim, ter feito soar a campainha – um gesto que certamente consideraria vulgar no ser muito poderoso e igualmente falso que se escondia sob a cabaia chinesa do oriental marquês. O tal mandarim a quem mais tarde Eça acaba idealmente os dias, no conto que escreveu com esse título, utilizando para tanto o medíocre, inconsistente e portuguesíssimo Teodoro.
Há nesta personagem uma patética mas especial mistura de Fausto com Judas. Nela se vê a predestinação de quem entregou a alma e o consequente desconsolo pelo real valor de mercado que tão subtil parte do ser afinal representa: uma data de dinheiro que – vendo bem – para nada serve.
Porque um homem que traiu os outros unicamente para enriquecer é alguém que não merece qualquer espécie de condescendência ou estima, nem de si próprio.
Porque quem toca a campainha do Mandarim, deixa de ser...
A ser isto verdade, poder-se-á talvez questionar a forma estranha, fantasista, que Eça utilizou para desenvolver esta sua parábola – bastas vezes maltratada pela crítica.
Mas quais seriam as alternativas? Construir um romance puro e duro sobre realismo burocrático no infecto «paliteiro de palmeiras», com marquês chinês e tudo? Armar um incidente diplomático perfeitamente imprestável ou até pernicioso? E porque não escapar antes, por momentos que fosse, à «impertinente tirania da realidade» – como explica no prefácio à edição francesa da mesma obra?
Para coroar esta (talvez) mirífica versão d’O Mandarim com Cuba em pano de fundo só falta recuar no tempo até ao momento em que Bernardo Pindela, chegado de Macau (pois!, de onde vinham os pobres coolies) no final duma missão diplomática ao serviço do rei D. Luís, oferece ao seu amigo José Maria a bela e sedosa cabaia mandarinesca – que hoje faz parte do espólio do escritor reunido na Fundação Eça de Queiroz/Casa de Tormes.
O já então conde de Arnoso (o título é-lhe concedido em 1885, quando se torna secretário do rei) conhecia bem a saga que Eça vivera em Havana, pelo que a exótica oferta vem acompanhada de ironiazinha privada: «Não tocaste a campainha do Mandarim e, como tal, a riqueza que ofusca não te bateu à porta. Mas deixa lá que ele morreu na mesma. Como prova disso trago-te aqui a sua cabaia mais rica!» – atira Pindela, jactante.
E Eça, sorridente, depois do apertado abraço amigo, rabujaria com humor:
«Ora!, Bernardo, onde tenho eu sobretudo uma pança, para encher estas pregas amplas e mandarinais?»*.
Obviamente que não foi este o cenário coloquial do episódio da cabaia importada de Macau por Bernardo Pindela.
Mas podia perfeitamente ter sido.
Faria sentido.

Dois últimos pormenores

Posteriormente à publicação deste texto no Expresso/Actual, decidi escrever para esta edição uma breve adenda onde sublinho os factos que me induziram a ideia original.
(Curiosamente, e quase em simultâneo, o contacto que estabeleci com uma investigadora destes aspectos da História confirmaria cabalmente, com traços ainda mais vincados, a enorme justiça e rectidão que Eça empregou neste episódio da sua vida profissional.)
O que me levou a pensar que Eça teve efectivamente um confronto moral com a simbólica «campainha do mandarim» – quem sabe se não sentindo mesmo o aguilhão monstruoso da cobiça e do dinheiro fácil, que chegaria a rodos mediante uma sua indiferença estratégica para com o destino dos coolies –, é a declaração final de Teodoro ao seu leitor, «criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão».
Depois de legar a sua fortuna maléfica ao próprio Diabo, a personagem que se apresta por fim ao confronto com a morte confessa um estranho consolo:
«Que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu (leitor), tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões (...)».
O diplomata/escritor sabia perfeitamente a quem se dirigia: a todo aquele que, numa situação semelhante à sua, teria optado pelo outro lado da barreira – ou seja, o dos comerciantes de açúcar da antiga colónia espanhola. E ele sabia serem muitos os candidatos a tal lugar: no mínimo tantos quantos os mandarins de toda a imensa China.
Como que magicamente, por via de contacto estabelecido com a investigadora Maria Teresa Lopes da Silva – que na altura terminava a sua tese sobre a emigração chinesa através de Macau para Cuba e Peru (entre 1851 e 1874) –, foi-me confirmado o importante papel de Eça na denúncia do que se passava em Cuba com os chineses.
Mas tal confirmação vinha acompanhada de informação que considero crucial para se perceber bem a real dimensão da atitude do então jovem cônsul português.
De acordo com a investigadora, «o cônsul Fernando de Gaver, que instalou e geriu o consulado de Portugal em Havana entre 1851 e 1872,» – imediatamente antes de Eça, portanto – «era parte interessada neste negócio»...

