quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CAPÍTULO III – J. H. Saraiva convida picuinhas (2ª parte)



NOS SAPATOS DO PROFESSOR


Sobre o ponto que agora me interessava, JHS surpreendeu-me com um «fico muito reconhecido pela sua anuência»... Sugere-me apenas que eu burile «algumas expressões» sobre o autor da coluna Avenida da Liberdade – o Sr. Valdemar. «Somos todos companheiros nesta pequenina República de letras e alguma cortesia académica só enobrece a qualidade dos torneios» – aconselha, sempre na sua forma elevada e bem-educada.
Ora, ora!..., cortesia académica? De quem para quem, afinal? Eu nem sou académico! – limito-me a adorar as vistas...
E quanto ao hipotético receptor de tal cortesia (que não sei se é académico nem isso me interessa um bocadinho que seja), ele só me fazia ressoar na cabeça o velho provérbio português onde se canta que «quem não sente não é filho de boa gente». 
Mas, como se tratava então de uma iniciativa de JHS, admiti alisar um pouco a letra. 
Coisa que, quis o Destino, acabaria por não acontecer.
Sobre a questão de fundo, JHS reitera o seu dogma jurídico e supõe – mais uma vez erradamente – «que nenhum jurista diria o contrário».
Considera no entanto que «nestes pleitos a última palavra pertence ao público. E daí vem o meu interesse na publicação de todo o conjunto da nossa correspondência, tanto pública como privada». 
Ora muito bem! – pensei eu.

Seja de que maneira for, o diálogo que mantive com este senhor foi sempre, além de produtivo e muito enriquecedor, de excelente nível e respeito mútuo. Ele elogiou-me publicamente sobre tal qualidade da nossa diatribe, e eu agora certifico o mesmo no que lhe diz respeito.
Acontece que acontecem por vezes coisas curiosas às pessoas, e em especial àquelas que estão totalmente embrenhadas – como que envenenadas – num determinado assunto.
Picasso dizia que a inspiração é algo de tão fugaz que o melhor que há a fazer é estar sempre a trabalhar para o caso dela decidir aparecer. 
E esta é uma bela metáfora para o que se seguiu, por uma simples razão: eu já assumira então que o livro iria acabar por sair, e mantinha, portanto, uma contínua e cada vez mais profunda actualização dos meus conhecimentos sobre a vida de Eça. 
Já lera uma data de boatos, ensaios de várias tendências, resmas de notas e opúsculos biográficos, as várias reticências que se punham aos factos dados como oficiais... 
Sabia da misteriosa mas nunca encontrada carta, que estaria nas mãos de gente próxima dos Carneiro Pizarro, onde era suposto estar a chave de todo o segredo do nascimento do escritor... Mas nunca dei grande crédito a tal documento.
Fazia isto porque entendia (e ainda bem) que os meus textos tinham de percorrer o tabuleiro inteiro das dúvidas, preenchendo sempre os espaços vazios – como acontece naquele velho mas muito dinâmico puzzle informático que toda a gente conhece pelo nome de tetris
E foi no meio deste ambiente quase matemático que, na noite de 20 de Outubro de 2004, tomei conhecimento de algo extremamente curioso. Rapidamente, contentíssimo, escrevi ao meu interlocutor o seguinte:

– «Meu caro senhor Professor!
Imagine lá bem que comentava eu há dias com a minha Mãe esta nossa interessante troca de pontos de vista, e ela – de supetão – lembra-me que o meu Pai lhe contara um dia (há muito tempo, porque ele morreu faz 35 anos) que o namoro do seu bisavô Teixeira de Queiroz com Carolina Augusta nunca fora nada do gosto das respectivas famílias.
Ou pelo menos de uma delas.
Demonstrei-lhe de imediato o meu espanto e a total ignorância sobre o assunto – ela efectivamente nunca mo contara, mas achava que sim. 
Então perguntei-lhe quais as razões para tal oposição ao romance, que, a meu ver – tendo em conta a grande abertura de ideias dos Queiroz (a todos os níveis, como é sabido) –, só poderia vir do lado Pereira d’Eça
Sim, que era isso mesmo, e as razões para tal oposição eram de natureza política – confirmou a minha maravilhosa progenitora, cuja memória vampirizo com frequência crescente.
Pois claro! Os Queiroz eram próximos dos Progressistas!
O juiz desembargador Joaquim José de Queiroz – avô de Eça e Irmão Rosa Cruz (1) da Loja Maçónica dos Santos Mártires de Aveiro – tinha chefiado em 16 de Maio de 1828 o primeiro levantamento liberal que levaria ao real fim do absolutismo em Portugal.
Já os Pereira d’Eça – família da velha aristocracia rural com fortes laços na instituição castrense – engajavam-se provavelmente pelos Regeneradores, depois de anos a fio numa fé absolutista que roçara o apostólico. Obviamente, nunca veriam com bons olhos algo que apelidariam normalmente de promiscuidade.
Ou seja: eram, pelo menos formalmente, famílias inimigas!
Com estas migalhas do passado, recolhidas com óculo fosco nessa sempre fértil casa cheia de fantasmas – que é afinal o ambiente que rodeou o nascimento do nosso querido e grande Eça –, resolvi imitar o senhor Professor: pus-me a imaginar.
Um namoro às escondidas, breves encontros em locais não frequentados pela sociedade voyeuse de então, o Romantismo a polinizar em força toda a atmosfera deste nosso atrasado e convulsivo país...
Mas..., mas é o ambiente ideal para uma proximidade cada vez mais pujante de cumplicidades!
Vejamos: um jantar em lugar recatado, uma mãe viúva e doente, enganada facilmente com uma hipotética – mas muito habitual – estadia em casa das primas de Monção... 
A antecâmara da alcova...
Momentos idílicos, sem dúvida.
Depois é o desastre! 
Carolina entra inicialmente em pânico. Que, com o passar dos dias, se transformou em fúria – num quase ódio. Pelo namorado, claro, e por si própria com toda a certeza.
Mas também pelo ser que, todas as semanas, insistia em mostrar que crescia no seu ventre. 
O que diria a mãe quando soubesse?! E os primos de Monção! E toda a gente...
Quanta vergonha!
Sobre o que se seguiu nove meses depois, ambos estamos de acordo pelo menos num aspecto: Teixeira de Queiroz registou o mais depressa possível o jovem José Maria, não mencionando o nome da mãe para «evitar investigações futuras» – como muito bem diz o Senhor. 
Futuras, e já agora – se me faz o favor – também imediatas!, acrescento eu.
Porque qualquer investigação futura perderia toda a importância a partir do momento em que a jovem mãe solteira se decidisse a arcar com a responsabilidade dos seus actos. O que aconteceu, como se sabe, depois da mãe de Carolina a fazer jurar, no leito da morte, que tal desfecho iria mesmo ter lugar. 
Foi a contragosto mas aconteceu!
E quem vir a fotografia do dia de casamento de José Maria e Carolina Augusta não necessita de grande imaginação para perceber que, ao contrário duma situação normal, não se vivia ali um grande momento de paixão. 
Carolina tem cara de «frete», bem fechada – quase zangada. O vestido é de fantasia – nada formal, portanto –, e José Maria aparenta um ar um pouco perdido.
Encaixando todos estes brotos da minha imaginação com os documentos reais que atestam factos, bem como com os territórios que o futuro escritor ocupou na sua infância e juventude – as casas dos avós em Verdemilho e das tias Pereira d’Eça, no Porto, e o internato da Lapa (este bem perto da casa portuense dos seus pais e irmãos) –, chegar-se-á à única conclusão aceitável sobre tão atribulado desenrolar de factos: Eça de Queiroz, como criança e adolescente, teve um azar dos diabos!
É claro que podia ter ido parar à «roda», ou ter-se simplesmente ficado pelo tugúrio duma qualquer «tecedeira de anjos» – não é? Mas aquele rapaz teve azar, não haja dúvidas.
Depois, todos se foram acomodando à crua realidade – que incluía a distância exigida ao filho (e imposta ao marido) pela muito inteligente, irónica, dura, seca, fria e sempre elegante Carolina Augusta Pereira d’Eça de Queiroz. 
Que não gostava de crianças nem de «belhas» – mas que adorava festas.
Isto, meu caro senhor Professor, também é categórico!

Ou seja: somos dois categóricos.
E o senhor sem uma única prova, sequer circunstancial... Sem um nome, um testemunho e, acima de tudo, sem conseguir explicar que motivação teriam os Pereira d’Eça para inventar, colaborar e propagar uma «lenda» em que a principal protagonista pertencia à sua própria estirpe.
Seria gente obnóxia?, dada a extravagâncias?!...
Ambos sabemos perfeitamente que não. 
Carolina Augusta, a mãe de Eça
E eu começo a sentir alguma ambiguidade de sentimentos em relação ao que tenho estado a fazer.
Passo a explicar.
A questão do «julgamento público», sinceramente, não me aquece nem me arrefece. Não tenho de fazer prova – como o senhor bem sabe.
Por outro lado, já sinto umas certas cócegas nas meninges ao imaginá-lo pregado em breve na frágil cruz dos argumentos formais – sem mão amiga que lhe chegue a taça de fel à boca.
Não acredito que queira isso para si!
E assim dei comigo a desconfiar que o senhor Professor foi dando farta corda ao mesmo tempo que picava o macho – ou a mula, ou o burro, como se queira. Ora esse bicho sou eu!
Finalmente, começo também a achar que esta nossa muito agradável actividade já mostra um bom rascunho dos factos e dúvidas que envolvem o nascimento de Eça.
Boa ideia a sua. E, modéstia à parte, acho que também não me saí mal.
Assim sendo, vamos a aspectos mais técnicos.
Isto tem de ser uma empreitada a dois: com os mesmos direitos e deveres. E se quanto a direitos não há dúvidas, já quanto aos deveres cada um sabe dos seus.
Os meus são simples: 
1 – Escrever um texto, necessariamente breve, explicando porque me atrevi a discutir um assunto que conhecia bastante mal. Haverá ainda nesse texto um brevíssimo tratado sobre a evolução da minha relação abstracta (que agora já o é menos) com o senhor Professor. 
2 – Conhecer a sua ideia para título e metodologia de publicação, bem como ver a primeira prova impressa (tenho a vaidade de achar que a minha escrita é orgânica e que, como tal, não sobrevive a uma mera vírgula mal disposta). 
3 – Oferecer-me imediatamente para uma mais directa troca de impressões.
Já descrente numa possível retirada estratégica da sua parte, e prevendo uma caterva de trabalhos na sua próxima missiva

