domingo, 13 de novembro de 2011

CAPÍTULO VI – Carlos escreveu a Maria Monforte

A presença permanente de coincidências – umas apenas curiosas, outras dotadas de força suficiente para terem efeitos práticos – é uma das divergências da realidade (tida por boa) que, apesar da sua frequência, consegue sempre surpreender-me.
Dá a impressão de que certos acontecimentos, por vezes bem vulgares na aparência, se conjugam de forma abstracta para me enviarem uma mensagem – que surge intermitente, por vezes absurda, mas outras vezes muito concreta.
Esta que agora vou descrever faz parte das concretas.
Tudo começou com um trabalho da disciplina de Língua Portuguesa que a minha sobrinha (então) mais nova estava a preparar. O processo começava pela escolha de um dos autores constantes do programa do ano em curso, e a Isabel, não renegando o antepassado já distante, escolheu sem hesitações o Eça.
Ora o Eça do programa – e o mesmo se passará com muitos outros autores – encontra-se desde tempos quase imemoriais preso a Os Maias, como um velho brigue atascado no lodo duma qualquer baía de mares desconhecidos.
Aparentemente, parece nunca ter havido imaginação para mais da parte dos responsáveis por tais programas – e quase parece que as grandes alterações na escolha dos autores e respectivas obras apenas se manifestam em contínuos acrescentos e abates à lista criada, muito provavelmente, nos tempos de Salazar.
Como método é do mais simples – mas esse é tema para outras batalhas.
De volta ao trabalho da minha sobrinha sobre o seu trisavô, constava dele a elaboração de um texto em que se deveria inventar uma carta que Carlos da Maia teria hipoteticamente escrito a sua mãe. Seria a primeira vez que Carlos se dirigia a Maria Monforte e, naturalmente, o assunto remetia à complexa trama de adultério e abandono que o escritor forjou para que as suas personagens pudessem existir n’Os Maias.
Isabel escreveu um texto escorreito, com ideias que vincavam bem uma crítica quase cruel do filho a respeito da mãe. Mas, de acordo com a sua professora, faltavam ali uma certa sonoridade oitocentista e referências de natureza cultural, que Eça certamente integraria em tão mirífico texto. E também uma parábolazita ou outra poderiam acrescentar alguma credibilidade à ‘falsificação’...
Perante algumas dificuldades na recomposição da carta – bem naturais numa rapariga de 16 anos –, Isabel pediu-me ajuda. E eu, a partir do seu esboço, integrei aquilo que achei poder ser alguma da tensão que Eça, também ele, poderá ter sentido e recriado de alguma forma.
A partir daí a minha sobrinha concluiu o seu próprio texto – e eu fiquei com o meu.
Aqui está ele.

A carta impossível

Lisboa, 20 de Julho de 1888                                      


Senhora:

Sabendo eu de antemão que nunca esperaria receber tal missiva, tenho obrigatoriamente de lhe revelar, antes de mais, quem de facto sou.
Chamo-me Carlos e sou seu filho – aquele que abandonou era ele pouco mais do que uma criança de cueiros.
Na verdade eu era muito mais do que uma simples criança de cueiros. Sim! – porque o seu filho deveria ser mais importante do que tudo o que a possa ter feito fugir à sua responsabilidade de mãe.
Por meios que não vêm agora ao caso, tenho na minha posse a sua morada desde há algum tempo. Todavia, em boa verdade o digo, nunca logrei juntar a necessária coragem para lhe escrever – afinal, pare tentar de algum modo cerzir aqueles laços que jamais deviam ter sido rompidos.
Agora, após muitos anos de dúvidas e angústias – que entenderá bem, talvez não como Maria Monforte mas certamente como a mulher e a mãe que nela deverão existir –, sinto-me finalmente preparado para enfrentar a verdade: conhecer as poderosas razões que a levaram a abandonar-nos ao nosso para sempre sombrio destino. A mim e a meu Pai – que tanto a amava, a pontos de cometer esse acto tão drástico e tão carregado de dramática violência como é o suicídio.
Saberá a Senhora que, quando era mais novo, não conseguia perceber porque é que todos os meus amigos tinham mãe e pai, e eu era o único que não os tinha?
Era um terrível vazio ver a felicidade estampada nos seus rostos, enquanto se aninhavam nos carinhosos abraços, sabendo pela fonte segura do coração que eles estariam para sempre a seu lado, protegendo-os com o seu cuidado e infinito amor...
Infelizmente, eu nunca pude sentir tais afectos. E assim fui tentado a disfarçar tão absoluta e física ausência com as minhas peripécias amorosas e inúteis aventuras.
Foi o meu avô, Senhora – o homem mais forte e corajoso que eu conheço –, quem me criou. Não foi certamente uma mãe ou um pai – porque esses não têm substitutos. Ainda assim, conseguiu dar-me a atenção de que eu tanto necessitava. Graças a ele tive uma educação viva e avançada, pela qual lhe serei eternamente grato. Concluí o curso de Medicina – a minha grande paixão –, e abri o meu próprio consultório.
Tudo isto a ele o devo.
E foi também ele, num fim de tarde, na quinta de Santa Olávia, quem me explicou que os cucos – sim!, esses mesmos, que ecoam nas nossas matas e Lineaus tão bem descreve e classifica! – não tinham pais como deveria de ser.
Disse-me ele que a fêmea se limitava a colocar o ovo em ninho alheio, deixando que outros cuidassem da sua criação...
Onde poderia eu evocar – utilizando palavras do grande Nerval – «le spectre funeste qui traversait ma vie»?... Onde encontrar consolo e refúgio para tamanho sofrimento, que, como médico que sou, já quase considero enfermidade?    
Em lugar nenhum! Porque aconteceu um dia, Senhora, ter eu descoberto o que levou meu Pai ao suicídio. E então fui acarinhando a certeza de nunca mais querer falar consigo.O simples pensamento de que a sua fuga fora responsável pela morte dele transportava-me para um monstruoso universo de ódio quase convulsivo. A simples ideia enojava-me! E ainda o faz, por vezes.

No entanto, dá-se agora o facto de que decidi comportar-me como um adulto e dar-lhe assim uma oportunidade para se explicar. Em boa verdade, nem sei ao certo por que o faço, mas ser confrontado com a realidade nua e crua é, certamente, um acto de adulto. Há de concordar comigo!
Esta é, pois, a razão porque apareço agora nestas linhas necessariamente amargas, para saber se sempre valeu a pena o rumo que deu à sua vida, e se acha que eu ou o meu pai merecíamos a sua traição.
Não sei se foi por amor, paixão, ódio, desgosto ou neurastenia, mas qualquer que seja a razão – nem mesmo a mais exclusiva das paixões – nunca ela justificará um dia o abandono do seu próprio filho.
Veja bem, Senhora: nem mesmo os «Misérables», de mestre Victor Hugo, viveram o que eu vivi! Porque os seus ausentes pais e mães, as suas famílias destroçadas, eram, elas próprias, «des misérables»!
O que não é de todo o nosso caso...