* (Trecho retirado de uma carta em que Eça se refere à prenda de Pindela nestes exactos termos)

sábado, 24 de setembro de 2011

A estátua*

Nas memórias intrepanáveis o Sonho representa um caminho que parece acabar num enigma. Embora para mim, na verdade, não passe de um beco com o Universo ao fundo.
Eis o que sobra dele.

Encontro-me numa fila de desconhecidos que confina numa secretária. 
Sentado atrás dela, um gorducho enfarpelado numa justa fatiota de cetim castanho analisava e decidia. Usava também um gorro negro de tecido brilhante, com um pássaro em voo bordado a dourado.
O exótico personagem ia folheando documentos com determinada condescendência crítica. Via-se isso nos gestos: havia breves e pensativas pausas, punha um papel de lado – e, não sem antes coçar a testa com um indicador animado pela rotina, dava instruções ao respectivo proprietário, recomendando-o a destino desconhecido para todos nós, seus companheiros de triagem. Um bacoco ia para ali, outro para acolá,  todos desapareciam sem deixar rasto no chão ou lamuria no ar.
Como seria de prever, chegou a minha vez.
Mostrei parcos haveres: uma pasta envelhecida pelo uso de várias mãos, não muito preenchida de artigos. Lá dentro havia uma dúzia de desenhos de várias substâncias e conceitos estéticos – coisas que lembro sentir alguma renitência em mostrar.  
O meu receio revelou-se escusado: o burocrata dos sonhos folheou a pasta sem se interessar por nada em especial, para de seguida me apontar perspectivas e trajectórias.  
Havia um corredor não muito comprido que terminava numa parede. À direita abria-se uma arcada bem larga. À esquerda, encerrava a percepção uma porta de madeira devidamente fechada por um grande ferrolho com batente.  
Para lá da arcada um espectáculo tão feérico quanto esquisito apresentou-se-me à curiosidade. E a curiosidade em sonhos (para quem não sabe ou não se consegue lembrar) é sempre muito mórbida, muito pouco contida. Mesmo se um medo qualquer ou uma intimidade obscura aconselham prudência.  
Porque o sonho vive por si, como toda a gente sabe – e je m’appelle Erik Satie, comme tout le monde...
Entrei numa enorme câmara que apresentava um tecto globular composto de meias esferas côncavas. O espaço, até onde se podia vislumbrar, estava repleto de camas. Havia-as de todos os tipos, para todos os tipos, ricos, pobres, grandes, gordos, pequenos e magros. A única certeza era a de que uma delas me pertencia por direito – ou, quem sabe, por pena.  
De facto, no centro da vasta câmara, iluminado a espaços por uma luz forte vermelho ferrugem que parecia vir do seu interior, coberto com damascos e grandes almofadas de veludo, encontrei um enorme e sumptuoso leito com dossel. Descaradamente mefistofélico, diga-se em abono da verdade.
Não me interessou, passe o facto de me pavonear por vezes (e consciente da vaidade) com desmaterializados pactos míticos, tendo Deus e o Diabo por sócios.
No passo seguinte encontrava-me já na frente da grossa porta de madeira, que representava a segunda saída do corredor indicado pelo tipo do chapéu com pássaro.
É claro que entrei, que mais poderia fazer?
Lá dentro esperava-me um ambiente calmo, quase soturno.
Era uma espécie de nave de igreja, imensa, notoriamente antiga, com vitrais ao fundo a coar uma luz indefinida onde prevalecia um amarelo pálido enfeudado em finas e também ténues faixas azuis. Uma diagonal mágica de luz e côr que cumpria mais de vinte metros de pé direito, e que exibia a espaços a dança contínua e inefável da poeira.  
Tudo ali era grande e minúsculo.
Havia bancos corridos de madeira escura, muitos – mas poucos utentes. E esses de cabeça baixa, em ar de prece ou vigília. Ou no mais puro adormecimento.
Ausência absoluta de som.
Dei comigo ajoelhado no chão, um chão incerto de pedras ali colocadas há muito pela arquitectura românica. Desenhava nessa tela improvisada, com paus de giz colorido, uma bem completa galáxia (vá-se lá saber porquê). Era pouco mais que um fedelho, convencido da minha enorme convicção: desenhava estrelas, nuvens cósmicas vizinhas do início do Mundo, pulsares, estrelas binárias, anãs vermelhas, buracos negros, poeira estelar, cometas, supernovas – e mesmo um ou outro planeta com hipóteses.
Subitamente senti uma presença estranha, que na verdade não o era. Ao meu lado, alguém (uma pessoa que na realidade muito prezo) observava os meus esforços com o empenho único da amizade desinteressada. Esse alguém – uma mulher muito alta e bem mais velha do que eu – perguntou a dada altura na sua voz forte e um pouco arrastada: 
– Mas se queres voar para que raio estás tu a fazer uma estátua?...
O sonho acabou ali e ainda hoje não tenho uma boa resposta para tal pergunta.
O meu irmão, que é analista de sistemas e psiquiatra amador, resolveu de forma simplista a parcela mecânica do enigma:  
– Há um claro silogismo implícito! Pela força da gravidade uma estátua é artefacto totalmente incapaz de deixar o chão pelos seus próprios meios...
Não resolve nada, mas não deixa de ser uma pequena verdade.
A outra pequena conclusão é minha em exclusivo, e também não resolve nada. Remete-se a um falso silogismo para assim adquirir certa substância contraditória: 
É certo que o homem fica sempre preso às suas obras, mas Blériot conseguiu voar no seu canard monoplane...