Com genuíno apreço
(AEQ)».
  1. A denominação maçónica (grau) de Joaquim José de Queiroz era realmente
    «Irmão Rosa Cruz» – e não «Rosa Branca», como por engano afirmo no original da
    carta a JHS




TROMBETAS DE RETIRADA


No entanto aquilo que eu achava já impossível acabaria por acontecer: uma retirada estratégica foi exactamente aquilo que me chegou pelo correio – cerca de uma semana depois de eu ter enviado o meu último entendimento sobre as condições em que Eça podia ter sido gerado. Que, na verdade, representa apenas uma boa possibilidade dentro do quadro conhecido e documentado.
Volto a afirmar que eu – tal como qualquer outra pessoa que se ponha a falar sobre este assunto – apenas posso fazer suposições. Ninguém lá esteve a não ser uma mãe, uma parteira e uma ajudante. 
As teorias mais ou menos romanescas que têm vindo a lume, mascaradas de teses e ensaios, baseiam-se num mero «diz-que-diz» próprio de mulheres de soalheiro – assunto de que mais adiante farei prova através dum ensaio jornalístico verdadeiramente lamentável, que já antes
abordei por alto.
Quanto a JHS, a sua carta começa com um ruborizante elogio à minha pessoa – o que sabe sempre bem! –, mas depressa volta a embalar surdamente na necessidade jurídica da omissão do nome maternal «para que não haja necessidade de futuras investigações»... 
Ora claro que isso até pode ser verdade! Só não inviabiliza de modo algum o facto de Carolina Augusta ser a verdadeira mãe de Eça.
Porque Teixeira de Queiroz procedeu de forma a que todas as situações futuras fossem acauteladas: se ela assumisse os factos, ambos casariam e dariam à criança «o meu ou o seu nome, como deve de ser» – diz o documento apenso ao assento de baptismo do seu filho; se tal não acontecesse, a jovem Carolina não seria exposta como mãe solteira (porque não haveria qualquer investigação futura!) e o jovem José Maria permaneceria Queiroz para sempre e filho natural de mãe incógnita – como até então fora.
Mas há aqui também um prisma de observação especialmente interessante que rebate em absoluto toda a tese de JHS, no que ela diz do hipotético interesse de Teixeira de Queiroz em defender o filho do ferrete infamante de adulterino. Não é apenas a demonstração de que se tivesse havido qualquer preocupação a esse respeito por parte do juiz, ela não teria resultado – já que ao Professor Saraiva não restam quaisquer dúvidas jurídicas sobre o que terá então acontecido. Também o facto de o juiz pretender pôr posteriormente ao filho «o meu ou o seu nome» deita por terra toda e qualquer estratégia nesse sentido – já que, ao dar-se futuramente à criança o nome materno, estar-se-ia a afirmar que, embora os pais fossem agora casados, ela seria para todo o sempre a consequência física duma relação extra-conjugal.
O que até era verdade: Eça foi de facto o resultado duma relação fora do casamento, mas não adulterina – porque só há adultério quando pelo menos um dos intervenientes é casado!
Resumindo: Eça de Queiroz nasceu simplesmente de uma relação pré-conjugal dos pais.
A versão do filho adulterino leva sempre à hipótese impossível dum juiz engatatão, mas também ignorante, néscio e bastante incapaz (o que se sabe não ser verdade), que casara depois em circunstâncias deveras esquisitas com uma rapariga um pouco lerda mas também muito generosa (atributos igualmente irreconhecíveis em Carolina Augusta).
Em que fantástico e saraivante mundo poderia viver semelhante parelha de bacocos?!...
Noutro que não este – como é óbvio.
Mas para o caso já pouco disto interessava dizer a JHS.
Porque, no fim da sua curta missiva de 28 de Outubro, o professor diz-me que «com o decorrer destes meses o tema perdeu o seu impacto na opinião», pelo que desiste da publicação do livro que tanto o entusiasmava no mês anterior...
É claro – para mim! – que um assunto envolvendo Eça em 1845 tem tanto interesse em 2004 como um ano depois ou muitos mais.
Mas, «é assunto que lego aos vindouros» – conclui JHS.
E aqui temos um desses vindouros! – pensei eu imediatamente, abrindo o Word para escrever a carta que daria luz verde ao que agora exponho.

Dizia no curto texto o seguinte:
– «Exmº Senhor
Devo começar por dizer que, depois da sua penúltima carta, já não esperava de todo que o Senhor se desinteressasse do repto que afinal me lançou – pese a breve ironia com que finalizei a minha anterior missiva. 
Espero, acima de tudo, que nada do que ali disse o possa ter ofendido. Porque nunca foi essa a minha intenção – se não pela minha educação, que realmente prezo, ao menos pelo facto do Senhor também nunca o ter feito comigo.
Muito pelo contrário.
Mas o senhor Professor decidiu e está decidido.
Eu também decidi. 
Aliás já o fizera aquando da resposta à sua primeira carta, onde me pede autorização para publicar as nossas contestações mútuas editadas no Expresso.
Mas como os trabalhos foram prosseguindo, deixei essa decisão em suspenso.
Agora, perante esta nova situação, reanimei a ideia de então e pretendo publicar o que já escrevi sobre o assunto, balizando os momentos vários que fui vivendo nesta minha tentativa de viajar até essa época já um pouco remota.
Como é óbvio, a sua teoria adquire neste contexto especial importância: correu na TV, no Expresso, no ‘DN’ e é, de longe, a que melhor fundamento apresentou até agora contra tudo aquilo que sempre foi assumido como certo pelos principais biógrafos do escritor.
Independentemente do grau de congruência que eu lhe possa atribuir, isso é uma verdade insofismável.
A outra verdade é que foi essa mesma teoria o principal combustível (chamemos-lhe) de que me servi para, na minha mente, tentar justificar a minha visão sobre momentos marcados por tão escassas e difusas referências.
Embora seja relativamente simples sintetizar a sua argumentação, já tornada pública, é óbvio que faria o maior gosto em utilizar integralmente os seus textos publicados no Expresso. Seria um capítulo ocupado apenas pelos nossos quatro textos, o que, obviamente, formaria a baliza mais visível do fio do meu raciocínio. 
E também do seu, por consequência.

Desejando-lhe sempre o melhor e esperando a sua anuência
(AEQ)».

A concordância de José Hermano Saraiva para com as minhas pretensões chegaria em meados de Novembro, sintetizada numa frase que ilustra bem a lealdade do professor para comigo: «Proceder de outra forma» – não permitir a publicação dos citados textos – «seria ser como o cão do padeiro, que não come nem deixa comer».
E foi assim que de repente me encontrei metido numa caterva de trabalhos – tal como previra um mês antes.
Mas, diga-se de passagem, com o prazer que julgo vir demonstrando nesta minha soma de linhas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

CAPÍTULO III – J. H. Saraiva convida picuinhas (1ª parte)

Depois deste arbitrário julgamento que o professor José Hermano Saraiva elaborou em «Autos conclusos» – onde clama pela voz do povo como pelo escrutínio de jurados para que as suas lucubrações passem a integrar qualquer futura biografia de Eça –, sobrava-me o sentimento de que, como se diz em futebol, conseguira um empate com sabor a derrota...
Destacada surgia a quase sacralização dum preceito legal que eu já só compreendia como inoperante, burocrático e, obviamente, facilmente ultrapassável.
Depois, JHS afirmava categoricamente algo que não é de todo verdade: 
– «Ainda hoje os registos de nascimento com mães incógnitas se referem todos a mulheres casadas». Como é possível afirmar que um bebé encontrado num contentor de lixo é, inevitavelmente, filho duma mulher casada?!...
Mas ainda mais confusão me fazia a possibilidade de, em 1845, haver uma lei que incidisse de forma tão preciosa – tão absoluta – sobre um assunto que era específico mas que podia também ter as mais variadas géneses e enquadramentos.
Assim pensando, fui à procura da tal lei.
Não a encontrei.
Andava já a pensar na melhor maneira de inquirir o meu simpático opositor sobre tal assunto, e, eis se não quando, me surge na redacção portuense do Expresso uma enigmática carta remetida pelo fautor das minhas dúvidas jurídicas. 
Escrita nos primeiros dias de Setembro, a carta estava ancorada no interesse do «público culto português» em «tudo o que se refere ao genial escritor», e revelava o interesse «dos vários quadrantes» em reunir os nossos textos recém-publicados «num pequeno volume»..., «que incluirá também os artigos do jornalista do Diário de Notícias António Valdemar» e ainda «outros programas que fiz sobre a vida e a obra do grande escritor».
Dei comigo a rir à gargalhada! 
Os artigos do ‘DN’?! Essa é boa!... 
No primeiro de quatro, o jornalista em causa faz um precário digest das teorias de JHS e acaba com um rotundíssimo «Eça, afinal não é Eça. É, apenas, Queiroz!».
No segundo revela sem pudor toda uma enorme cátedro-dependência, recordando «a leitura jurídica que ouvi várias vezes» junto duma data de senhores importantes do mundo das leis, onde pontuava também o pai do próprio jornalista.
E cita no fim uma frase do meu tio-avô António – filho de Eça – a respeito do atribulado nascimento do pai: «O escritor, a sua obra e tudo quanto a ela se liga é de todo o mundo. O homem, fora da sua obra, o marido, o pai, pertencem unicamente aos seus, ao nosso amor e à nossa saudade».
Ora nesta frase, que demonstra apenas a vontade dum filho em preservar a memória do seu pai, o jornalista do ‘DN’ descobriu «frases que poderão ser atribuídas a alguns personagens dos romances de Eça».
É caso para dizer que o homem sofria então de forte hipermetropia mental: conseguia ver vários personagens de Eça numa frase normalíssima do filho do escritor (será uma frase feliz ou infeliz, como se queira), mas não vislumbrava todos os dias o velho Palma Cavalão no espelho do seu próprio quarto-de-banho!
E, lá pelo meio, culminava-se de novo no «ponto da situação: Eça não é Eça. É, apenas, Queiroz». 

Investigação profunda, prosa elaborada – essa é que é essa!...