Na realidade, eu não tenho a menor ideia sobre o que possa ter motivado essa sua impensável e enorme loucura, porque nem o meu avô ou quaisquer outras pessoas mo revelaram. E tudo assim foi permanecendo, até ao dia em que me cansei da minha reflectida comiseração – de sentir essa pena toda de mim próprio. Então, como um ‘coolie’ chegado de Macau que aporta no outro lado do mundo disposto a começar de novo toda uma vida, consegui avançar por entre alguns sucessos amenos e um longuíssimo e extenso esquecimento.
Como tal, por mais irrealista ou estranha que seja a sua resposta às minhas justas questões, acredite que nada me poderá chocar mais.
Nem mesmo a ausência total de resposta. Uma vez que abandonou o seu filho já não poderá voltar atrás – comigo não, certamente. O Destino quis dar-me uma vida suficientemente agradável sem a sua presença, e não será agora que a vou interromper – justamente por sua causa.
Compreenderá a Senhora que é impossível perdoar-lhe tamanha falta, mas também não é esse o propósito que me move a escrever-lhe estas duras e frias palavras.
Na verdade, eu só preciso mesmo de perceber o que aconteceu, o que a levou a cometer tão nefando acto.
Como é que foi capaz? Como conseguiu eliminar um filho da sua vida? Diga-me! Não foi por minha causa – porque nessas idades não existem culpas.
Foi alguma coisa que o meu pai fez? Ou o meu avô? Poderá ter sido um rebate social tardio, a vergonha do seu pai ter enriquecido como negreiro?...
Não acredito!
E a minha irmã?, de quem só há pouco sei da existência –, também quero saber dela!
Porque é que a escolheu a ela e não a mim?
Estas dúvidas produzem uma dor insuportável – uma dor de desengano e traição! Como eu gostaria de poder desprezar olimpicamente tudo isto! Mas não consigo...
Senhora: poderei neste momento parecer-lhe a pessoa mais desagradável deste Mundo, mas tal não é necessariamente verdade. Porque, dadas as circunstâncias, sinto-me credor da sua especial compreensão e cuidado. Depois de todo o labirinto de sentimentos que fui vencendo através da vida, não serão beijos ou flores que tenho para lhe oferecer numa qualquer hora de reencontro.
Porque aqui, no fundo do meu peito, resta apenas a verdade do que eu sinto por si e a urgente necessidade de compreender o porquê da minha estranha sina.
Espero ardentemente que leia esta carta e perceba bem o quanto me afectou com os seus actos. Já não pode voltar atrás – isso é certo.Mas ainda tem essa responsabilidade moral para comigo. 

                 O filho que nunca assumiu                  
                                                                Carlos da Maia


Da interacção

à extrapolação


O meu aproveitamento da mais do que académica hipótese de Eça pretender pôr um dia Carlos da Maia a falar com a sua mãe trânsfuga – que talvez até possa ser considerado um abuso, mesmo nas profundas desse imenso e inóspito matagal que é a teoria, ou simplesmente um exercício inócuo ou pretensioso (tanto me faz) – teve o condão de me levar de novo à sempre recorrente questão do nascimento e criação do escritor.
Porque, enquanto tentava encontrar algum grau de verosimilhança para incutir à falsa carta de Carlos a Maria Monforte, tive sempre presente que Eça, até ao fim da adolescência, não contactou de forma objectiva com a própria mãe.
A questão que aqui se pode colocar é se alguma vez o escritor abordou tal assunto com Carolina Augusta – porque certamente o fez com o pai. Ou se esse drama, tão real para ele, foi perdendo densidade com o tempo e a convivência, até se sublimar num respeito mútuo ou mesmo numa certa amizade.
Seja como for – e esta é certamente uma das razões porque muitos vêem nesta a mais significativa obra do escritor –, n’Os Maias existe uma real proximidade de situações entre certos protagonistas e algumas pessoas muito importantes na vida de Eça.
Os casos mais evidentes são o velho Afonso da Maia, que na sua juventude andara misturado com os liberais da maçonaria, e, por maioria de razões, Maria Monforte.
Mas enquanto a justaposição do avô de Carlos da Maia é benevolente em relação a Joaquim José de Queiroz – avô de Eça, liberal, também maçon e que, tal como Afonso da Maia, fugiu para Inglaterra depois de D. Miguel ter tomado o poder –, já os sinais utilizados para marcar Maria Monforte têm pontos de contacto meramente relativos face ao comportamento conhecido de Carolina Augusta. Porque, na realidade, esta não fugiu para sempre: apenas não quis ver o filho enquanto ele não cresceu.
No entanto, abandonou-o à nascença.
A utilização da proximidade relativa destas duas situações por parte de Eça – que dificilmente poderá ter sido inocente (na Tragédia da Rua das Flores a relação incestuosa é entre mãe e filho...) – parece revelar que, no fundo, ao recriar os acontecimentos daquela forma, o escritor quis dar a entender que, na realidade, não foi bem assim que tudo se passou... mas podia ter sido.
Este tipo de mimetismo nem sempre equidistante entre as suas personagens e a realidade pretendida, que o romancista utiliza em outras obras, é o filtro mágico que confere substância e vida própria a Basílio e Luísa, ao Conselheiro Acácio e a Juliana, a Amaro e à Cohen – e a toda a humana (talvez demasiado humana) horda de tipos que Eça criou e imortalizou.
Eles existiram de facto algures, e se o seu retrato não foi feito com absoluta definição fotográfica é porque não precisava de o ser – ou porque até era melhor que nem o fosse.
Assim, enquanto tal interacção entre a realidade e a ficção é benéfica, criativa e bem visível na fase mais realista de Eça, já as extrapolações que dela se fazem – pretendendo-se com isso dar outro papel às personagens que não o previamente atribuído pelo escritor – subscrevem quase sem excepção um certo tipo de raciocínio muito português, mesquinho e «pequinhento», que o próprio não se cansou de apontar e criticar em muitos dos seus escritos.
No realismo de Eça há sem qualquer dúvida um enorme contributo da própria realidade (como, a meu ver, em toda a sua obra).
Mas nem este contributo é absoluto, nem os vários aspectos e densidades que o traduzem podem ser manipulados a bel-prazer a partir do exterior – sob pena de tal não passar de mera subversão ou, na pior das hipóteses, da mais pura batota.
É disso que vou agora falar.

sábado, 12 de novembro de 2011

CAPÍTULO V – Uma trisavó tremenda

Uma trisavó tremenda!  – eis o que eu descobri de mais relevante nesta minha incursão pelo passado remoto de Eça.
Ela defendeu a sua acirrada teimosia, fazendo-a prevalecer sobre o senso comum mais básico – que apenas a aconselhava a aceitar com alguma humildade e muita coragem a maternidade que a vida lhe colocara tão à pressa entre mãos.
Segundo as memórias de Maria d’Eça (que, para evitar confusões, era prima afastada da minha tia-avó Maria Eça de Queiroz de Castro), Carolina Augusta reagiu violentamente à surpresa desagradável de uma gravidez que não procurara de todo, transferindo imediatamente a sua raiva para o co-responsável em tão dramática situação.
Terá com certeza pensado surdamente, e por muito tempo, na atitude terrível que tomaria ao rejeitar o filho mesmo antes deste nascer – dando já corpo à ideia de não pretender assumir as suas responsabilidades de mãe.
E se não assumia o filho, a que propósito iria assumir a relação com o pai do mesmo?
Assim, quando o juiz Teixeira de Queiroz lhe enviou uma mensagem onde a alijava da carga formal dos factos – porventura um texto idêntico ao que depois iria apensar ao assento de baptismo do filho, em Vila do Conde –, a mãe de Eça respirou fundo e rapidamente se escondeu por entre os dias da sua vida de sempre.
A espaços, mais ou menos longos, terá também fugido a tudo o que representasse uma proximidade social que lhe lembrava o passado ainda recente e acentuava mais um pouco um inevitável peso de consciência.
Tudo isto poderá ser complicado, mas também muito possível.
O testemunho de que terá sido a mãe de Carolina, antes de morrer, a obrigá-la a jurar que assumiria a criança, casando com o respectivo pai, merece-me tanta credibilidade como um outro qualquer que afirmasse que ela, por fim – talvez também pressionada pela sua recente situação de órfã total –, aceitara arcar com a sua quota-parte de responsabilidade, readquirindo simultaneamente alguma substância social por via da família que por fim integrava.
As duas situações podem mesmo ser complementares.
Mas há algo de muito concreto que sempre alimentou as imaginações mais românticas e as dúvidas mais singelas: como pode uma mulher enjeitar um filho? Ora tal pergunta tem demasiadas respostas para poderem aqui ser enumeradas. No entanto, todos nós conhecemos melhor ou pior relatos mais ou menos agressivos quando se trata de maternidade não desejada.
O caixote de lixo é apenas um exemplo do fim da linha.