* (Adaptado às circunstâncias e com algumas alterações de forma e conteúdo, este título faz parte do volume ‘Contos Acrónicos’, editado em 2003)




sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O estranho caso das tartarugas ninja

A bem dizer, as tais tartarugas não me interessam nem um bocadinho, sejam as personagens de série de animação ou, menos ainda, as suas aventuras. Se fosse o Bugs Bunny ou o Daffy Duck … aí já não digo nada.
Estes quatro antropotestudinosos com nomes italianos só me interessam devido exactamente aos seus nomes: quatro dos maiores génios da Renascença foram escolhidos pelo criador da série juvenil  para encarnarem nuns bicharocos verdes, que, para cúmulo, combatem o crime onde quer que ele se manifeste. 
Não há pachorra!... 
No entanto, o porquê de semelhante escolha deve existir em qualquer lado. 
Suponho eu  e por isso vou tentar encontrá-lo. 
Na minha pose de antropólogo amador nem a dimensão da verdadeira arte de cada destes génios de nome modernamente reutilizado me preocupa: eram todos magníficos e isso chega-me. 
O que me interessa neles (ou antes, passou a interessar depois da minha filha me pregar uma lição objectiva de história de arte, durante o jantar) é o aspecto exemplar das suas vidas agitadas.
Fiquei a saber algumas coisas que já desconfiava: eram uns devassos completos e apenas um não era homossexual; e outras que desconhecia de todo (à excepção do caso particular de Michelangelo, que já o sabia um bom filho-da-puta): o carácter revelado pelo tipo de relacionamento de cada um e de todos.
Começo pelo que sempre me agradou mais: o grande inventor do guardanapo (sim, Leonardo). 
Filho bastardo da nobreza de Vinci, foi preso aos 14 anos com um dos seus primeiros namorados por actos públicos atentatórios da moral mais ou menos visível. A sua sorte foi que o amante de ocasião era um jovem príncipe, e, como tal, não podia ser preso.
Donde, por defensivo mimetismo social, Leonardo também não ficou na choça. 
Bem mais tarde, já artista reconhecido, toma por amante e modelo um belíssimo sacaninha da pior espécie: um tal Gian Giaccomo 'Salaí' (à letra: porquito, pequeno demónio), que o roubava e o traía a torto e a direito – entre mil outras patifarias da época. No entanto, apesar do nome que lhe traía a índole, Salaí foi companheiro de Leonardo até ao fim: vivia na casa de campo do artista na altura da morte deste e herdou as suas vastas vinhas – e a Mona Lisa, que na altura foi avaliada em 505 liras (uma razoável fortuna).  
Isto tudo aconteceu encontrando-se Leonardo em Paris com um outro namorado, o conde Francesco Melzi, que acabaria por herdar uma série de quadros seus e os seus diários científicos (espólio este que acabaria roubado por um amante que Melzi mais tarde meteu em casa…). 
Resta lembrar que Leonardo tinha uma personalidade mais extrovertida do que seria de imaginar pelo que dele transpira a História. Nos dias de hoje, atendendo à maneira espaventosa de se vestir (mesmo já velho) e de se relacionar, dir-se-ia dele com a facilidade dos julgamento actuais que era uma autêntica bicha louca. 
No lado oposto encontramos o misógino e maltrapilho Michelangelo Buonarrotti, e a principal vítima do seu feitio tumultuoso: Tommaso dei Cavalieri, um jovem nobre que a tudo renunciou por amor – e a quem o autor de David tratava muitíssimo abaixo de cão. 
O Michelangelo comportamental era uma besta invejosa, pretensiosa, má: dos quatro era o único que não era amigo de nenhum dos outros, e a sua inveja social demonstrou-a bem quando o quadro A Academia de Atenas, de Raffaello Sanzio (o Rafael do quarteto), que exibia no topo da figura central de Sócrates a face de Leonardo, foi instalado na sua Capela Sistina. 
Morreu riquíssimo, completamente em desacordo com o seu estilo de vida, deixando o seu fiel amante na mais soturna miséria. 
Porque o beneficiário do artista seria afinal um seu sobrinho, que ficou encarregado de conseguir com a herança um título nobiliárquico para a família Buonarrotti … 
Um caso imprestável e indigno de vingança social póstuma, está bom de ver. 
Para o bem e para o mal, surge, por ordem de grandeza, o excelente Raffaello de Sanzio. 
Filho de artista da corte de Urbino e protegido de vários papas, era um heterossexual hiperactivo.
Instalado na corte pontifícia por Julio II – que lhe encomendou vasta obra e o gostaria de ver casado com uma sobrinha do cardeal Medici Bibbiena –, o bom do Rafael não era um perfeito Cortegiano como o seu amigo D. Miguel da Silva, bispo de Viseu e grande entusiasta, hoje quase ignorado, da cidade do Porto (Baldassare Castiglione dedicou-lhe a sua obra mais conhecida, exactamente Il Cortegiano).  
Isto tudo porque pelo meio da sua copiosa arte e das múltiplas aventuras amorosas, Raffaello torceu o nariz à putativa noiva Medici, ao mesmo tempo que concubinava no quarto ao lado do papa com a sua favorita – Margherita Luti, la Fornarina (padeirinha, à letra, até porque era filha dum padeiro) –, sonhando a espaços fazer-se eleger cardeal. 
Nada doido, portanto. 
Morreu novo, dans son champ de bataille – qui était son lit
De facto, aos 37 anos, numa Sexta-feira Santa, alegadamente dia do seu aniversário, teve uma noite de sexo de tal forma ardente com a sua Padeirinha que ficou doentíssimo. Como não quis dizer o que se passara ao certo, trataram-no de modo a morrer da cura. 
Mas deixou boa fortuna à amante, nada de confusões!... 
Para acabar, e com bem pouco brilho, diga-se de passagem, resta Donnatello – um renascentista primitivo que morreu vinte anos antes de Raffaello nascer.  
Homossexual assumido e assim tolerado, não lhe é conhecida nenhuma extravagância de carácter. Dava-se bem com toda a gente e os seus amores não ficaram na História. 
Era, portanto, um chato – embora gajo porreiro. 
Acabada a salada, perdura o espanto: o que terá levado estes quatro personagens da cultura mundial ao panteão do cubo mágico na casca dumas tartarugas mutantes armadas em espertas?!… 
Isso sim, espanta! 
O resto foi sempre assim.

ps (Já depois de ter escrito esta rábula espaço-temporal, a Joana (minha filha) tentou explicar-me o inexplicável: que, de acordo com a ratazana Sensei (pai espiritual das tartarugas ninja, sublinhe-se), o uso de tais nomes resultava do facto de ele, ratazana Sensei e pai espiritual das tartarugas ninja, muito admirar as obras dos senhores... O que, segundo a minha informadora privilegiada, reflecte simplesmente a intenção do próprio criador da série...
Claro que não me convenceu. Na melhor das hipóteses, para mim, o criador da série limitou-se a usocapiar uns nomes sonantes para dourar a pastilha.
Ou seja, mero publicismo – e numa boa, porque se não for...
Devemos desconfiar sempre do politicamente correcto. 
Sempre) 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

intriga opaca



o vento que os hebreus dizem de Espérida
não é de lá

vem do alto do céu
desse céu primevo que se abre à claridade
e depois foge com ela numa espécie de ganância de si