AO IRREQUIETO MERCÚRIO
 JUNTA-SE A FRIEZA DO ÉTER

O momento era sublime, mas exigia um movimento rápido como o mercúrio e frio como o éter (sai frase tipo super-herói!).
Nessa mesma noite – 9 de Setembro de 2004 – escrevi o seguinte:

– «Exmº Senhor:
Recebi ontem a sua carta, exactamente numa altura em que ponderava seriamente a hipótese de o contactar com um pedido de informação. 
Aqui lhe respondo, com todo o gosto, não sem aproveitar a deixa para antes lhe perguntar qual é exactamente a legislação de 1845 que consultou para basear a sua teoria sobre a mãe de Eça, já que nada encontrei nas Ordenações Filipinas e na muita legislação avulsa que dava corpo ao edifício legal vigente na época. 
Como o Senhor já sabe, eu considero a sua versão dos factos muito interessante, mas agora também constato que a sua base de sustentação fica-se pelo valor estatístico da probabilidade.
O facto é que vários homens de leis que conheço e contactei (inclusive um juiz do Supremo, com experiência nesta área específica) consideram apenas possível que as «mães incógnitas» representem uma maioria não quantificável de mulheres casadas...
Ora – penso eu –, o rigor histórico não se pode compadecer duma hipótese indocumentada cujo pilar central nada mais é do que o resultado de um cálculo de probabilidades. 
E a mim, dentro das probabilidades que me têm surgido sobre o convulsivo nascimento do meu bisavô, já só me falta mesmo ver aparecer alguém que diga que o escritor era filho – sim! – de Carolina Augusta... mas não de Teixeira de Queiroz.
Aí, já só mesmo um teste ao ADN da família poderia provar o que quer que tivesse de ser provado.
Porque eu nada tenho de provar – ao contrário do que acontece com quem acha que descobriu uma nova história em Eça, a explicação final de todo o suposto enigma do seu nascimento e a verdadeira fonte de toda a propalada acidez do escritor para com o universo feminino. 
A mim apenas me parece que o senhor Professor se esqueceu dos «prolongamentos que ultrapassam o quadro» – usando uma bela imagem de Patrice de la Tour du Pin.
Como o Senhor muito bem afirmou no Expresso/Actual, a minha posição «é clara e castiça».
Dentro deste espírito, é com prazer que lhe digo achar a sua ideia muito interessante, apenas ornamentada com um pequeno mas altamente impeditivo escolho: o Sr. Valdemar. 
Acontece que não gosto dele!
Eis os porquês: das vezes em que ele decidiu falar a respeito dos filhos do escritor, exprimiu exclusivamente o seu enorme desprezo, demonstrando mesmo uma gritante menoridade emocional. 
Dou-lhe um exemplo, bem patente naquele penoso «relato» que António Valdemar efectuou no ‘DN’ sobre a nossa animada contenda: «(...) Conhecemos as indignações da família sempre que se toca neste caso e que (...) um dos filhos do escritor condensou nestas frases que poderão ser atribuídas a alguns personagens dos romances de Eça (...)».
Quais personagens?!?...
O tom é apenas chocarreiro e vulgar, como chocarreira e tautológica é a repescagem de um seu artigo – publicado na mesma coluna no início do ano – onde desfia os vários «bastardos» da família Queiroz. 
Como se isso tivesse algum interesse para o caso. (1)
A mim catalogou-me de defensor dos «pergaminhos da família»!
Como se precisassem de algum defensor... 
Depois ali não vivem ideias: há apenas ressecos factos dispersos, palimpsestos de muitas cópias, opiniões de várias origens e tempos, ditos de outros..., tudo muito mal emaranhado numa prosa supostamente vencedora onde o autor se comporta como uma espécie de auto-nomeado árbitro. 
É aquilo que eu chamo de «cultura tablóide», que nada acrescenta ao assunto e me irrita solenemente.
Ou seja: o Sr. António Valdemar impede-me de aceitar a tentadora proposta com que o senhor Professor tanto me honra. Porque não quero os meus textos sufocados de enjoo, ao lado dos dele, no interior dum universo tão condicionado como o é um pequeno livro. 
Poderá o Senhor achar que é snobeira da minha parte – mas não é. Eu simplesmente não gosto do Sr. Valdemar. 
Nem de confusões.
Por outro lado, acho que se houver alguma continuidade epistolar neste nosso diálogo – mesmo que não publicada em jornais –, nada impede que a sua ideia se realize. 
Para tanto basta que eu possa ilustrar o meu «voto vencido» – que não é atávico, senhor Professor – apoiado na legislação a que o Senhor já acedeu.
E, claro, que o sr. Valdemar não participe dos créditos no libretto final.
Em suma: acho a sua ideia valiosa porque muita da gente que se interessa por Eça nada sabe sobre as circunstâncias do seu nascimento, para sempre envolvido numa névoa de dúvidas embaciadas. Que, para mim, mais não são que de pormenor. Tal livrinho ajudaria a informar um pouco os potenciais interessados sobre a densidade dessa névoa e as várias ideias que ao longo do tempo têm sido formuladas sobre o tema.

Aguardando a sua compreensão, bem como a sua resposta,
cumprimento-o com a consideração de sempre.

(AEQ)»
  1. (De facto, esta questão tem importância, pois Teixeira de Queiroz irá pedir o conselho do pai, que lhe indicou uma solução por si já antes utilizada) 

É claro que eu esperava uma resposta de JHS. 
Tendo em conta a sua formação jurídica, não deixaria certamente de responder – pelo menos à questão que dizia respeito aos putativos fundamentos legais da sua «verdade».
Verdade esta que só conseguia ver como devidamente dotada do lastro pesado que a palavra «única» encerra em si. 
Esperei calmamente pelo correio.

A 16 do mesmo mês a minha expectativa realizou-se.
E a bem dizer de forma bastante inesperada – até para os meus mais mirabolantes sonhos.
Sobre a parte que realmente me interessava, dizia José Hermano Saraiva:
– «Qual a legislação de 1845 que consultei? É todo o sistema anterior ao Código Civil, e aliás em grande parte mantido nesse Código. Veja por exemplo os vários artigos sobre «Filhos» no Repositório Jurídico Português, posterior ao Código.
Receio porém que a sua pergunta nem tenha razão de ser. Nunca sustentei que a expressão «mãe incógnita» seja equivalente a mulher casada. Incógnito, quer dizer isso mesmo...»
Aqui parei a leitura e fui buscar rapidamente o artigo de JHS publicado no Expresso, a ver se não estava a ficar maluquinho de vez. E afinal, no quinto ponto de «A verdade é só uma», lá aparecia escrito que «li os documentos, estudei a lei vigente em 1845, consultei ilustres magistrados (até do Supremo) e professores de Direito, e a solução foi sempre a mesma: a omissão do nome da mãe, para não ser precisa uma acção de filiação, significa, necessária e exclusivamente, que a mãe era mulher casada».
O curioso é que esta contradição notória inclui pormenores subtis que, logo depois de desenrolados, se enrodilham outra vez de tal forma uns nos outros que eles próprios se encarregam de impossibilitar e tolher de vez a verosimilhança das teorias do professor – como se verá no restante da carta que eu então lia.
«Mas o meu argumento é bem outro: o progenitor de Eça pede à progenitora que o nome dela não figure no registo para que «em tempo algum» não seja precisa uma acção de filiação (cito de cor e posso falhar nalguma vírgula)».
O professor Hermano Saraiva sublinha que, se a mãe do escritor fosse solteira, o facto de o seu nome figurar no assento de baptismo «não só não exigiria qualquer acção, como automaticamente a dispensaria no caso de casamento ulterior. 
Não se investiga o que se conhece, e se o nome da mãe ficasse no registo não haveria necessidade de acção». 
O que, convenhamos, é no mínimo elementar... 
Concluía o raciocínio lembrando que tal acção só existe se a mãe for casada, «porque “pater est qui núptiae demonstrant” – e portanto o verdadeiro pai não seria o pai jurídico». 
Ou seja: volta-se à inevitabilidade da mulher casada, já que a hipótese de a verdadeira mãe simplesmente renegar o próprio filho não passou pela cabeça de JHS. 
Como também não passou pela mesma cabeça a possibilidade do indiscutivelmente íntegro e humaníssimo juiz Teixeira de Queiroz (o mesmo que se negou a julgar Camilo e Ana Plácido em assuntos do foro íntimo) respeitar e até compreender a posição radical e extremamente egoísta de Carolina Augusta.
JHS prossegue, afirmando que a sua argumentação «não admite qualquer escapatória, a não ser a de uma fraude intencional e criminosa». E isto, que simplesmente também não é verdade, já encerra em si uma dúvida material sobre a «verdade única» de Hermano Saraiva: afinal, sempre podia não ser adúltera! – a tal senhora que foi mãe de Eça. Bastava para tanto ter havido uma «fraude intencional» – acto que eu admito como possível na minha «Tréplica», quando falo num «juiz em causa própria».
No parágrafo seguinte, o venerável comunicador remete o ambiente da situação para o machismo vigente na época – o que faria algum sentido se José Maria Teixeira de Queiroz representasse bem a sua época. Ora este homem, que além de juiz era par do Reino (com todas as tendências de rigor e austeridade que queiramos encontrar tanto no cargo como no título), recusou-se, há bem mais de um século, a aplicar uma lei – a da criminalização do adultério – que só há pouco mais de um ano foi revogada na Turquia.
Era, pois, um homem muito avançado no seu tempo.
Diz JHS:
– «Quando Eça nasceu, não ficava mal a ninguém ser filho natural. (O casamento era excepção e o celibato a regra). O que era infamante e desclassificante para vários efeitos era ser filho adulterino. Repugna-me acreditar que o progenitor quisesse sujeitar o filho a tal infâmia, inventando situação inexistente».
Como se verá adiante, esta última frase é uma armadilha escondida que professor Saraiva montou a si próprio sem o saber.
Depois a missiva segue para outras latitudes, animando-me com a sua compreensão pelo meu (?!) «misoneísmo (horror à novidade)» e sublinhando que o escritor «é maior que todos estes enguiços de literatos ociosos».