Entre a depressão
e a rejeição social

Mas Carolina não estava propriamente no fim da linha: não sendo uma rapariga rica, era no mínimo uma pessoa integrada na sociedade e na aristocracia rural e vianense da época.
Depois do nascimento de Eça passou certamente pela terrível situação de ser o núcleo dum segredo conhecido de muitos..., que talvez não falassem disso mas que sabiam de tudo! Tantas e tão fortes tensões, suportadas até mesmo numa certa solidão, permitem imaginar que a jovem Carolina Pereira d’Eça terá reunido um bom naco de intolerância para com todo este passado tão recente, para nela encontrar também algum suporte psicológico nas horas mais deprimentes. Uma espécie de adrenalina extra, obtida por via dum ódio periodicamente realimentado.
Afinal, podia ser uma situação com fundamentos patológicos!
Eu já ouvira falar do muito agressivo síndroma de Munchausen, em que a doente provoca o sofrimento (e mesmo a morte) do filho como forma de granjear a simpatia generalizada. É claro que tal doença só tem dois pontos comuns com o caso em análise: uma mãe e um filho.
Mas?..., e não existiriam patologias associadas?
A ideia esvoaçou-me na cabeça e orientou o meu braço até ao telefone mais próximo: urgia procurar novo combustível no vasto e boschiano universo da psiquiatria.
A minha fonte foi o médico psiquiatra e professor universitário Manuel Freitas Gomes.
À pergunta sobre complicações congéneres da que me interessava, o especialista fala-me imediatamente da «psicose pós-parto», que deveria – no seu entender – classificar-se antes como um tipo muito profundo de depressão. «Uma coisa gravíssima», sublinhou de forma veemente. Fui ainda informado de que este tipo de diagnóstico é de elaboração recente, com pouco mais de meio século de investigação.  
No entanto, perante as informações circunstanciais que lhe forneci, o psiquiatra concluiu que o caso de Carolina Augusta prefigurava antes uma relativamente vulgar e muito egoísta reacção de medo a uma presumível rejeição social resultante do então muito complicado estatuto de mãe solteira.
Tal «atitude rejeitante» terá sido, portanto, «uma resposta organizada não patológica, com fundamento social, e fruto exclusivo da sua personalidade» – expôs o médico, lembrando que reacções deste teor são bem mais comuns do que aquilo que um leigo pode imaginar.
O facto de Carolina ter posteriormente casado com o pai da criança e de ter com ele tido mais filhos exclui à partida qualquer patologia, e explica simplesmente que o seu medo primário se foi esbatendo com o tempo e as circunstâncias, onde a sua recente orfandade terá tido «um papel crucial na mudança de atitude» – conclui Freitas Gomes.
E reza a verdade que Carolina Augusta só não quis a proximidade de Eça enquanto criança e adolescente.
Porque com o passar do tempo, com os novos filhos, acomodou-se também ela à situação e o seu egoísmo foi-se mesmo mimetizando com num certo orgulho por aquilo em que o filho primogénito se ia progressivamente transformando: um grande e reconhecido artista.

Filho natural, naturalmente!

Eis pois todo o tremendismo da minha trisavó Carolina, que assim se explica não por ser um caso do foro clínico mas antes pelo seu horror à situação que viveu e respectivo impacto social – que à data só podia ser muito negativo.
A sua neta e minha tia-avó Maria descreve-a como «muito viva e autoritária e fazia-nos rir com as suas respostas prontas. Muito janota e muito boa dona de casa; eu não me fartava de admirar a mesa onde a Avó não dispensava dezasseis sobremesas!»... (in Eça de Queiroz Entre os Seus). 
Com toda esta arrumação militante e tantos cuidados na aparência, não espanta em demasia que uma inesperada gravidez de solteira tenha deixado Carolina Augusta completamente fora de si.

Será que isto não é bem mais razoável do que uma data de trapalhadas que, a poderem minimamente ter acontecido, teriam de contar com a simpática colaboração duma considerável quantidade de doidos ou igual número de cretinos?...
Eu acho que sim, e a documentação existente apoia-me. Ao contrário do que acontece com as enviesadas teorias de J.H. Saraiva e A. Bessa-Luís.
Como apontamento marginal, recorro a uma carta de Eça dirigida à sua mulher, remetida de Lisboa (25 de Março de 1889), onde descreve com pormenor a chegada a casa dos pais:
– «Encontrei a minha Mãe triste, mas forte de corpo; a Miló» (irmã do escritor) «com uma sombra de tristeza também, mas mais gorda; e meu Pai realmente bem, graças a Deus. A própria Mamã dizia que “o tempo tudo acalma, mesmo quando se deseja resistir à influência do tempo!».
Este pouco animado relatório e respectivos estados de espírito resultavam do facto de Alberto Eça de Queiroz – irmão mais novo do escritor – ter morrido poucos meses antes.
Nota-se na frase de Carolina, usada pelo seu filho José Maria para reflectir sobre tal ocasião, que ela vem de alguém que sabe perfeitamente do que está a falar, desde há muito e em diferentes contextos: – «(...) O tempo tudo acalma, mesmo quando se deseja resistir (...)».
O que é bem verdade.
Paralelamente, haverá quem possa questionar também como é que uma família da alta nobreza de Portugal – como era a Casa de Resende – aceitou com grande naturalidade a ascendência conturbada deste seu novo membro (pelo casamento, claro está), afinal uma visita habitual desde há muito por via da sua longa relação de amizade mantida com os irmãos Luís e Manuel de Castro Pamplona* (que usavam o nome familiar da mãe em último lugar, à maneira espanhola).
No entanto, a aceitação de Eça pelos Resende é um falso problema e tem um muito banal antecedente. Porque o amigo Luís – 5º conde de Resende e irmão de Emília, futura mulher do escritor – tivera, ele próprio, um filho natural (e para sempre de mãe incógnita, embora se conte que chegou a encontrar a mãe uma única vez).
Ficou conhecido na família como o Luís ‘Grande’, por ser efectivamente de grande estatura – aliás como a maioria dos Resende. E, tal como aconteceu com Eça, a Luís (‘Grande’) de Castro nunca ninguém perguntou o que se tinha passado afinal com a sua mãe.
Isto sucedia por uma simples questão de bom gosto e de real respeito e lealdade para com os envolvidos, que certamente iriam sentir-se extremamente magoados face a semelhante exposição.
Para mim, esta é a única razão que levou o meu tio-avô António Eça de Queiroz a escrever o que escreveu sobre o seu pai – texto de que o plumitivo sr. Valdemar tanta chacota fez no seu miserável ‘relato’ publicado no ‘DN’ em Junho de 2004.
  • Manuel de Castro Pamplona sucedeu ao seu irmão Luís como 6º conde de Resende, casou Com Maria das Dores da Câmara (Carvalhal) e foi pai da minha avó Matilde de Castro - que mais tarde iria casar com o seu primo direito José Maria, filho de Eça e da sua tia Emília de Castro Pamplona

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CAPÍTULO IV - O oráculo de Agustina