é um vento que pára o ser
que o interrompe, determinado,
e ainda assim o espicaça e escorraça
da droga subtil e demorada
que é o esquecimento da vida


a memória é agora uma relha-velha
lembra-se bem do que antes parecia apenas
um desenho mal começado

a estrada segue no topo da colina
até à casa baixa não muito comprida
ao lado um outro caminho que talvez desça
divergente
cada vez mais difuso

seguem nele alguns errantes do século
e a jornada não antevê destinos

(ficámos depois a saber)

nome ou número
também eles se perderam na erosão nublada do tempo

todos conhecemos um som, julgamos que sim
e não o conseguimos cantar


não somos como chineses encantados de papel

não comunicamos com deleite por reflexos do passado
ou de amores idos e perdidos na curva do rio ancestral
que povos da tradição tão bem cartografaram
em elegantes iluminuras debruadas a ânimo
e cor
com brilhos que tudo explicavam

este vento, dito de Espérida
morno ou gélido como muito bem entende o seu tempo
tolhe e emudece e enerva até à raiz do tálamo
sempre indiferente às queixas para si vazias

sempre zeloso e altivo na sua acção exploratória
sempre pronto a zurzir o desperdício da alma
até esta quase jurar não querer mais ser


a madrugada estremeceu como um fino caule
ao tropel dos cavalos mais próximos

o rumor surdo que fora nada por horas ausentes
é agora uma ária completa de sinais incertos


do norte chegam os pássaros, de leste também
e as redes das armadilhas vão-se erguendo ritmadas
junto à bruma que tomamos por horizonte
como velas de uma esquadra
que se apresta à grande travessia das batalhas