HARA-KIRI DE TELENOVELA
Carolina Augusta Pereira d'Eça e José Maria
Teixeira de Queiroz, no dia do seu casamento

Chegado aqui, JHS diz compreender que eu «não aprecie certas companhias» – referindo-se ao jornalista do ‘DN’. Mas que ambos vivemos na mesma época, «tiveram os mesmos leitores», que o citado jornalista já havia concordado (imagino bem que sim!), que a situação que eu criara era «incómoda»... E pedia-me para ponderar «porque o espírito do autor d’Os Maias se arrepiaria na tumba se soubesse que um seu descendente não viera à liça para quebrar lanças em seu nome».
E eu assim fiz. Ponderei. 
Imenso.
Eis o resultado da minha mui ponderada ponderação:


– «Exmo. Senhor:

A sua última missiva deixou-me absolutamente perplexo, a pontos de uma velha canção infantil se saracotear por momentos na minha mente.
Rezava tal cantilena o seguinte:
– «Eu atrás das pulgas!/ e elas aos sal-ti-nhos!...».
Pois é, senhor Professor: inicialmente referenciei a recusa de Teixeira de Queiroz em julgar Camilo e Ana Plácido como elemento charneira do seu argumento para a futura obra «Uma nova paternidade em Eça de Queiroz».
O Senhor ressalvou (e bem!) que isso apenas fazia parte do décor da peça, destacando então a crucial importância de determinados preceitos jurídicos – que, tanto quanto me é dado perceber agora, subscrevem apenas a aplicação retroactiva de legislação apensa ao chamado «Código Seabra».
Conhecendo desde há muito o axioma que afirma ser a verdade jurídica apenas formal – por muito material que se queira reclamar –, expliquei então que as circunstâncias especiais que rodearam o nascimento de Eça eram mais do que suficientes para que Teixeira de Queiroz tivesse utilizado a designação de «mãe incógnita» no assento de baptismo, pretendendo assim esconder Carolina Augusta do opróbrio de um confronto imediato com a formalidade da verdade jurídica.
Por muito que a verdade material já lá estivesse de facto.
Verifico agora que imputei desnecessariamente esse pequeno «crime» ao meu trisavô.
E porquê? Porque o senhor Professor vem agora contradizer a sua «verdade única» – onde a designação «mãe incógnita» desempenhava o principal papel –, retirando definitivamente realidade formal a essa hipotética e agora concretamente inexistente «trisavó adúltera»!
E, de hara-kiri em hara-kiri, chegamos hoje ao domínio ultra-subjectivo das convicções pessoais: o senhor Professor acha..., e é tudo! 
Ou seja: é nada!
Pela última vez, vou-lhe descrever o quadro geral – que o Senhor efectivamente desconhece no todo mas do qual fez estrategicamente desaparecer toda a idoneidade (e mesmo a quase total existência física!) da família Pereira d’Eça: Teixeira de Queiroz tem de registar o filho em tempo útil para que – diz a carta que o Senhor cita em parte –, «em tempo algum» seja necessária «justificação de filiação. Espero se ponha ao nosso filho o meu, ou o seu nome, conforme deve ser». 
E foi.
Ele tem de registar a criança imediatamente, para que, mais tarde, não sejam levantados os complexos processos de filiação. Não põe lá o nome de Carolina Augusta para que esta perceba que, do lado dele – Teixeira de Queiroz –, não há qualquer animosidade ou sequer pressão.
Apenas lhe diz o que vai fazer. É simples, concreto e revelou-se eficaz porque eles casaram mais tarde e Eça teve mãe oficial. A sua mãe.
Ninguém ali foi muito feliz – mas foi o que se arranjou.
Não consigo descortinar onde o Senhor foi desencantar a ideia de que, em 1845, Teixeira de Queiroz não conhecia sequer Carolina Pereira d’Eça. Mas se as provas mostram exactamente o contrário! 
Ou o Senhor acha que elas também fazem parte da sua piedosa «teoria da conspiração»?
O Senhor não admite que um homem de leis utilizasse tais termos apenas para garantir à mãe de Eça que o seu nome não aparecia – ainda que apenas formalmente – na situação extremamente incómoda de mãe solteira. O senhor Professor diz que à época isso não tinha qualquer importância. Ora ponha-se lá na pele de Carolina Augusta – seja empático...
Mas não!
Como ainda agora vi na gravação que fiz do seu programa, o Senhor acha que a mãe de Eça era mulher casada com um homem muito mais velho, pois que Teixeira de Queiroz fala do «meu cazamento consigo – o que talvez haja de acontecer brevemente (...)». Só faltou mesmo dizer que Teixeira de Queiroz conhecia o médico particular do velho marido enganado, e que este lhe teria transmitido o periclitante estado de saúde do seu caquéctico paciente, cuja morte estava por dias!...
Seria uma excelente forma de dar consistência final a este autêntico guião de telenovela... mexicana! 
E aqui se desfazem todos os equívocos.
Enquanto subsistiram dúvidas sobre a aplicação legal do termo «mãe incógnita», o assunto tinha, pelo menos, um pólo de interesse. Era académico, mas existia.
Agora nem isso.
Depois, o Senhor não se limitou a destituir intelectualmente os Pereira d’Eça. Na sua versão, também Teixeira de Queiroz é um autêntico patarata.
Vejamos: o homem, ao utilizar a fórmula que o senhor Professor agita como prova da existência de «mãe adulterina», expôs afinal o filho – que tanto queria proteger – à evidência (para si) da situação.
E é mesmo o Senhor quem estranha que ninguém ainda tenha reparado nisso! Donde, pode retirar-se que Teixeira de Queiroz, como juiz, era um péssimo intérprete das leis da causalidade. Mais precisamente: era um juiz burro! 
O Senhor pegou numa cena do passado – agora paralisada para sempre –, recortou os aspectos que lhe interessavam, dispensou outros, juntou tudo dentro duma moldura... e criou o quadro «Dogma!». Há nele uma sombra chinesa, um juiz estúpido e um miúdo infeliz.
Mas só este último é verdadeiro.
O resto é da sua capacidade inventiva – qualidade que muito aprecio, mas em su sito.

Quanto ao «enguiço de literatos ociosos», tal não existe porque eu não sou literato. Sou jornalista e vivo apenas disso. E por acaso este assunto também me diz respeito.
«Quebrar lanças»? Só me resta perguntar uma coisa: mas o Senhor ainda quer mais?! É que para mim há uma coisa sagrada que aprendi no Ultramar: nunca se deve atirar num homem desarmado.
Já sobre as vicissitudes causadas por mim ao seu livro – que certamente terá um teor orientado por forma a «oficializar» o seu dogma privativo –, tenho a certeza que o senhor Professor saberá muito bem «dar a volta ao texto».
E a caixa de ressonância do Sr. Valdemar será certamente uma ajudinha. Não sei se preciosa, mas isso é assunto exclusivamente seu.

Agora, mais do que nunca, excluo-me de tal show.
Em contrapartida, lanço-lhe um outro desafio: permito que os meus textos sejam republicados ipsis verbis se o Senhor tiver a coragem de incluir toda a restante correspondência trocada até agora entre nós. 
Isso sim!, seria um jogo a sério. De homens. 
E assim se saberia, finalmente, quem é o misoneísta (e aqui a novidade seria eu...) e quem tem medo da verdade.
E Eça lá permaneceria bem quietinho, no sossego do seu caixão...

Com todo o respeito, mas sem mais o que dizer
(AEQ)

P.S. (Embora duvide que tal se venha a justificar, reservo-me o direito de fazer exactamente o que o senhor Professor pretende fazer com a matéria que viemos discutindo. Noutros termos, como bem poderá imaginar)».

Por esta altura já eu achava possível uma despedida airosa por parte de JHS, tanto mais que a minha última missiva continha, digamos, um ou outro foco de laser reflectido no aço limpo de várias e bem afiadas lâminas... 
Na verdade, eu subira a parada inicial, mandara o Sr. Valdemar às malvas, e ameaçava fazer sozinho o que o renitente comunicador pretendia fazer em grupo.
No entanto, a nova missiva remetida da capital mostrou-me uma faceta da questão que eu ainda não tinha equacionado: o polémico programa de JHS no Canal 2 obrigara-me a fazer um já longo percurso numa zona da vida de Eça que eu apenas conhecia por alto. 
O que me levaria depois a coordenadas que nem sonhava existirem.


(continua amanhã)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

CAPÍTULO II – quatro andamentos para um crime sem móbil



[Nota pessoal: o conteúdo principal deste capítulo centra-se em quatro textos – dois meus e dois do Professor José Hermano Saraiva – publicados pelo semanário Expresso no Verão de 2004; no capítulo seguinte segue-se correspondência pessoal, onde abordamos o mesmo tema de forma, chamemos-lhe, mais agressiva  mas também mais divertida]

                                             &&&&&

O primeiro sinal de alarme chegou-me via telefone e avisava-me que, dentro de dias ou poucas semanas, iria passar na TV um trabalho de José Hermano Saraiva (JHS) onde era apresentada uma versão «muitíssimo estranha» sobre o nascimento de Eça.
A pessoa com quem falava assistira, abismada, à gravação do dito programa na sede da Fundação Eça de Queiroz (Casa de Tormes), e repetia-me agora alguns dos nacos mais estridentemente suculentos da história que o conhecido apresentador iria mostrar, em breve, no Canal 2.
No dia aprazado para a exibição do já polemizado programa, preparei o gravador vídeo para a hora prevista e saí em busca de compromisso há muito agendado. Cerca das duas da manhã, instalado em frente ao ecrã, comecei então a assistir a algo que, no momento, só me suscitou a maior perplexidade e até algum incómodo por ver alguém falar de um assunto que, obviamente, desconhecia por completo.
Mas aí eu estava enganado – pelo menos numa determinada medida. Porque, como compreendi depois, JHS limitara-se afinal a eliminar todo o (pouco) que se conhecia sobre o assunto para ali meter – com a ajuda dum vaguíssimo pressuposto legal – uma adúltera, um velho completamente moribundo e uma data de gente que se comportava de uma maneira pouco compreensível.
Lembrei-me então dum célebre dia, na passagem do milénio, em que lera n’ O Independente um texto igualmente abstruso – mas ainda mais rocambolesco – que me causara a mesma sensação que agora sentia: a de que algumas pessoas achavam impossível que Eça, apesar de todas as complexas vicissitudes mais ou menos conhecidas da sua vida, tivesse conseguido ser, no fim de contas, uma pessoa não só brilhante mas também bastante normal e equilibrada.
Nos dois casos acima citados, esta impossibilidade afundava-se na lonjura e imprecisão dos momentos que tinham antecedido o nascimento do escritor – o que exigia contar a história doutra maneira, para lhe dar mais dramatismo, mais sofrimento e também muito mais confusão do que aquela que realmente terá envolvido esses momentos de prova tão escassa.
Eça ser simplesmente filho de mãe solteira não chegava, definitivamente, para tão analíticos queirólogos: era preciso algo bem mais pesado, algo muito mais denso e tortuoso do que aquilo que se conhecia oficialmente.
No fundo, era preciso incutir um pouco mais de romantismo a toda esta já de si intrincada história.
Visto e revisto o vídeo de JHS, resolvi escrever sobre o assunto utilizando o que dele já sabia e mais uns quantos elementos arregimentados à pressa – mas tendo sempre presente o boato sobre uma muito falada mas fisicamente desconhecida carta, onde se supunha estar contada toda a verdade sobre o nascimento do romancista.
Ouvira falar disso, mas confesso que nunca dei crédito à sua existência. Sempre achei que se alguém possuísse tal documento, tê-lo-ia já mostrado e há muito tempo – com toda a certeza. Especialmente se contasse algo de muito diferente do que é dado por adquirido.
E como nós – a família – não temos essa carta...