É bem verdade que a teoria de José Hermano Saraiva foi a que melhor substância exibiu como matéria-prima para um Eça alternativo. Baseava-se, pelo menos, em algo que tinha hipóteses de ir a discussão.
Porque a minha primeira experiência nesta matéria foi, bem pelo contrário, muito penosa.
Surgiu na forma dum inacreditável texto da escritora Agustina Bessa-Luís (AB-L), publicado no ano do milénio a propósito das comemorações do centenário da morte do romancista.
Num primeiro texto, publicado no semanário Independente a 21 de Julho de 2000, a escritora apresenta, na sua coluna de bíblico nome ‘As sete chaves’, uma prosa crítica a respeito de uma «pequena festa» da efeméride que a terá enchido de irritação. 
Até aí tudo bem, e alguns dos aspectos mais ferozmente atacados por Agustina – como «aquelas mulheres embrulhadas em cortinas e colchas de cama» – são mesmo compreensíveis dada a imagem de pobreza envergonhada que correm o risco de transmitir.
Infelizmente (para a própria escritora, a meu ver), decidiu a 8 de Setembro voltar a falar do assunto, mitigando substancialmente a potência do seu desagrado inicial – vá-se lá saber porquê... –, mas dando à troca um muitíssimo singular contributo para as festividades em causa.
Como expliquei no primeiro texto publicado no Expresso (‘Fábulas circulares...’), Agustina entende que Eça de Queiroz podia perfeitamente ser filho de uma das quatro meninas da família Carneiro Pizarro.
Dentro desta lógica toda abrangente, e alargando mesmo um pouco mais democraticamente a copa desta autêntica ‘árvore ginecológica’(1) a todo o universo feminino que rodeava o então muito jovem José Maria, é caso para dizer que ele poderia perfeitamente ter sido filho duma boa dúzia de mulheres...
Ora a escritora portuense – certamente baseada em misteriosos e telúricos murmúrios – entende simplesmente que Carolina Augusta Pereira d’Eça nunca fez parte de tal universo. Ao que lhe soma a ainda mais estapafúrdia (im)probabilidade de também José Maria Teixeira de Queiroz nada ter tido a ver com o sucedido!...
Eis como AB-L chega às suas absurdas conclusões, em textos do Independente que adiante reproduzo nas partes que abordam o assunto. 
O primeiro, crítico das tais comemorações a que assistira, acaba na fórmula sentenciosa a que autora de Mundo Fechado sempre foi tão apegada: 
–«Não o comemorem com lengalengas e teatradas. Leiam-no, mas não se metam com ele. Deixar uma obra não é deixar o corpo na escada. Não passem por cima dele, se fazem favor».
Pois bem!, isto até se pode perceber.
Sendo assim, e depois de tão assisadas palavras, a última pessoa que se imaginaria ver a passear «por cima» do corpo de Eça – a meter-se com ele – seria, obviamente, Agustina.
Mas a vida – mesmo a de alguns escritores muito publicados – tem por vezes contradições bem profundas. E foi certamente num desses momentos de caótica sublevação interior que AB-L volta a pegar no tema, mês e meio depois – mas desta vez numa toada tão cacofónica que, se fosse música, deixaria Stockhausen e Peixinho literalmente à beira duma neurastenia sem retorno.
Como se verá, é um discurso próximo do inimputável, de técnica pueril e argumentação leviana, onde a escritora afirma imensas certezas sem conseguir identificar uma única. Trata-se de genuína peça agustiniana, quer pelo estilo embrulhado, quer pelo enorme desprendimento que exibe – a pontos da mais pura lógica ser objecto do seu distante menosprezo. 

  1. (Esta definição tem direitos de autor: foi inventada inadvertidamente pela minha prima Mariana, aos 12 anos. O seu pai e meu tio, Manuel Eça de Queiroz, usava-a sempre que tal viesse a propósito) 

As chaves do pavor 

Diz Agustina Bessa-Luís, num texto titulado de ‘Pavor’, na sua coluna ‘As sete chaves’:

–«Não me vou desdizer, mas aquilo que eu disse sobre as comemorações queirosianas referia-se a uma pequena festa que me foi dado observar e que me encheu de irritação. Era a força pimba a entrar na área da cultura espirituosa a que Eça pertence. Dum modo geral as comemorações sejam do que for obedecem a propósitos reservados e são movidas pela impaciência. Não se escolhem os melhores para comparticipar num programa, e compreende-se porquê. Os melhores têm por eles a tirania das próprias opiniões, que são capazes de fazer adeptos no sentimento do público. Os melhores envenenam essa proeza de fazer coisas, porque são em muitos aspectos intratáveis e inimigos da tradição.
Desenho de Pedro Pimentel
Ainda é talvez cedo para levantar o véu da fantasia sobre a vida de Eça de Queirós. Quando eu vivia na Póvoa contavam-se as peripécias do seu nascimento duma maneira muito menos confidencial do que agora. José Régio mostrou-me em Vila do Conde a casa da roda onde o recém-nascido teria sido posto e depois entregue a uma ama de ocasião. Era triste de ouvir uma história à Dickens que não foi ainda escrita, como outras não foram.
Tanto Póvoa do Varzim como Vila do Conde disputam a honra de serem berço de Eça de Queirós. A mãe, figura controversa e mal explicada, foi quem conduziu a história, com mais orgulho do que sentimento brando no coração. Era natural de Viana do Castelo e há notícia de Eça ter nascido lá e depois levado para Vila do Conde, para casa dos Carneiro Pizarro, parentes prováveis da dita menina Carolina Eça. São coisas para desvendar e pôr em ordem. Muita gente mentiu nisto do nascimento de Eça de Queirós. A primeira foi Carolina, que disse que o filho nasceu na Póvoa. Talvez para despistar os curiosos da casa da Costa cuja gente ela respeitava e na sombra de quem andou a criança até deixar o colo da ama e depois provavelmente também. Estes segredos espevitaram o snobismo do escritor, com sangue de reis nas veias? Seria Eça filho natural dos Carneiro Pizarro, o que simplificava muito a sarabanda de contradições e fingimentos com que o próprio romancista pactuou? Eça tinha verdadeiro pavor de que lhe fizessem a biografia, e disse: “Eu não tenho história, sou como a República de Andorra”. Nesse caso tanto a desalmada Carolina Augusta como o magistrado Teixeira de Queirós não passariam de pais putativos. José Carneiro Pizarro de Magalhães regressou do Brasil a Portugal em 1821, vindo habitar a casa da Costa em Vila do Conde. Uma filha morreu louca, outra foi freira, outra, açafata de D. Carlota Joaquina, morreu solteira, assim como a irmã Maria Henriqueta. Qualquer delas podia ter sido mãe de Eça de Queirós, e só assim havia razão para tanto mistério. Eu lavo daí as mãos, mas tão manchadas de tinta andam que nunca mais vão ficar limpas de balbúrdias em risco de serem verdade. O meu contributo para o centenário de Eça de Queirós é este: ele podia ter sido um Carneiro Pizarro. 
Eu acrescento alguma coisa, não corrijo”, como diria o mestre Montaigne».