as crianças dos campos exultam
ao som aflito das primeiras capturas

e os seus gritos de meninos-pássaro
fazem-se ouvir bem longe


lá, onde o vento se recolheu de novo
após portentosa intriga

sábado, 10 de setembro de 2011

A Ara

Bem, pode-se dizer que o exagero da punição aplicada a Florence Yardley-Britcy faz parte da ordem natural das coisas. Ela tem origem eslava, mas lavou proveniências através do novo nome. Registado na sua Carta de Vida, pois claro. 
O que tem piada é que o aparente erro pretensioso de incluir na sua nova identidade um nome bem conhecido do Arquipélago acabou afinal por se mostrar bastante produtivo..., a sua graça assertiva conseguiu derreter com relativa eficácia alguns dos mais cromados corações da Administração, que lhe toleravam a snobeira. E veja bem isto: sem grandes custos pessoais  o que é obra, tendo em conta os tempos que correm e a vastidão e diversidade da oferta, como você aliás bem sabe... Como é que eu sei que sabe? Porque sei, ora essa! 
E isto também já sabe, mas é bom que nunca esqueça: a Empresa exige sempre um comportamento particularmente agressivo face a determinadas circunstâncias, as chamadas operações de alto risco. Aí não pode haver uma falha... 
Mas é óbvio que a Britchsky (era como eu a tratava em várias intimidades...), bem..., ela não estava preparada para tarefas verdadeiramente frias, é o que é. Tinha de desactivar uma cidade inteira, de deslocar 700 mil pessoas para que a Turmoil Risk ali montasse a sua própria pirâmide de engodos plutocratas. Está a ver a trama, provar à Ara a bondade legal daquela infâmia!...
Tudo isto a troco de subida de escalão num dos grupos da frente. 
Todos procuram garimpar um qualquer futuro melhor do que aquele a que a Administração da Empresa dá provimento. Todos nós sabemos disso muito bem, você incluído. Sim, apesar da idade já sabe... Mas deixe-me continuar, que ainda perco o fio à meada...
De facto a Britchsky cedeu a emoções desconhecidas. E a Ara atirou-a para o fim da tabela, a par duma quase simbólica multa à Turmoil por falsas declarações. Uma treta mascarada de justiça. 
Justiça! Isso é que era bom... Acho que já ninguém sabe o que isso quer dizer de facto.
Turmoil tem por hábito vencer, é uma privilegiada de Potere, com sede no Arquipélago, veja lá o sainete... Sim-sim, todos os accionistas vivem lá ou lá têm casa. E é uma autêntica ‘porta-global’, das que dividem o pouco do mundo conhecido que resta com umas quantas dúzias de comparsas. Sucessores, famílias, amigos, são eles os últimos representantes da velha democracia, essa oligarquia de comendas oxidadas sem qualquer outro interesse que não o de cada um, só ou em comandita. 
Odeio essa malta toda!...
Porque não tenho sorte nenhuma – não tenho conhecimentos no Arquipélago. E sim, mesmo assim estou a mentir, tem razão..., só que não é uma grande mentira. Em termos práticos, bem entendido.
(Mosaico Hundertwasser)
Mas voltemos à Britchsky, até porque neste instante, ao lado dela, sou aquilo a que se pode chamar um tipo cheio de sorte: subo e desço com uma regularidade insuspeita. 
A sua actividade conhecida iniciou-a como grumete num submarino gigante da classe UW-R (under world resort), passando depois a administrar uma verdadeira central de informações camuflada de promotora imobiliária para o Lado Escuro da Lua e Pólos de Marte – por sinal territórios sempre com excelente procura, o que prova bem o nível das suas máscaras. 