Depois de acabado o texto em que rebatia as teorias de José Hermano Saraiva, existia ainda a necessidade de encontrar um jornal que o quisesse publicar.
Logo, e injustamente, pensei que o Expresso não o quereria, associando uma provável recusa à relação familiar entre JHS e o meu director de então – a quem, no entanto, enviei uma mensagem a dizer o que pretendia fazer.
A resposta de José António Saraiva não se fez esperar e dava-me a garantia de que, se o texto fosse válido, seria integralmente publicado.
Senti-me muito bem nesse dia – e mais ainda no dia em que, limpo e completo, saiu publicado no suplemento «Actual» do semanário onde trabalho há mais de quinze anos.


FÁBULAS CIRCULARES EM EÇA DE QUEIROZ *

«Ao longo de 51 anos fui-me adaptando ao facto de descender directamente de um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa de sempre: Eça de Queiroz!, o Avô Eça, como sempre foi tratado na família – não de forma apenas carinhosa ou de familiaridade reclamada, mas sim pela nossa efectiva proximidade sanguínea e geracional.
O meu pai era o neto mais velho do escritor e eu ainda conheci, bem vivos e inteligentes, dois dos seus filhos – os meus tios-avós Maria e António.
Esta minha acomodação – por assim dizer intermitente – teve, para o bem e para o mal, momentos diferentes. É obviamente um nome que abre portas. Mas também produz invejas e engulhos. E usá-lo é, acima de tudo, uma responsabilidade muito pouco transmissível.
Glosado quase diariamente, não só pela Comunicação Social mas também pelo comum dos portugueses de cultura mediana, o escritor produziu sempre curvas exógenas de interesse ciclicamente renovadas. Entre elas produziu a esquisita «saga» de o quererem transformar a ele, Eça de Queiroz, numa personagem virtual de si próprio.
Tal «saga» teve como preâmbulo a dúvida quanto à sua natalidade: seria realmente da Póvoa do Varzim, ou de Vila do Conde?, ou até mesmo de Verdemilho?... Sempre achei o assunto espúrio, mas fui-me informando das várias versões e (poucos) testemunhos.
Por alturas do centenário da sua morte, a escritora Agustina Bessa-Luís deixou no semanário Independente um alinhavo mais ou menos grotesco onde dava a entender que Eça seria – afinal! – filho de um pescador poveiro (ou de qualquer outro homem) e de uma menina da conhecida família Carneiro Pizarro.
Denunciei então o ridículo da especulação na Revista Diplomática (1), argumentando com a manifesta falta de motivo perante o que realmente aconteceu depois: a assunção dos factos pelo pai, de imediato, e pela mãe, posteriormente.
Ou seja: porque diabo um magistrado de bom nome e uma jovem de família aristocrática aceitariam assumir tamanho embuste? Não houve dinheiro no «caso» porque nunca ninguém aqui foi rico.
E, de resto, a «doença dos pézinhos» (2) nunca atacou na família...
Agora – mais concretamente há cerca de duas semanas –, surge o professor José Hermano Saraiva na televisão (na «Dois») com uma versão da filiação de Eça no mínimo... bastante mexicana!
Sinteticamente, o interessante e grande comunicador desenvolveu uma teoria em que o pai de Eça, José Maria Teixeira de Queiroz, engravidava uma senhora casada com um homem já muito idoso, que o juiz esperava ver morto em breve, para depois casar com a jovem e alegre viúva recente. Tudo na paz do Senhor!...
Como tal não aconteceu, o vilão do Teixeira de Queiroz seduziu depois a jovem e nobre Carolina Augusta Pereira d’Eça, a pontos de a convencer a aceitar como seu o filho de uma outra mulher, fornecendo mesmo o apelido materno – em falta desde o secreto e conturbado baptismo do futuro escritor.
A «construção» deste adultério parte de uma análise defeituosa: José Hermano Saraiva serve-se da recusa de Teixeira de Queiroz em julgar o affaire Camilo/Ana Plácido, considerando que o juiz o fizera porque também ele era adúltero.
Ora Teixeira de Queiroz nunca afirmou tal coisa.
O que se sabe é que o pai de Eça não achava o adultério criminalizável. Ao mesmo tempo que se encontrava na incómoda posição de ter engravidado uma rapariga solteira. À época ambos os casos eram considerados graves e a sua reprovação social era enorme.
Esta é, e sempre foi, a memória familiar do lado Queiroz sobre o assunto.

Memórias convergentes de pessoas distantes

A partir de agora sirvo-me de um testemunho de parentes ainda próximos mas que nunca conheci: os Pereira d’Eça. Ou seja: a versão do outro lado.
Maria d’Eça, parente do escritor pelo lado da sua mãe, escreve em 1975 à sua sobrinha Maria Augusta d’Eça Alpuim o seguinte:
–«Aqui vão as notas que me pediste: a tia Carolina era prima direita do meu avô, pai do meu pai (general Pereira d’Eça). O nascimento do José Maria foi de facto um caso que envergonhou a família, mas a culpa foi dela. O tio José Maria (pai de Eça) tinha uma boa situação e quis sempre casar. Mas ela tinha um génio violentíssimo e ficou furiosa de ter caído nessa falta e tomou uma raiva ao namorado que não quis casar e suportou todo esse transe. Ela já não tinha pai. A mãe, à hora da morte, fê-la prometer que casaria, porque tinha muita pena do caso e da criança, que vivia com os avós».
Este extracto, que consubstancia a ideia geral vista pelo lado Queiroz, está publicado num livro do jornalista e queirosiano convicto Severino Costa (Eça de Queiroz – Subsídios Biográficos), chancelado por uma carta introdutória de Maria Lúcia Lepecki (3).
Do alto dos seus 90 anos, recorda Maria d’Eça, em Julho de 1975, à sua sobrinha Maria Augusta (que vive em Viana do Castelo e com quem tive o prazer de falar há dias): «Nós ainda conhecemos o tio José Maria Teixeira de Queiroz e a tia Carolina» (que sobreviveram ao filho). Ela «(...) era interessante, muito irónica» (seria marca do ADN?) «e todos lhe achavam graça. (...) Falava sempre à minhota e dizia à nossa mãe: "Bamos" a uma festa, mas não tragas "belhas" nem crianças. Ela era muito mais velha que a nossa avó e que a tia Eça, mas achava-as "belhas"» – conclui.
Diz um bom amigo meu, um sensato arqueólogo de alma e coração: «Nós, os historiadores, sabemos muito bem ler o que dizem os documentos mas não fazemos nunca a menor ideia do que realmente se passou nos palheiros».
Pois os segredos deste palheiro são os seguintes: Carolina Augusta Pereira d’Eça escondeu a sua gravidez de solteira em casa da família Carneiro Pizarro, em Viana do Castelo, e foi ter a criança na Póvoa do Varzim (4) no final do tempo.
O seu feitio imperativo, de «generala», era conhecido da sua neta e minha tia-avó Maria Eça de Queiroz de Castro, que em contrapartida gostava muito do avô José Maria. Ele contava-lhe histórias e ensinava-lhe jogos e truques de cartas (in Eça de Queiroz Entre os Seus, de Maria e António Eça de Queiroz).
Carolina Augusta não apreciava crianças, provavelmente porque gerou uma que não quis. Permitiu que o escritor acrescentasse «Eça» ao seu nome, mas apenas a partir do seu ingresso na Universidade de Coimbra. E cedeu-lhe oficialmente esse mesmo nome quando isso se tornou obrigatório e Eça era já uma celebridade.
Tal era a generosidade da mãe do meu muito sofrido mas magnífico bisavô.» 
  1. Revista ‘Mundos’, de Maio de 2001
  2. Ou paramiloidose: doença degenerativa e endémica da comunidade piscatória poveira e seus descendentes
  3. E também no livro Os Eças, de Maria Augusta d’Eça Alpuim
  4. Em casa de Francisco Soromenho, parente de Carolina Augusta

* Texto publicado em 17 de Julho de 2004


Como seria de esperar, o professor José Hermano Saraiva armou rapidamente a sua resposta, que saiu a 24 de Julho na mesma revista. Falava ali de uma «piedosa lenda familiar» e entrava, já impiedosamente (ao menos para mim, que nada sei sobre questões jurídicas), pelo inóspito mundo da lei.
O título ribombava que nem uma trovoada de Verão.

A VERDADE É SÓ UMA

desenho de Pedro Pimentel
– «Publica o Expresso de 17 de Julho, no suplemento «Actual», um artigo do senhor António Eça de Queiroz no qual sou pessoalmente visado em termos que julgo deverem ser esclarecidos. Assim:

1 – É ofensivo da verdade o resumo, que ali se faz, do meu programa no canal 2 da RTP sobre Eça de Queiroz. O que eu afirmei foi que o grande escritor foi filho adulterino, porque isso resulta necessariamente do documento junto ao seu assento de baptismo.

2 – De facto, o pai do escritor, em 18 de Novembro de 1845, dirigiu à mulher que estava prestes a ser mãe uma carta na qual lhe dizia que o nome da mãe não devia constar do assento do baptismo. E isso por duas razões: porque era «essencial para o futuro do meu filho» e para que «não seja precisa em tempo algum justificação de filiação». O pároco da matriz de Vila do Conde juntou a carta ao assento do baptismo.
O autor da carta era jurista e magistrado, bom conhecedor do Direito do seu tempo; consta da mesma carta que ela foi escrita por recomendação do avô do futuro escritor, que também era jurista de mérito. Ambos conheciam, portanto, bem o sentido jurídico dos termos que utilizavam.

3 – Ora esse sentido só pode ser um: a mãe do grande escritor era mulher casada. Se o seu nome constasse do assento, verificava-se a presunção legal: o pai da criança era o marido dela. E isso impediria o avô de criar o nascituro, como desejava e como veio a acontecer. Para elidir tal presunção seria necessária uma acção de filiação, processo judicial difícil e sempre escandaloso.