«Peripécias» e José Régio 

Ora aqui está um bem sinuoso exercício de malabarismo mental! 
A escritora parte das mais hipotéticas condicionais, ergue um enorme e grotesco edifício de causalidades inaceitáveis num discurso lógico..., e tudo com base em quê? Em conversas de café tidas com o poeta e escritor José Régio – provavelmente na naturalíssima posição de aluna do professor
E acha que isso prova tudo!, e que assim já se obtém toda a clareza sobre o caso, que se «simplificava a sarabanda de contradições»... 
Eu, muito sinceramente, considero que trocar a versão que conheço por semelhante confusão seria como renegar a antiga e difícil estrada que ligava o Porto a Guimarães – antes das auto-estradas – para me enfiar de cabeça no medonho labirinto de Minos (se é que tal coisa alguma vez existiu!). 
Mas, à boa maneira romântica, a escritora gosta mais dos labirintos pavorosos...
Diz a dado momento AB-L que «ainda é talvez cedo para levantar o véu da fantasia sobre a vida de Eça de Queirós», dando a entender que um dia o fará. Recua depois sob a protectora asa de Régio até aos dias em que vivia na Póvoa do Varzim, quando se contavam «as peripécias do seu nascimento» (de Eça) «duma maneira menos confidencial do que agora». 
Ficamos assim a saber que nesses tempos já idos havia, tal como hoje, muita balela e ‘conversa de soalheiro’. 
Régio mostrou-lhe a casa da roda onde o recém-nascido «teria sido posto» – ou não!, convém lembrar... «Era triste de ouvir uma história à Dickens que não foi ainda escrita, como muitas outras» – compadece-se finalmente AB-L.
E tão compadecida estava nesse momento de zénite emocional, que não hesitou em meter-lhe pelo meio umas quantas malaguetas da sua lavra. Para dar mais picante à coisa. 
Peremptória, Agustina afirma: 
«Muita gente mentiu nisto do nascimento de Eça de Queirós. A primeira foi a Carolina,» (Pereira d’Eça) «que disse que o filho nasceu na Póvoa do Varzim, talvez para despistar os curiosos da casa da Costa» (propriedade dos Carneiro Pizarro), «cuja gente ela respeitava e na sombra de quem andou a criança até deixar o colo da ama e depois provavelmente também»...
Que diabo! Um hipotético mas ainda presumível «respeito», um mero e meio perdido «talvez» e um vaguíssimo «provavelmente» não auguram nada de bom a uma acusação onde se começa por classificar taxativamente como manipuladora e mentirosa jubilada a mulher que assumiu e confirmou, de jure, ser a mãe do escritor.
Como diria o próprio Eça ao amigo e historiador Oliveira Martins, a propósito de minuciosa reconstituição histórica da Batalha de Aljubarrota que este fizera: «Mas diga-me aqui uma coisa: você esteve lá?!...»
Depois, o total desconchavo explode em farândolas no momento em que a autora de Sibila se propõe encarnar uma das sacerdotisas de Delfos – que, como toda a gente sabe, era um oráculo que escondia a sua paupérrima objectividade numa infinidade de pormenores circunvizinhos e inúteis.
Responde, a dado momento, uma agora inquisitória AB-L: «Estes segredos espevitaram o snobismo do escritor, com sangue de reis nas veias? Seria Eça filho natural dos Carneiro Pizarro, o que simplificava muito a sarabanda de contradições e fingimentos com que o próprio romancista pactuou?» (coisa espantosa!, esta última...). 
Em seguida pega na célebre frase em que Eça diz não ter história e ser «como a República de Andorra» para concluir que «nesse caso» (mas qual caso?!?) «tanto a desalmada menina Eça» como Teixeira de Queiroz seriam apenas «pais putativos»... 
Depois, subitamente, encerra a questão com um breve historial dos Carneiro Pizarro, que tiveram quatro filhas: uma maluca, outra freira, outra criada da rainha e solteirona – «assim como a irmã Maria Henriqueta. Qualquer delas podia ser mãe de Eça de Queirós, e só assim havia razão para tanto mistério». 

Uma carta em branco 

Como já antes afirmei, não acredito na existência de uma só pessoa no mundo inteiro que, no seu perfeito juízo, aceitasse desempenhar tamanha farsa sem fortíssimas razões. Ora AB-L descobre logo duas numa penada. E consegue mesmo casá-las – embora não nos consiga explicar quais as fortíssimas razões que levaram duas pessoas distintas a praticar tão improvável acto em simultâneo. 
A seguir (claro!), põe-nas a perfilhar uma suposta criança enjeitada (não se sabe ao certo por quem...) e, ao mesmo tempo, obriga-as a inventar toda uma complicada história de amantes desavindos em que até as famílias – presentes e futuras – deverão pactuar.
É, sem dúvida, uma história absolutamente única – mas com factos apenas imputáveis a um razoável bando de doidos reunido especificamente para o efeito, a pedido exclusivo da escritora Agustina Bessa-Luís, que, além de acrescentar «alguma coisa» e não corrigir, como diria mestre Montaigne!, parece também gostar de se vestir de pitonisa, lá pela Rua do Gólgota... 
Pessoalmente estou convencido de que no meio de toda esta salgalhada monstra (ou será apenas uma «sarabanda de contradições»?...), onde a escritora presume «levantar o véu» a apolíneos mistérios, medra um desejo bem real e antigo: o de um dia pôr as mãos na célebre carta (que nunca ninguém viu!), que poderia (talvez...) estar na posse de herdeiros da família Carneiro Pizarro... 
Isso era cá uma festa!
Mas, com tantas incógnitas subjacentes, é aceitável duvidar que tal coisa possa algum dia acontecer.
Tenho, no entanto, uma convicção intuitiva: se semelhante documento existe de facto, mais não é do que o texto original da carta apensada por Teixeira de Queiroz ao assento de baptismo do filho. Apenas porque não é crível que a missiva entregue em Vila do Conde ao padre Domingos de Sillos fosse fisicamente a mesma que dias antes – por prioridade natural – informara Carolina Augusta das decisões do homem com quem acabaria por casar quatro anos depois.
Há ainda uma curiosa interrogação da escritora cuja origem julgo vislumbrar. Trata-se da frase «com sangue de reis nas veias». A origem do pretenso «snobismo» para que Eça, espicaçado por Carolina, despertou um dia – segundo depreende Agustina. 
Aqui convém lembrar que snobismo é, antes de tudo, uma pose caracterizada pelo empolar do próprio bem-estar material e de falsos feitos, ou de pretensas ligações familiares nobres, como forma de esconder uma evidente e (assim) bisonha vulgaridade. Utilizando o próprio bestiário queirosiano, Dâmaso Salcede e a sua muito chic coroa de conde a encimar o cartão-de-visita representam, da cabeça aos pés, o snob completo.
Thackeray não explicaria melhor. 
Assim, considerar os tiques de elegância que Eça exibia como o resultado dum seu qualquer «snobismo» parece-me um julgamento no mínimo destemperado. 
Mas há também o enigmático «sangue de reis». E é tão mais enigmático porque, certamente, AB-L não lhe confere substância pelo facto de todos os genealogistas portugueses (pelo menos os que conheço) considerarem que o nome Eça foi usado pela primeira vez em Portugal por um neto de D. Pedro I e Inês de Castro (D. Fernando d’Eça).
Não! – é evidente que a ideia da escritora deve ser bem outra, muito mais secreta e bem mergulhada nos mistérios tortuosos do real «tronco» e do romance... 
Seja como for, e considerando: que Agustina Bessa-Luís nasceu numa família de algumas posses; que não lhe é conhecida nenhuma ascendência aristocrática; mas que também não se reclama duma inequívoca extracção popular; é pois aceitável considerá-la inserida num meio sócio-cultural eminentemente burguês. 
E este estatuto assume-se por vezes no Porto como bastante anti-aristocrático.
Ou seja: é de aceitar, porventura, que o tal «sangue de reis» misturado no de um congénere de letras (e logo de tamanha dimensão) possa ser coisa para deixar agoniada uma burguesa implícita do calibre de AB-L – como poderá, bem entendido, ser o caso.
E isto também explicaria muito do que resolveu escrever no Independente.
No fim a escritora «lava daí as mãos», encerrando com uma pomposa declaração paternalista de Montaigne esta sua espécie de conglomerado de paralogias erráticas, só possível na cabeça duma pessoa dotada de alguma imaginação mas (talvez por viver num condomínio fechado da existência) muito inexperiente no palco da vida real. 
O que também acontece. 

‘Doidos e amantes’,
à falta de melhor... 