Acho hoje que era paga directamente por Potere para fazer não sei bem o quê. Pelo menos nunca me falou dos objectivos mais fundos das suas investigações. E foi por presumíveis bons serviços que um dia veio pela primeira vez à superfície, onde a reencontrei dotada já de grandes meios próprios e de um prestígio previamente anunciado e bem documentado, que era suposto comprovar no terreno.
Conheci Florence por mero acaso..., como quadro intermédio do Exército  também andei muito pelos UW-R. Sim, e à tona também, por vezes na incrível e desagradável condição de chasseur de restaurantes, no ‘Bismark Lounge’, por exemplo, e no ‘Lord Nelson Table’ – da Magelan Company... Pelo menos sempre tiveram o bom gosto de me pagar no dia previsto. 
Você gosta de ser chasseur?... Olhe que bom para si, que até gosta do que faz! É o que eu chamo um rapaz com sorte, sem dúvida!...
Bem..., a Florence era concretamente uma espia: tinha de saber quem estava onde, com quem e a fazer o quê, mesas e quartos tinham de ter o máximo de bugs. As pessoas envolvidas deveriam ser marcadas com um transmissor invasivo que você ainda não conhece: o líquido reflector GPMS (Global Position Mastering System). Aquilo depois de ingerido, com um whisky - ou até num cozinhado -, hospeda-se em qualquer organismo vivo e emite um sinal por tempo indeterminado, nunca menos de seis meses. 
É demoníaco! Têm de saber tudo, sempre, e pela certa!...
Não estou a exagerar nada, meu caro, o mundo é vulgar desde há muito. 
Mas ela também é muito interessante!..., vai ver quando a conhecer.
Fisicamente é uma girafa bonita, particularmente pelos olhos: com um metro e noventa e poucos, a oscilar entre a elegância formal e a agressividade necessária, consegue apesar disso encantar com uma franqueza que não é falsa mas que, ao mesmo tempo, esconde muito. E não é a allumeuse que se diz ser, sempre se apaixonou sem reservas... Cheia de fraquezas fáceis – afinal uma característica rara em alguém supostamente tão forte como ela afinal pretendia parecer, e até já demonstrara.
Enfim, foi por causa de uma dessas fraquezas que não conseguiu montar convenientemente toda a necessária teia de informações falsas – todas bem entretecidas em fios de verdades científicas, está a ver a coisa... E assim permitiu que a velha cidade-estado de Zakopane - o Farol do Báltico, como ficou conhecida depois da última grande subida geral das marés de há meio século - vencesse por quatro votos o exército de advogados da Turmoil. Dois deles, suponho que os chefes, suicidaram-se em plena audiência, em frente de toda a gente! 
Imagina-se vagamente o que não estaria em jogo, não é verdade?...
Porquê? Porque a Britchsky se apaixonou irremediavelmente, desta vez não por um homem mas por uma cidade inteira! Dizia que nunca vira nada tão antigo, tão cheio de carácter e humanidade, tão sólido, e ainda por cima com árvores... Contou-me tudo isto antes de se ir embora de vez para ocupar um cargo de croupier no caquético 'Las Vegas Deep'. A inesperada paixão por algo que desconhecia em absoluto afastou-a da necessária firmeza para sustentar a  operação da Turmoil sem erros.
Então as árvores!... Foram as árvores que lhe deram a volta de vez, dizia-me que elas tinham algo de divino, nunca percebi bem o quê, mas está bem.
E lá voltou ela outra vez para os UW-R, só que agora é para sempre. Bem, nunca se sabe, claro...
A Ara julga, e Potere nunca perdoa a quem falha.


É a vida... 
A nossa, claro, porque depois há a dos outros, e esse é que é o grande problema.
Porquê?!... Ora bolas, rapaz, você não quer o que não tem?
Deixe-se de tretas, é claro que quer!...