4 – D. Carolina Pereira d’Eça era, nessa data, pessoa solteira; se o seu nome constasse do assento, não só não seria necessária qualquer acção de filiação como, pelo contrário, facilitaria a legitimação, no caso de casamento ulterior.
A minha versão nada tem, portanto, de «mexicana» (confesso não ter percebido essa qualificação); é a conclusão obrigatória, e a única possível, da leitura jurídica dos documentos existentes.

5 – O dr. António Eça de Queiroz escreve que a minha «construção» parte de um «pressuposto defeituoso»: a recusa do juiz Queiroz em julgar o caso Camilo-Ana Plácido. Esse pormenor não tem qualquer importância; aludi a ele como facto consequente, explicável em face da situação que revelei. Se eu tivesse partido desse facto (que pode ser explicado de muitas formas) para concluir que o autor d’Os Maias era filho adulterino, teria procedido com indesculpável leviandade. Mas não foi assim. Li os documentos, estudei a lei vigente em 1845, consultei ilustres magistrados (até do Supremo) e professores de Direito, e a solução foi sempre a mesma: a omissão do nome da mãe, para não ser precisa uma acção de filiação, significa, necessária e exclusivamente, que a mãe era mulher casada.

6 – Julgo, em consciência, que o senhor António Eça de Queiroz não tem qualquer razão séria para ver na minha afirmação um insulto à glória da família. Penso até que a conclusão é a oposta. O pudor familiar tinha inventado a lenda de que a jovem Carolina, seduzida pelo magistrado, não tinha querido figurar no assento de baptismo. E também não tinha querido ver o filho, que uma velha ama criou, longe dela, até aos cinco anos. E recusara-se a aceitar o menino quando já estava casada com o pai dele. E só aceitara perfilhá-lo em 1885, quando ele já era um nome famoso nas letras portuguesas e precisava de documentos para casar com D. Emília de Castro (Resende), descendente de uma das mais nobres famílias portuguesas. Era, portanto, uma mulher monstruosa, que sacrificara o amor maternal em homenagem a preconceitos burgueses. A honra da família fica enriquecida: descubro-lhe uma trisavó adúltera (vá-se lá saber porquê, numa época em que casavam crianças com velhos proprietários), mas restituo-lhe uma trisavó adoptiva generosa, nobre, que soube emprestar ao bastardo o nome do marido, quando isso foi absolutamente necessário.

7 – E o próprio grande escritor sai engrandecido.
Porque nunca escreveu ele uma carta à mãe? Porque tem uma noção tão amarga da mulher, do amor, do casamento?
E porquê aquela obsessão do adultério e do incesto?
Foi por me parecer que tudo isso se esclarece com a minha revelação que lhe dei publicidade.

8 – Tenho sincera consideração e respeito pelos ancestrais sentimentos que motivaram a reacção do meu distinto contraditor, mas penso que a sua resposta só atiça a fogueira que ele julga chamuscar o prestígio familiar. Em qualquer caso, «amicus Plato, sed magis amica veritas» é aforismo que vem desde os romanos. Porque seria que o profético Francis Bacon lhe deu uma versão nova, substituindo Plato por Sócrates? Qualquer que seja a resposta, com Platão ou com Sócrates, a verdade é só uma. Nem seu bisavô nunca disse o contrário.

J.H.S.»


O tom paternalista deste final pôs-me imediatamente a ouvir imensa música – com muitas gaitas de amolador pelo meio!...
Mas havia já três coisas que eu sabia instintivamente: uma era a de que todo aquele pesadelo legal não provava coisa alguma – bastava fugir-lhe, como se faz todos os dias e em toda a parte do mundo; outra era a de que nada havia que pudesse sustentar – em termos físicos e práticos – a versão de JHS; finalmente, na terceira, estava a divertir-me!
E pretendia continuar.
Novo texto meu, em formato de carta aberta, é publicado no «Actual» a 7 de Agosto.

Dizia o seguinte:

TRÉPLICA PONTO A PONTO

Porto, aos 25 de Julho de 2004

Exmº Senhor Professor José Hermano Saraiva

«Permita-me desde já sossegá-lo referindo que nunca, nesta nossa troca de pontos de vista, fui tomado de qualquer sensação de ataque ao bom nome da minha família.
Tal nunca poderá acontecer por via de novas descobertas, hipóteses ou teorias sobre a paternidade do meu bisavô.
E, de qualquer forma, se um dia se alterassem os dados da realidade que eu tenho por certa – por via de qualquer documento de comprovada veracidade –, só me restaria aceitar os factos. Mas sempre benevolamente acompanhado pelo consolo inultrapassável de saber que a categoria de Eça nunca poderá ser beliscada.
Ele, no mínimo, alcançou a eternidade artística – e essa ninguém lha poderá tirar.
O que já não aceito facilmente é que teorias mal alinhavadas (que não é o caso da sua, convenhamos) ou hipóteses meramente académicas (esse sim, é o caso...) alterem o mapa genealógico que eu conheço do escritor, e que coincide com o que se encontra já integrado nesse fabuloso mundo que é a História.
Mapa esse que, por mero acaso bioquímico, é também o meu.
Quanto ao assunto que nos tem unido em tão bons momentos de interessante confronto, vou seguir o seu método económico e responder ponto por ponto ao seu texto «A verdade é só uma», publicado no Expresso do último sábado.

1 – Eu não fiz um resumo do seu programa: limitei-me a comentar a sua teoria sobre a paternidade de Eça.
Resumi, isso sim, a forma utilizada pelo Sr. Professor na exposição dessa mesma teoria.

2/3/4/5 – O senhor assenta toda a sua argumentação no pressuposto da infalibilidade dos preceitos jurídicos, tanto a montante como a jusante do momento em que são utilizados, parecendo com isso esquecer-se que a Justiça – com o seu rol de leis e de empirismos transformados pelo tempo e pela estatística em alíneas académicas – foi criada pelo Homem, que vive antes e também depois dela.
Ou mesmo à margem dela.
Na proposta que defende como irrefutável, o preceito jurídico em que se inscreve o polémico documento elaborado pelo juiz José Maria Teixeira de Queiroz só poderá supor que este foi utilizado para esconder a identidade de uma mulher que tivera um filho fora do seu casamento.
Todos os juízes consultados pelo senhor foram unânimes no seu parecer, e, como tal, devem ter razão.
Isso representará jurisprudência de muitos anos, e não me repugna nada a ideia de a Justiça de 1845 não se querer meter nos «sarilhos de fraldas» de uma sociedade civil supostamente integrada e estabilizada.
Então o estranho estatuto de «mãe incógnita» serviria de forma ideal para esconder a identidade de uma mulher que fora adúltera, mas que a sociedade civil – representada no Estado pela Justiça – consideraria ainda recuperável para essa mesma sociedade.
Para que tal resultasse minimamente bastaria a omissão do acontecido, não deixando que o seu conhecimento caísse na sarjeta. E, claro, convinha também a necessária cara alegre por parte dos protagonistas legais.
A criança ficara com o pai biológico e foi esquecida. E a vida continua depois, como se nada fosse.
Faz todo o sentido!
Mas então o que faziam as raparigas solteiras que engravidavam?
Aparentemente, não tinham saída! Pariam a criança em segredo e depois iam para freiras. Algumas casariam, também, mas em situações genericamente vexantes.
A não ser que o preceito jurídico fosse simplesmente ignorado – o que eu imagino ter acontecido bastas vezes.
E em sendo ignorado, que melhor esconderijo uma mãe solteira poderia encontrar do que o panteão das mulheres adúlteras, das que se escondiam atrás do biombo legal das «mães incógnitas»?
Porque não é credível que a fiscalização a preceitos legais dessa natureza (ou mesmo doutra qualquer) fosse particularmente eficaz no Portugal de 1845! E porque investigar sobre a veracidade do estado civil de uma «mãe incógnita» me parece uma hipótese de resultado tão mirífico quanto o foi a proposta ministerial de Júlio Dantas (curiosamente, parente bastante próximo de Eça...) que visava proibir por decreto a existência das sociedades secretas!
Como se proíbe a existência de uma sociedade que é secreta de raiz? E como se investiga o estado civil de uma mulher cujo nome se desconhece?... Torturando o pai da criança? Armando um escândalo medonho e destruindo assim a natureza e o objectivo principal do preceito legal evocado nas acções de filiação onde o nome da mãe não é citado?
Teixeira de Queiroz sabia certamente da importância do que legalmente estava em jogo e das eventuais consequências.
Mas, muito mais importante que tudo isso era a sua vida e o futuro do seu filho, que o juiz desejava ardentemente – como qualquer pai verdadeiro – ver criado no seio de uma família minimamente estável.
Ora ele sabia muito bem que a única forma de não incendiar ainda mais a fúria da sua ex-namorada Carolina Augusta Pereira d’Eça era não envolvê-la em qualquer escândalo de efeito imediato.
O assunto já nada tinha a ver com meros preceitos jurídico-legais. De facto, era muitíssimo mais importante e complexo.
E, certamente, no momento em que este juiz em causa própria entregou o citado documento ao prior da igreja matriz de Vila do Conde, o arcipreste Domingos da Soledade Sillos, nunca lhe terá passado pela cabeça o menor temor de que o padre lhe fosse perguntar sobre o estado civil da «mãe incógnita» daquela criança que acabava de baptizar.

Assim, a dedução de V. Exª, professor José Hermano Saraiva – tão bem apoiada no conhecimento de indubitavelmente doutos homens de leis –, é muito interessante mas não chega para alterar o que a História já assimilou como verdadeiro.
Porque, quando é absolutamente necessário, os homens mentem e ultrapassam as leis. Juizes incluídos.