Já em meados de 2005, a publicação do romance (?) Doidos e amantes (Guimarães Editores) acabaria por provar que AB-L não deitou mesmo as mãos à tal carta misteriosa que deveria explicar em definitivo o nascimento de Eça.
Esta insuficiência – que certamente emperrou a criação duma obra de maior fôlego (algo «à Dickens», por exemplo...) – exigiria à escritora um plano de contingência que lhe permitisse, pelo menos, contar mais um pouco das historietas que ouviu a Régio.
Para tanto, aglutinou-as numa espécie de pequeno quisto caloso, improvável, que sobressai sem elegância ou préstimo na superfície plana da sua átona narrativa sobre uns certos amores incompreendidos e maltratados.
Como fonte ideal para as suas ‘secretas verdades’, Agustina saca dum tal Freirão – um alegado rei da má-língua vilacondense dos meados do séc. XX (talvez uma espécie de alter-ego de Régio) – para tornar a desenrolar as «peripécias» do seu Eça facultativo. 
Freirão regurgita um veneno vulgar, engrossado ao sol dos portais de quintais onde passa a vida a caçar pardais (percebe-se do relato de Agustina...), falando de tudo e de todos com a prontidão exibicionista dum qualquer ‘papagaio’ social – que na melhor tradição meridional deveria ser barbeiro ou cabeleireira.
Com isto permite-se a narradora ao alinhavar duma amálgama de impropérios, quer a respeito de Eça, quer dos seus ascendentes: o «avô patético»(1), a roda, as saias das burguesas onde Eça se refugiava (quanta psicologia!), o escritor em Paris, «de monóculo, como um prior no seu priorado» (os priores desse tempo usavam todos monóculo, fica-se portanto a saber...) – e até, imagine-se!, a duvidosa qualidade da sua obra –, são apenas alguns dos mimos que Freirão debita, AB-L ciosamente aponta no seu filofax mental, e eu por fim li, consideravelmente estupefacto.
A casa importante já não é a da Costa, dos Carneiro Pizarro. É da Cerca.
Mas o ‘diz-que-disse’ é sensivelmente o mesmo que espetou no Independente. Só que agora com mais uma pouca de paprika. Porque Agustina também desenterra um certo Dantas – muito calisto! – para dizer que Eça «era um diletante» e que sabia muito bem «quem lhe pagou a carreira».
É curioso ver como Agustina redimensiona e redesenha o escritor/diplomata através do tal Dantas (será o mesmo que eu imagino?...). No seu lucubrar, o nosso Dantas diz a AB-L (e a todos os que por fatalidade a leram depois) que o indivíduo José Maria Eça de Queiroz – o homem, o escritor, o diplomata – era apenas um diletante e que só entrara na carreira com a ajuda de gorda cunha.
Em relação ao diletantismo propriamente dito, não deixa de ser interessante verificar como um escritor tão prolífico como Eça constrói a sua obra: furiosamente, trabalhando sempre que pode e até altas horas, revendo provas até à exaustão (dele e dos editores) e não publicando múltiplos trabalhos por entender que não estavam no ponto certo – afinal, todo um vasto conjunto de textos publicados postumamente pelo seu filho (e meu avô) José Maria.
Convenhamos que, como mero diletante – que será sempre alguém que está na arte com ligeireza, num exercício sem profundidade ou real empenho –, Eça não se saiu nada mal. Mesmo nada! 
Quanto às queixinhas ruminadas pelo velho Dantas (sempre serviu para tudo, pobre coitado!...) sobre as putativas cunhas na carreira diplomática do romancista, só consigo lembrar o que sempre valeu por verdade dentro da família: que Eça concorreu ao cargo, obteve a melhor qualificação possível, e o governo de então ter-se-á sentido bastante aliviado por poder mandá-lo para bem longe de Portugal.
E para longe ele foi, porque o seu primeiro cargo consular seria na longínqua Cuba colonial – e não numa qualquer capital europeia bem mais habilitada a aconchegar convenientemente um diplomado em cunhas. 
Foi por ali, esquecido no meio do Caribe, no «infecto paliteiro de palmeiras» (a sua classificação para a antiga colónia espanhola), que Eça de Queiroz iniciou a carreira de cônsul de forma absolutamente exemplar.
Ou seja: se foi cunha, o escritor justificou-a muito bem – como mais adiante demonstrarei.
A concluir o dossier AB-L, resta-me uma observação sobre a relação acre que sinto nas suas ideias e juízos a respeito de Eça: parece esconder mal uma estranha e dúplice atmosfera de amor/ódio, qualquer coisa de muito – mas mesmo muito! – freudiana. Ou que o valha.
Porque considerando de boa fé que a citada senhora não é pessoa intrínseca e naturalmente malévola, torna-se então quase inevitável pensar que ela se expôs, nos seus textos sobre o escritor, como alguém tomado por um totalmente descontrolado sentimento de inveja. Visível na forma tentada e constante de ‘destruição do mito’ a que se agarra ferozmente quando decide falar dele. Talvez por desconfiar que daqui a cem anos não serão muitos os que saberão o que ela escreveu – enquanto Eça, muito provavelmente, continuará a ser lido, comentado, criticado, analisado e discutido.
Como costuma acontecer aos vultos de dimensão mundial.

E agora, seguindo o elevado exemplo da muito publicada e bastante premiada Agustina – que é também elemento frequente de júris literários e demais festividades (mas só das melhores!) –, também eu lavo daqui as minhas mãos... 

  1. É evidente que a escritora portuense nada sabe sobre o avô de Eça, o juiz-desembargador Joaquim José de Queiroz. Como tal remeto-a para o capítulo X, onde abordo a vida deste meu «patético» tetravô maçon... 

Nota do autor à edição digital:

[Já depois de publicado este meu Eça de Queiroz e os seus clones, tomei conhecimento das razões que estiveram por trás desta especulação selvática por parte de Agustina. De acordo com tal informação, a escritora portuense enveredou pela sua teoria quando soube que um médico brasileiro afirmava ir provar que Eça tinha morrido com paramiloidose – a tristemente célebre Doença dos Pezinhos. Daí a achar que o Eça era afinal filho dum pescador poveiro (a doença é endémica da comunidade piscatória e seus descendentes) foi uma questão de dar corda ao relógio. No entanto, bastava-lhe ter verificado previamente que Eça nunca apresentou nenhum dos sintomas desta doença, a qual antes de matar deforma o corpo nas extremidades. Na verdade, os estudos mais recentes da sintomatologia conhecida (porque relatada pelo escritor aos seus médicos) parecem apontar para uma igualmente grave e mortífera maleita: a doença de Crohn, uma inflamação estomacal crónica que provoca a magreza extrema e dores agudas do estômago – entre outros sintomas evidenciados por Eça no fim da sua vida.]

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CAPÍTULO III – J. H. Saraiva convida picuinhas (2ª parte)



NOS SAPATOS DO PROFESSOR


Sobre o ponto que agora me interessava, JHS surpreendeu-me com um «fico muito reconhecido pela sua anuência»... Sugere-me apenas que eu burile «algumas expressões» sobre o autor da coluna Avenida da Liberdade – o Sr. Valdemar. «Somos todos companheiros nesta pequenina República de letras e alguma cortesia académica só enobrece a qualidade dos torneios» – aconselha, sempre na sua forma elevada e bem-educada.
Ora, ora!..., cortesia académica? De quem para quem, afinal? Eu nem sou académico! – limito-me a adorar as vistas...
E quanto ao hipotético receptor de tal cortesia (que não sei se é académico nem isso me interessa um bocadinho que seja), ele só me fazia ressoar na cabeça o velho provérbio português onde se canta que «quem não sente não é filho de boa gente». 
Mas, como se tratava então de uma iniciativa de JHS, admiti alisar um pouco a letra. 
Coisa que, quis o Destino, acabaria por não acontecer.
Sobre a questão de fundo, JHS reitera o seu dogma jurídico e supõe – mais uma vez erradamente – «que nenhum jurista diria o contrário».
Considera no entanto que «nestes pleitos a última palavra pertence ao público. E daí vem o meu interesse na publicação de todo o conjunto da nossa correspondência, tanto pública como privada». 
Ora muito bem! – pensei eu.