6/7 – «Pudor familiar», Sr. Professor? Por parte de quem? Da família Pereira d’Eça?!
Qual seria a vantagem de juntar ao historial de uma família, bem vista a vários níveis, o estigma de abrigar no seu seio uma mãe solteira? Nenhuma!, muito pelo contrário.
No entanto, os Pereira d’Eça assumiram os factos – classificados por si como «lenda» – que estiveram na origem do nome, posteriormente muito celebrizado, de Eça de Queiroz.
Desde sempre e sem reservas.
Quanto à questão da minha hipotética «trisavó adúltera», não há lugar para preocupações. Possuo experiência de vida e abertura de espírito suficientes para admitir que qualquer ser humano deverá possuir o aceitável número de uma a duas trisavós adúlteras – no universo habitual das oito que existem na genealogia de cada pessoa. No meu caso – que só tenho sete –, até acho que sei de uma delas (1).
Falemos agora não de adúlteras mas antes da minha (ainda) trisavó Carolina Augusta – que o senhor insiste em considerar uma mulher muito «generosa». Então uma mãe adoptiva pode ser considerada pessoa generosa quando recusa liminarmente o convívio com o seu adoptado – ou mesmo deste com os seus outros meios-irmãos? E disso há muitas provas, Sr. Professor.
A questão era bem outra: o seu jovem filho José Maria (...) Queiroz representava a memória viva de um dos piores momentos da vida de altiva menina-de-família que Carolina Augusta foi.
O seu propalado e feroz egoísmo fez o resto, chegando e sobrando no desempenho de sombria inspiração para alguns dos temas mais fortes da obra de Eça: o adultério, o incesto, as mães solteiras que recorriam a «tecedeiras de anjos» e outros tantos tabus da época, tão ao gosto do espírito audaz de artistas da categoria de um Stendhal, de um Balzac ou... de um Eça de Queiroz. 
E com isto o senhor não retirou nem me deu nada.

8 – Chegado aqui, sou obrigado a revelar o meu atavismo irredutível no que diz respeito aos clássicos. Considero-os (do pouco que li) intocáveis, e qualquer reinterpretação moderna surge-me sempre como uma adulteração da sua verdade una e orgânica.
Porque, para mim, um bom livro é também uma maravilhosa máquina do tempo.
Finalmente, tenho de lhe confidenciar e agradecer – garanto-lhe que sem a menor das hipocrisias – o prazer genuíno proporcionado por estes excitantes momentos de reflexão, que nunca teriam existido se esta bela discussão sobre tão interessante tema nunca tivesse tido lugar.

Cumprimento-o respeitosamente e com amizade»

A.E.Q.
  1.  A verdade exige que diga aqui que me enganei sobre a pessoa que julgava ser a minha hipotética trisavó adúltera. Na verdade, a minha trisavó espanhola Matilde de Montufar Infante (filha dos marqueses de Selva Alegre, da Andaluzia) teve apenas o percalço de casar com o meu muito estouvado, exibicionista e riquíssimo trisavô António Leandro da Câmara do Carvalhal Esmeraldo Atouguia Sá Machado – o 2º conde de Carvalhal. Já a irmã dela, Rosa de Montufar Infante, casada com o visconde de Nossa Senhora da Luz, deu brado na sociedade de então com as suas várias relações extra-conjugais, onde se destaca a que manteve com Almeida Garrett. Daí a minha confusão, que agora rectifico.


A 21 de Agosto de 2004, inexorável, surge a resposta à minha carta aberta. Era prosa taxativa, apresentada como se estivéssemos todos a assistir ao final da instrução dum qualquer processo.
Ao lê-la, fiquei com a impressão de que nunca precisarei dum advogado. A não ser para coisas muito – mas mesmo muito – chatas. E percebi também que o assunto, em termos de polémica jornalística, acabara por ali.
Para continuar um pouco mais além, noutro sítio...
O título tinha pompa jurídica e era seco como uma sentença. Mas o início amansava-me com palmadinhas cordiais.

AUTOS CONCLUSOS

– «O Expresso de 7 de Agosto publica, sob o título «Tréplica ponto a ponto», uma carta pessoal que o senhor António Eça de Queiroz me dirige, em resposta ao meu artigo «A verdade é só uma».
É uma carta de grande elevação e cortesia, e não posso deixar de agradecer a nobreza com que o meu prestigiado contraditor vem brandir as suas armas. Vê-se bem que é bisneto do autor da Correspondência de Fradique Mendes.
Com um ou outro retoque de oitocentismo, esta missiva não destoaria muito desse famoso epistolário.
Quanto ao fundo da questão, o senhor António Eça de Queiroz reconhece a solidez dos meus argumentos. A lei é como eu disse, quem escreveu a carta conhecia a lei e não ignorava o sentido jurídico do que escreveu: se o nome da mãe constasse do registo de baptismo seria preciso, mais tarde, recorrer a uma acção de filiação. Isso implica que a mãe era casada com outrem que não o pai do neófito, porque de outro modo o nome da mãe não só não exigiria justificação como até a dispensaria. Ainda hoje os registos de nascimento com mães incógnitas se referem todos a mulheres casadas.
O meu distinto contraditor aceita tudo isto, mas argumenta que não há regra sem excepção e entrincheira-se no seu «atavismo irredutível».
É uma posição clara e castiça. O fidalgo Gonçalo Mendes Ramires diria, precisamente, a mesma coisa. E Gonçalo Mendes, filho literário de Eça, é da linhagem ilustre do meu replicador. Mas é completamente irrelevante para a decisão da causa. Na verdade, esta tréplica representa a completa confissão.

Publica também o Expresso uma carta do sr. Francisco Marques que tem uma parte boa (a transcrição da carta em que o dr. Teixeira de Queiroz recomenda que se não enuncie o nome da mãe, «para que não seja preciso em tempo algum justificação de filiação») e uma parte má (que são os comentários que o documento lhe inspirou). A conclusão a que chega é perfeitamente gratuita e repelida pelo texto da carta. Escrever que a omissão do nome da mãe
se deve tão-só à recusa desta em assumir a maternidade é esquecer que, além de recusa, pode haver impossibilidade.
Também a disparatada ideia de que o nascituro podia ser ou não filho do dr. Queiroz e neto do dr. Joaquim José é de todo inaceitável. O pai jurídico podia não ser o progenitor, por variadíssimas razões: por estar ausente (era uma época de intensíssima emigração para o Brasil), por ser idoso, por ser doente, por ser estéril, por estar separado de facto, por estar a cumprir serviço militar, etc... O Sr. Francisco Marques alega, pois, aquilo que, em casos desta natureza, se chama uma exceptio plurium, situação injuriosa e que não tem qualquer indício de prova.

A tréplica foi até há poucos anos o último articulado do Processo Ordinário, mas admitia-se resposta a tréplica no caso de nela se levantarem novas excepções. É o caso.
Pelo meu lado, dou por encerrada a polémica, que, ao contrário do que o senhor António Eça de Queiroz escreve, trouxe algo de novo e extremamente importante à biografia queirosiana: o nascimento adulterino do escritor. Os futuros biógrafos não poderão ignorar este facto, que, como já escrevi, lança luz sobre toda a obra do genial prosador.

Pelo meu lado, considero, pois, os autos conclusos, e será o público quem terá de dar a sentença.

Vai demorar muito tempo, mas a verdade foi descoberta e, como o azeite, vem sempre ao de cima.

Com os melhores cumprimentos.

 José Hermano Saraiva
Palmela, 8 de Agosto de 2004»

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EÇA DE QUEIROZ E OS SEUS CLONES (capítulo I)


CAPÍTULO I

[publiquei ontem aqui uma introdução a esta reedição virtual com o título REEDIÇÃO DE UM SONHO (feito livro)]




COORDENADAS PESSOAIS

O texto que abre este meu breve passeio pela galáxia queirosiana tem duas características que eu entendi serem suficientes para justificar a sua primazia: foi o meu primeiro escrito publicado onde abordei algo que dizia respeito ao escritor; e é simultaneamente revelador das várias coordenadas pessoais que fui acumulando ao longo dos anos na minha relação com ele.
Foi publicado na revista «Máxima» em Novembro de 1989, agregado a um vasto artigo de fundo sobre a Fundação Eça de Queiroz – que, um ano depois, adquiria finalmente personalidade jurídica.
No entanto, e apesar dos meus vários cuidados, o texto sofreu alguns acidentes de percurso que me irritaram na altura.
O título, que agora surge como então o imaginei, foi vítima do marketing editorial da época, e, devido a isso, acabou transformado num bem patego «Reviver o passado... em Tormes». A série britânica «Brideshead» passava mais uma vez no écran – em segunda ou terceira reposição – e este ditava assim as suas sempre equívocas leis.
Tal como hoje – afinal de contas.
Na altura reparei também, embora com menor desgosto, que alguns dos nomes ali citados tinham sido misteriosamente remexidos em pequenas coisas – o que é no mínimo estranho, já que tudo estava bem escrito e em letra de forma.
Assim, a minha prima-tia Maria da Graça Salema de Castro (presidente vitalícia da Fundação Eça de Queiroz) – que na família todos conhecem e tratam por Tia Gracinha – surgia ali transmutada numa totalmente desconhecida «Gracinda». Só faltou o precedente «Ti» para o descalabro ser total...
E até o meu petit-nom, que um dos caseiros de Tormes carinhosamente estendia para «Quiquinho», sofreu de pensada simplificação e acabou num quase mimético mas totalmente deslocado «Chiquinho»...
Ou seja: alguém achou que tais nomes não podiam ser como eu os tinha escrito e decidiu alterá-los. São coisas muito próprias da Comunicação Social, que raramente provocam na própria mais do que um vago encolher de ombros.
Com «Ontem, em Tormes» pretendi contar o que eu conhecia do lugar, da casa e das pessoas que a habitavam, tudo bem cerzido nas minhas experiências vividas nesse sítio que sempre considerei mágico – muito antes de sequer desconfiar que, no futuro, o seu criador iria apresentar-se-me, também ele, como um verdadeiro mago.
E, de certa forma, a notoriedade quase surrealista daquela casa – ela própria enxertada numa espécie perene de personagem/cenário que viaja no tempo – acaba por ser o resultado de um grande passe de magia.
Recuaremos, portanto, até memórias coligidas há cerca de duas décadas.
Ou seja – recuaremos mais de 40 anos.



ONTEM, EM TORMES

Uma das coisas mais parvas que ciclicamente me perguntam é se eu, como descendente directo do escritor e usando o seu nome, «escrevo tão bem como ele». É uma pergunta sempre despropositada, feita (penso eu) com a piedosa intenção de criar espírito e promover a animação...
Mas quando se tem oito ou nove anos de idade – e quando tudo o que se sabe sobre o nome que se enverga é que ele vem de alguém célebre – isso não tem qualquer importância.
Dá-nos, talvez, alguma sensação de (indevida) superioridade face a todos os Silvas, Almeidas e Oliveiras que pululam as entranhas dos arquivos nacionais de identificação e as listas telefónicas.
Tormes, até onde a minha memória chega límpida, era uma casa quente e sólida, povoada de pessoas amigas, que girava na órbita duma personalidade/providência chamada Tia Maria.
Filha do escritor – mas sem que isso na época tivesse qualquer peso especial para nós, os miúdos –, a Tia Maria era aquela pessoa vivíssima que invariavelmente se encontrava sentada na sua cadeira do canto da sala principal, junto à lareira de briquetes e pó de carvão, ouvindo atentamente as últimas da BBC em onda curta. Ou escrevendo cartas aos seus muitos amigos e correspondentes.
Era uma velhinha curvada e admirável, miudinha, que falava com os «erres» e que ostentava no alto da cabeça uma poupa de cabelos brancos muito característica. Mais duas notas: todos os fins de tarde reunia no hall de pedra as pessoas da casa – muitos trabalhadores incluídos – para rezar o terço; e pelava-se por anedotas picantes – que o seu filho Manoel Pedro Benedito de Castro (o Tio Lão) prodigamente lhe fornecia sob o olhar ligeiramente crítico da sua mulher, Maria da Graça Salema de Castro (a Tia Gracinha).
Com 80 anos, a Tia Maria tinha a suprema pachorra de nos contar histórias ou ensinar truques de cartas, e era capaz de passar uma tarde inteira a jogar crapaud com um ser de seis ou sete anos. Além disso, tinha a maravilhosa consideração de escrever, a cada um dos seus sobrinhos-netos que fazia anos, uma carta perfeitamente personalizada – mostrando bem que sabia o que cada um fazia ou gostava.
Ela era, de facto, o astro brilhante da nossa Tormes.
A Tormes que eu pela primeira vez conheci – e que se chamava prosaicamente Quinta de Vila Nova, antes da ribalta provocada pelo efeito Eça de Queiroz – era pois um conjunto de três pessoas dentro duma casa. E era a casa aberta e vetusta, enquadrada no seu arco de entrada com escadas duplas e no seu pátio interior, bem guardada, ao lado da capela, por um grupinho de cedros que a anunciavam à distância. Do lado de trás, no jardim, a grande tília – que entretanto caiu vítima da velhice e duma forte tempestade – aconchegava esta imagem de conforto que se foi tornando querida e desejada por todos os que, como eu, a procuravam para uns dias de férias.
Depois, Tormes era a quinta, os caseiros, o feitor António Pinto e a mulher, as adegas e o lagar de azeite com os seus cheiros bons e penetrantes, os pequenos-almoços de broa, azeitonas e um copito de vinho – tudo bem à revelia da Tia Gracinha que, suponho, me queria com um apetite mais convencional.
Agora, com o seu estradão de acesso bem tratado e a indicação de que esta é a «Tormes de Jacinto», a casa de Santa Cruz do Douro (como também é conhecida) aparece-me mais distante no tempo e no espaço que dedico às memórias sentimentais.
As caçadas na mata e nas vinhas, o encontro efusivo com os velhos caseiros, a primeira ida à enorme cozinha ao fim duma separação de seis ou mais meses, com o António Teles a largar o balde de lavagem para os porcos – que vinha encher de restos – para me cumprimentar com um «olha o menino Quiquinho!»..., também são marcas vivas de um outro tempo de Tormes.
Do Eça?, ainda nada.
Passo a explicar.
O primeiro livro que li do meu bisavô foi A Relíquia, aos doze anos. Comecei às dez da noite e às sete da manhã ainda me espolinhava na cama, entre gargalhadas e a expectativa de mais uma cena erótica entre o despistado Raposão e a sua amásia do momento. Então fiz jus à fama que o escritor tinha e senti-me inchar perante a proximidade genética.
Mal eu sabia que, por si só, nada disso era realmente importante.
A casa, que agora contempla um excelente espólio do escritor, não estava ao tempo destas minhas memórias tão bem apresentada. Era, fundamentalmente, a habitação duma família sem filhos, que eram «substituídos» – como se tal fosse possível – por uma caterva de sobrinhos. Havia alturas em que era necessário marcar lugar para ir passar uns dias a Santa Cruz, de tal maneira isso agradava a todos.
A minha Mãe, que para lá ia muitas vezes comigo, esforçou-se pontualmente por me fazer crescer dentro dum conhecimento qualquer sobre a Tormes de Eça de Queiroz – que se dispersava na casa por fotografias, por móveis da casa de Neuilly, pela «Cabaia do Mandarim»*  e muitos outros objectos sem dúvida interessantes.
Mas eu gostava era da capela que então servia de armazém, do galinheiro enorme, da eira e das casas dos trabalhadores da quinta – a quem impressionava com cruéis sessões de tiro ao voo em morcegos, ao fim da tarde. Eu era bom com uma carabina de pressão de ar, sem dúvida, e eles exultavam com a gritaria dos bichos atingidos.
Há uma memória fixada pelo medo que a criou.
O meu quarto – ou o de quem quer que fosse miúdo naquela casa – situava-se no corpo mais moderno do edifício, junto às instalações das empregadas, e uma pequena rua passava-lhe por baixo, dando acesso aos carros de bois que por ali seguiam ao amanhecer com o seu choroso ranger de eixos. Havia vários cães da serra em Tormes, com as suas orelhas em ferida, sempre a abanar as cabeças para espantar as moscas que os assediavam. Estes grandes cães ladravam muito, como era da sua competência.
E por vezes uivavam também – o que fez o catraio que eu era então julgar, às três ou quatro da manhã, serem lobos os bichos que sonoramente se exprimiam dois metros abaixo da cama onde, paralisado, eu tentava passar despercebido.
Só a passagem dos carros de bois que iam para o monte, lá pelas seis da manhã, me acalmou os medos. E ainda houve tempo para me vestir a correr e apanhar uma boleia – o que depois se tornou num hábito muitas vezes seguido.
Bastante mais tarde, nesse dia, relacionei os uivos nocturnos com os cães da quinta. Mas, ainda assim, o medo voltava de vez em quando.
De Eça finalmente uns laivos: o cheiro dos laranjais, à hora do lanche (eram sempre óptimos, os lanches em Tormes), na bela varanda que dá para o vale do Douro, despertava na minha Mãe a descrição de passagens d’A Cidade e as Serras, da subida de Jacinto e Zé Fernandes da estação dos comboios até à casa, que ela relia sempre com o inevitável comentário intercalar de que «é tal e qual...».
Também as conversas com a Tia Maria, sobre a vida que ainda conseguira partilhar com o pai, me aproximavam de uma certa aura queirosiana, que se secularizou entretanto através desse ser prodigioso que era a minha tia-avó. Estou a vê-la a sintonizar melhor o seu fantástico rádio de válvulas, tentando evitar o fading das ondas curtas, ao mesmo tempo que evoluía numa qualquer discussão sobre política internacional com quem quer que estivesse presente.
Os livros do Avô Eça, um célebre baú de manuscritos e a grande foto do escritor com Carlos Meyer – que encima o fogão da sala de estar – foram coisas que a dada altura começaram a estar na minha atmosfera, até então exclusivamente preenchida pelos melros, gaios e pardais que era suposto caçar.
Fugazmente, era possível (mesmo a um catraio) aperceber-me da visita de pessoas importantes, que volta e meia chegavam para falar com a Tia Maria – talvez a respeito das muitas obras de que ela e o meu avô José Maria foram editores póstumos*.
Porém, isso era-me perfeitamente indiferente – como é fácil de imaginar.
Eu queria era borga: ir a Baião com o meu tio (que era lá presidente de Câmara), no seu Volvo «marreco», presidir à entrega de prémios em concursos de gado, ou almoçar no Marco com algum amigo dele – ou visitar alguma adega cooperativa –, tudo era um bom motivo de passeio.
Nas conversas que tinha com os lavradores da região – que o tratavam por «D. Manoel» –, era normal proceder-se a libações que vinham camufladas de provas de vinhos.
Tudo era alegre, havia boas anedotas, muito riso e amizade, e o mundo era perfeito – longe das aulas e doutros acontecimentos menos sorridentes.
O mundo era perfeito e pouco ou nada o podia perturbar – julgava eu. As poucas coisas que ali iam mudando tinham a ver com o hardware da casa: o fogão deixou de ser de lenha para passar a gás – mas a bela cozinha era a mesma, praticamente com as mesmas pessoas.
A desfolhada já tinha umas quantas máquinas a interferir, mas ainda era na eira e havia para lá umas quantas raparigas que suscitavam o meu interesse subitamente despertado.
O cabrito assado no forno do pão com arroz pingado, a sopa de carne muito fina e o encanto das pessoas eram os mesmos de sempre.
Um dia, como qualquer outro, soube que a Tia Maria tinha morrido. Mesmo que não quisesse – porque as outras pessoas da casa eram também importantes para mim –, tal facto tornou-se num marco dos meus sentimentos para com o lugar.
Lembro-me de que, no dia desse triste acontecimento, ao fim da manhã, o Tio Lão veio ter com a minha Mãe e disse-lhe: «É incrível! Ia agora mesmo ao quarto da mãe perguntar-lhe a morada duma pessoa a quem é suposto ir comunicar a sua morte».
É!, – a Tia Maria era o nosso Eça de Queiroz de Tormes.
O cenário posteriormente montado com o plausível propósito de ser o museu do escritor – e constituído com o suporte digno da vontade expressa da filha – foi sendo acrescentado ao segundo grande parque da minha adolescência, depois da Granja.
A maior parte da quinta é hoje vinha, e o estradão de acesso à casa perdeu o seu anonimato, apresentando mesmo alguma pompa discreta. Agora, os turistas e interessados já não se perdem – como por vezes me aconteceu, quando já lá não ia depois de algum tempo.
O grande segredo daquela casa – haver uma coisa tão boa e tão bem escondida – perdeu-se para sempre a bem da abençoada cultura e da manutenção da ligação da quinta ao escritor.
O que, tecnicamente, está correcto.
Segundo penso saber, Eça de Queiroz terá estado meia dúzia de dias em Vila Nova, e obviamente (suponho) terá detestado as instalações. A quinta era da família de sua mulher, Emília de Castro, e o grosso do trabalho na sua habitabilidade e rentabilização foi feito pela filha do escritor e pelo filho e nora desta – Manoel e Maria da Graça de Castro.
Eles – e eu também, porque não? – são a Casa de Tormes que conheço. Sem Jacinto, mas certamente com Zés Fernandes q.b., com a água dos mil córregos, a erva e as flores a explodir fora dos muros, as noites estreladas e tudo o mais.
Depois, os números foram-se alinhando, estúpidos, e o mundo perdeu algum do seu brilho original para ganhar outro diferente.
Seja como for, eu sei mais de Tormes que o Eça.


* (Na realidade a minha Tia Maria apenas editou um livro sobre a correspondência familiar do seu pai, sob o título Eça de Queiroz entre os seus