Seja de que maneira for, o diálogo que mantive com este senhor foi sempre, além de produtivo e muito enriquecedor, de excelente nível e respeito mútuo. Ele elogiou-me publicamente sobre tal qualidade da nossa diatribe, e eu agora certifico o mesmo no que lhe diz respeito.
Acontece que acontecem por vezes coisas curiosas às pessoas, e em especial àquelas que estão totalmente embrenhadas – como que envenenadas – num determinado assunto.
Picasso dizia que a inspiração é algo de tão fugaz que o melhor que há a fazer é estar sempre a trabalhar para o caso dela decidir aparecer. 
E esta é uma bela metáfora para o que se seguiu, por uma simples razão: eu já assumira então que o livro iria acabar por sair, e mantinha, portanto, uma contínua e cada vez mais profunda actualização dos meus conhecimentos sobre a vida de Eça. 
Já lera uma data de boatos, ensaios de várias tendências, resmas de notas e opúsculos biográficos, as várias reticências que se punham aos factos dados como oficiais... 
Sabia da misteriosa mas nunca encontrada carta, que estaria nas mãos de gente próxima dos Carneiro Pizarro, onde era suposto estar a chave de todo o segredo do nascimento do escritor... Mas nunca dei grande crédito a tal documento.
Fazia isto porque entendia (e ainda bem) que os meus textos tinham de percorrer o tabuleiro inteiro das dúvidas, preenchendo sempre os espaços vazios – como acontece naquele velho mas muito dinâmico puzzle informático que toda a gente conhece pelo nome de tetris
E foi no meio deste ambiente quase matemático que, na noite de 20 de Outubro de 2004, tomei conhecimento de algo extremamente curioso. Rapidamente, contentíssimo, escrevi ao meu interlocutor o seguinte:

– «Meu caro senhor Professor!
Imagine lá bem que comentava eu há dias com a minha Mãe esta nossa interessante troca de pontos de vista, e ela – de supetão – lembra-me que o meu Pai lhe contara um dia (há muito tempo, porque ele morreu faz 35 anos) que o namoro do seu bisavô Teixeira de Queiroz com Carolina Augusta nunca fora nada do gosto das respectivas famílias.
Ou pelo menos de uma delas.
Demonstrei-lhe de imediato o meu espanto e a total ignorância sobre o assunto – ela efectivamente nunca mo contara, mas achava que sim. 
Então perguntei-lhe quais as razões para tal oposição ao romance, que, a meu ver – tendo em conta a grande abertura de ideias dos Queiroz (a todos os níveis, como é sabido) –, só poderia vir do lado Pereira d’Eça
Sim, que era isso mesmo, e as razões para tal oposição eram de natureza política – confirmou a minha maravilhosa progenitora, cuja memória vampirizo com frequência crescente.
Pois claro! Os Queiroz eram próximos dos Progressistas!
O juiz desembargador Joaquim José de Queiroz – avô de Eça e Irmão Rosa Cruz (1) da Loja Maçónica dos Santos Mártires de Aveiro – tinha chefiado em 16 de Maio de 1828 o primeiro levantamento liberal que levaria ao real fim do absolutismo em Portugal.
Já os Pereira d’Eça – família da velha aristocracia rural com fortes laços na instituição castrense – engajavam-se provavelmente pelos Regeneradores, depois de anos a fio numa fé absolutista que roçara o apostólico. Obviamente, nunca veriam com bons olhos algo que apelidariam normalmente de promiscuidade.
Ou seja: eram, pelo menos formalmente, famílias inimigas!
Com estas migalhas do passado, recolhidas com óculo fosco nessa sempre fértil casa cheia de fantasmas – que é afinal o ambiente que rodeou o nascimento do nosso querido e grande Eça –, resolvi imitar o senhor Professor: pus-me a imaginar.
Um namoro às escondidas, breves encontros em locais não frequentados pela sociedade voyeuse de então, o Romantismo a polinizar em força toda a atmosfera deste nosso atrasado e convulsivo país...
Mas..., mas é o ambiente ideal para uma proximidade cada vez mais pujante de cumplicidades!
Vejamos: um jantar em lugar recatado, uma mãe viúva e doente, enganada facilmente com uma hipotética – mas muito habitual – estadia em casa das primas de Monção... 
A antecâmara da alcova...
Momentos idílicos, sem dúvida.
Depois é o desastre! 
Carolina entra inicialmente em pânico. Que, com o passar dos dias, se transformou em fúria – num quase ódio. Pelo namorado, claro, e por si própria com toda a certeza.
Mas também pelo ser que, todas as semanas, insistia em mostrar que crescia no seu ventre. 
O que diria a mãe quando soubesse?! E os primos de Monção! E toda a gente...
Quanta vergonha!
Sobre o que se seguiu nove meses depois, ambos estamos de acordo pelo menos num aspecto: Teixeira de Queiroz registou o mais depressa possível o jovem José Maria, não mencionando o nome da mãe para «evitar investigações futuras» – como muito bem diz o Senhor. 
Futuras, e já agora – se me faz o favor – também imediatas!, acrescento eu.
Porque qualquer investigação futura perderia toda a importância a partir do momento em que a jovem mãe solteira se decidisse a arcar com a responsabilidade dos seus actos. O que aconteceu, como se sabe, depois da mãe de Carolina a fazer jurar, no leito da morte, que tal desfecho iria mesmo ter lugar. 
Foi a contragosto mas aconteceu!
E quem vir a fotografia do dia de casamento de José Maria e Carolina Augusta não necessita de grande imaginação para perceber que, ao contrário duma situação normal, não se vivia ali um grande momento de paixão. 
Carolina tem cara de «frete», bem fechada – quase zangada. O vestido é de fantasia – nada formal, portanto –, e José Maria aparenta um ar um pouco perdido.
Encaixando todos estes brotos da minha imaginação com os documentos reais que atestam factos, bem como com os territórios que o futuro escritor ocupou na sua infância e juventude – as casas dos avós em Verdemilho e das tias Pereira d’Eça, no Porto, e o internato da Lapa (este bem perto da casa portuense dos seus pais e irmãos) –, chegar-se-á à única conclusão aceitável sobre tão atribulado desenrolar de factos: Eça de Queiroz, como criança e adolescente, teve um azar dos diabos!
É claro que podia ter ido parar à «roda», ou ter-se simplesmente ficado pelo tugúrio duma qualquer «tecedeira de anjos» – não é? Mas aquele rapaz teve azar, não haja dúvidas.
Depois, todos se foram acomodando à crua realidade – que incluía a distância exigida ao filho (e imposta ao marido) pela muito inteligente, irónica, dura, seca, fria e sempre elegante Carolina Augusta Pereira d’Eça de Queiroz. 
Que não gostava de crianças nem de «belhas» – mas que adorava festas.
Isto, meu caro senhor Professor, também é categórico!

Ou seja: somos dois categóricos.
E o senhor sem uma única prova, sequer circunstancial... Sem um nome, um testemunho e, acima de tudo, sem conseguir explicar que motivação teriam os Pereira d’Eça para inventar, colaborar e propagar uma «lenda» em que a principal protagonista pertencia à sua própria estirpe.
Seria gente obnóxia?, dada a extravagâncias?!...
Ambos sabemos perfeitamente que não. 
Carolina Augusta, a mãe de Eça
E eu começo a sentir alguma ambiguidade de sentimentos em relação ao que tenho estado a fazer.
Passo a explicar.
A questão do «julgamento público», sinceramente, não me aquece nem me arrefece. Não tenho de fazer prova – como o senhor bem sabe.
Por outro lado, já sinto umas certas cócegas nas meninges ao imaginá-lo pregado em breve na frágil cruz dos argumentos formais – sem mão amiga que lhe chegue a taça de fel à boca.
Não acredito que queira isso para si!
E assim dei comigo a desconfiar que o senhor Professor foi dando farta corda ao mesmo tempo que picava o macho – ou a mula, ou o burro, como se queira. Ora esse bicho sou eu!
Finalmente, começo também a achar que esta nossa muito agradável actividade já mostra um bom rascunho dos factos e dúvidas que envolvem o nascimento de Eça.
Boa ideia a sua. E, modéstia à parte, acho que também não me saí mal.
Assim sendo, vamos a aspectos mais técnicos.
Isto tem de ser uma empreitada a dois: com os mesmos direitos e deveres. E se quanto a direitos não há dúvidas, já quanto aos deveres cada um sabe dos seus.
Os meus são simples: 
1 – Escrever um texto, necessariamente breve, explicando porque me atrevi a discutir um assunto que conhecia bastante mal. Haverá ainda nesse texto um brevíssimo tratado sobre a evolução da minha relação abstracta (que agora já o é menos) com o senhor Professor. 
2 – Conhecer a sua ideia para título e metodologia de publicação, bem como ver a primeira prova impressa (tenho a vaidade de achar que a minha escrita é orgânica e que, como tal, não sobrevive a uma mera vírgula mal disposta). 
3 – Oferecer-me imediatamente para uma mais directa troca de impressões.
Já descrente numa possível retirada estratégica da sua parte, e prevendo uma caterva de trabalhos na sua próxima missiva

Com genuíno apreço
(AEQ)».
  1. A denominação maçónica (grau) de Joaquim José de Queiroz era realmente
    «Irmão Rosa Cruz» – e não «Rosa Branca», como por engano afirmo no original da
    carta a JHS




TROMBETAS DE RETIRADA


No entanto aquilo que eu achava já impossível acabaria por acontecer: uma retirada estratégica foi exactamente aquilo que me chegou pelo correio – cerca de uma semana depois de eu ter enviado o meu último entendimento sobre as condições em que Eça podia ter sido gerado. Que, na verdade, representa apenas uma boa possibilidade dentro do quadro conhecido e documentado.
Volto a afirmar que eu – tal como qualquer outra pessoa que se ponha a falar sobre este assunto – apenas posso fazer suposições. Ninguém lá esteve a não ser uma mãe, uma parteira e uma ajudante. 
As teorias mais ou menos romanescas que têm vindo a lume, mascaradas de teses e ensaios, baseiam-se num mero «diz-que-diz» próprio de mulheres de soalheiro – assunto de que mais adiante farei prova através dum ensaio jornalístico verdadeiramente lamentável, que já antes
abordei por alto.
Quanto a JHS, a sua carta começa com um ruborizante elogio à minha pessoa – o que sabe sempre bem! –, mas depressa volta a embalar surdamente na necessidade jurídica da omissão do nome maternal «para que não haja necessidade de futuras investigações»... 
Ora claro que isso até pode ser verdade! Só não inviabiliza de modo algum o facto de Carolina Augusta ser a verdadeira mãe de Eça.
Porque Teixeira de Queiroz procedeu de forma a que todas as situações futuras fossem acauteladas: se ela assumisse os factos, ambos casariam e dariam à criança «o meu ou o seu nome, como deve de ser» – diz o documento apenso ao assento de baptismo do seu filho; se tal não acontecesse, a jovem Carolina não seria exposta como mãe solteira (porque não haveria qualquer investigação futura!) e o jovem José Maria permaneceria Queiroz para sempre e filho natural de mãe incógnita – como até então fora.
Mas há aqui também um prisma de observação especialmente interessante que rebate em absoluto toda a tese de JHS, no que ela diz do hipotético interesse de Teixeira de Queiroz em defender o filho do ferrete infamante de adulterino. Não é apenas a demonstração de que se tivesse havido qualquer preocupação a esse respeito por parte do juiz, ela não teria resultado – já que ao Professor Saraiva não restam quaisquer dúvidas jurídicas sobre o que terá então acontecido. Também o facto de o juiz pretender pôr posteriormente ao filho «o meu ou o seu nome» deita por terra toda e qualquer estratégia nesse sentido – já que, ao dar-se futuramente à criança o nome materno, estar-se-ia a afirmar que, embora os pais fossem agora casados, ela seria para todo o sempre a consequência física duma relação extra-conjugal.
O que até era verdade: Eça foi de facto o resultado duma relação fora do casamento, mas não adulterina – porque só há adultério quando pelo menos um dos intervenientes é casado!
Resumindo: Eça de Queiroz nasceu simplesmente de uma relação pré-conjugal dos pais.
A versão do filho adulterino leva sempre à hipótese impossível dum juiz engatatão, mas também ignorante, néscio e bastante incapaz (o que se sabe não ser verdade), que casara depois em circunstâncias deveras esquisitas com uma rapariga um pouco lerda mas também muito generosa (atributos igualmente irreconhecíveis em Carolina Augusta).
Em que fantástico e saraivante mundo poderia viver semelhante parelha de bacocos?!...
Noutro que não este – como é óbvio.
Mas para o caso já pouco disto interessava dizer a JHS.
Porque, no fim da sua curta missiva de 28 de Outubro, o professor diz-me que «com o decorrer destes meses o tema perdeu o seu impacto na opinião», pelo que desiste da publicação do livro que tanto o entusiasmava no mês anterior...
É claro – para mim! – que um assunto envolvendo Eça em 1845 tem tanto interesse em 2004 como um ano depois ou muitos mais.
Mas, «é assunto que lego aos vindouros» – conclui JHS.
E aqui temos um desses vindouros! – pensei eu imediatamente, abrindo o Word para escrever a carta que daria luz verde ao que agora exponho.

Dizia no curto texto o seguinte:
– «Exmº Senhor
Devo começar por dizer que, depois da sua penúltima carta, já não esperava de todo que o Senhor se desinteressasse do repto que afinal me lançou – pese a breve ironia com que finalizei a minha anterior missiva. 
Espero, acima de tudo, que nada do que ali disse o possa ter ofendido. Porque nunca foi essa a minha intenção – se não pela minha educação, que realmente prezo, ao menos pelo facto do Senhor também nunca o ter feito comigo.
Muito pelo contrário.
Mas o senhor Professor decidiu e está decidido.
Eu também decidi. 
Aliás já o fizera aquando da resposta à sua primeira carta, onde me pede autorização para publicar as nossas contestações mútuas editadas no Expresso.
Mas como os trabalhos foram prosseguindo, deixei essa decisão em suspenso.
Agora, perante esta nova situação, reanimei a ideia de então e pretendo publicar o que já escrevi sobre o assunto, balizando os momentos vários que fui vivendo nesta minha tentativa de viajar até essa época já um pouco remota.
Como é óbvio, a sua teoria adquire neste contexto especial importância: correu na TV, no Expresso, no ‘DN’ e é, de longe, a que melhor fundamento apresentou até agora contra tudo aquilo que sempre foi assumido como certo pelos principais biógrafos do escritor.
Independentemente do grau de congruência que eu lhe possa atribuir, isso é uma verdade insofismável.
A outra verdade é que foi essa mesma teoria o principal combustível (chamemos-lhe) de que me servi para, na minha mente, tentar justificar a minha visão sobre momentos marcados por tão escassas e difusas referências.
Embora seja relativamente simples sintetizar a sua argumentação, já tornada pública, é óbvio que faria o maior gosto em utilizar integralmente os seus textos publicados no Expresso. Seria um capítulo ocupado apenas pelos nossos quatro textos, o que, obviamente, formaria a baliza mais visível do fio do meu raciocínio. 
E também do seu, por consequência.

Desejando-lhe sempre o melhor e esperando a sua anuência
(AEQ)».

A concordância de José Hermano Saraiva para com as minhas pretensões chegaria em meados de Novembro, sintetizada numa frase que ilustra bem a lealdade do professor para comigo: «Proceder de outra forma» – não permitir a publicação dos citados textos – «seria ser como o cão do padeiro, que não come nem deixa comer».
E foi assim que de repente me encontrei metido numa caterva de trabalhos – tal como previra um mês antes.
Mas, diga-se de passagem, com o prazer que julgo vir demonstrando nesta minha soma de linhas.