segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CAPÍTULO VII – A alternativa mais radical

A abordagem de um novo rumor mal disfarçado – que me parecia especialmente temerária por decorrer num território só efabulatório e pouco cartografado (a bem dizer nada cartografado, pois trata-se de considerando post-mortem) –, acabou por se simplificar repentinamente quando me apercebi de que todos os boatos sobre uma suposta homossexualidade do escritor se resumiam, no que lhes era nuclear, à extrapolação velada que João Gaspar Simões produziu no capítulo VII (‘Plenitude’) da sua monumental biografia crítica (ou ficção psicológica datada) sobre Eça.

Tudo nascia ali e ali morria, exibindo uma grande incapacidade de se sustentar como argumento.
A revelação deste facto ficou a dever-se em boa parte ao acaso, que sempre me tem protegido neste animado e por vezes escorregadio périplo.
Mas torna-se aqui necessário fazer uns parênteses, em tudo semelhantes aos que fiz a respeito das divergências sobre a filiação de Eça: se tal hipótese fosse minimamente aceitável – porque apoiada em alegados comportamentos ou, pelo menos, em vagos testemunhos –, só me restaria então encarar tal possibilidade, reflectindo talvez ainda mais maduramente sobre coisas tão diferentes como o são os estranhos caminhos que a vida toma e o indiscutível apreço e amizade verdadeira que nutro por alguns homossexuais assumidos.
Dado que actualmente poucas ou nenhumas dúvidas se me colocam sobre tal assunto, sobra a madura reflexão anteriormente proposta na segunda alínea agendada.
De qualquer forma, também essa reflexão já se deu – e há muito.
Quero com isto dizer que não me move qualquer sentimento de homofobia, mas tão-somente uma grande raiva para com aqueles que pretendem forçar tal nota apenas com o intuito de mostrar a sua própria e soberba sagacidade – independentemente da bondade dos métodos ou da firmeza dos juízos utilizados para chegarem a semelhante conclusão.
Trata-se de gente a quem não interessa especialmente a obra do escritor, mas antes este enquanto objecto de esbulho fácil. Possivelmente crêem estes ‘detectives do passado’ que, procedendo a tão barulhentas exumações, lhes sobrará sempre no meio do cotão das bolsas alguma da poalha das estrelas que se supõe ter impregnado o ambiente em que os seus ‘investigados’ um dia se movimentaram.
O que é um péssimo motivo.
Curiosamente, cheguei à evidência dos factos por via do paupérrimo comentário à propos que Maria Filomena Mónica (MFM) produziu na sua análise aos escritos de Eça sobre o Egipto (in Eça de Queirós, edição Quetzal).
Aconteceu que o meu amigo e confrade Joaquim António Gonçalves Guimarães disse-me um dia – durante uma reunião da Confraria Queirosiana, como sempre realizada na Casa de Cultura de Gaia/Solar Condes de Resende, de que é curador – que o tal comentário de MFM seria completamente despiciendo quando comparado ao que o professor e escritor José Rentes de Carvalho (JRC) sabia sobre o tema.
Conhecendo já muito bem o pouco (ou melhor: o nada) que Filomena Mónica lograra garimpar sobre o assunto – e mesmo assim entendeu ser suficientemente válido para integrar o seu livro sobre o escritor –, resolvi contactar o citado professor, pedindo-lhe informação concreta.
A resposta rápida veio pelo correio, remetida da Holanda (onde JRC vive e trabalha), e na forma de dossier completo copiado directamente da sua matriz informática.
Afinal tratava-se simplesmente dum comentário que o próprio Rentes de Carvalho produzira num texto em que apresentava Eça, sob a forma de introdução à recente edição da obra do romancista português na Holanda.
Em dado ponto da sua muito completa apresentação – onde Gaspar Simões é sobejamente citado na condição de «maior biógrafo de Eça» –, Rentes de Carvalho positivamente exulta ao declarar «a homossexualidade de Eça!» (com ponto de exclamação e tudo).
Releio para trás, avanço bem para a frente, e... só há referências ao livro de JGS. 

Do romance flop
à biografia ficcional

E que referências! Veja-se na última página da terceira parte (Os Maias, capítulo VII):
«De facto, Eça de Queirós, que (...) salvara das ruínas da sua vida emocional alguém condenado desde a infância a uma perversão dos sentidos só saciável na vida sensual, e numa vida sensual condenada pela sociedade, pudera tomar à conta de romantismo aquela profunda verdade proferida pelo seu amigo Ega». Ou seja: o que dá «sabor e relevo à vida» é a paixão. E é numa difusa e desequilibrada simbiose entre Ega e Carlos da Maia, criada a partir de um Eça retintamente seu, que JGS fundamenta a sua sentença minimalista sobre o todo do escritor:
«Eis como Os Maias, muito mais que um romance de crítica social, são como que um inventário de toda uma vida, de toda uma acção».
Trata-se, diz o ensaísta, de «um juízo sobre a sua própria existência de homem e de escritor. Como homem, julgou-se nela um romântico, porque a única coisa que nele era paixão – o amor sensual anómalo – a razão não lho consentia; como crítico de costumes e agente civilizador, condenou-se a si mesmo, em vista da degenerescência da civilização que ele apontara como salvadora aos portugueses...».
Comecemos pelo fim, que é um ponto tão bom como outro qualquer para começar. 
Então Eça apontou a «degenerescência da civilização» como a salvação dos portugueses? N’ Os Maias, n’ O Crime, em Basílio, a degenerescência civilizacional salva alguma coisa ou alguém? Estranha conclusão esta.
Porque me parece bem mais razoável ter Eça reparado no atraso continuado e persistente do país, e ter daí concluído uma inevitável e concomitante resultante: se o desenvolvimento e a civilização demoravam a chegar a Portugal, então também as muitas chagas que lhes estão associadas (que ele já muito bem conhecia) só atingiriam o país mais tarde e com resultados práticos mais suavizados.
O que – relativizando os acontecimentos aos tempos de globalização que agora correm – continuou a suceder desta forma até há bem pouco tempo.
Mas mais curiosa é a certeza simonesca de que Eça estava condenado à nascença a «uma perversão dos sentidos só saciável na vida sensual» – e, inevitavelmente, numa vida sensual «condenável pela sociedade», numa «sensualidade anómala» que a razão nunca lhe permitiria pôr em prática!...
Com isto fica-se a saber de uma vez por todas – e afinal à boa maneira de muito amante da psicologia para principiantes – que qualquer ser humano com atribulações de índole maternal (sejam de que natureza forem) está irremediavelmente condenado a uma sensualidade anómala (o mesmo que sexualidade socialmente condenável - conceito que naqueles tempos inscrevia exclusivamente a homossexualidade).
Ao pobre Édipo não bastará portanto mutilar-se, furar os olhos: é obrigado também a ser homossexual – sem possibilidade de excepção ou escolha! 
E é isto o que Gaspar Simões afirma.
desenho de Pedro Pimentel
Depois, seguindo tão arrasadora lógica – e dando-se o possível caso de haver sérios pruridos pessoais por parte deste predestinado da sociedade e da Natureza (e mais ainda de JGS!) –, o dito homossexual em potência esconder-se-á sine die no respectivo armário, vingando-se em seguida do destino com autêntico instinto predatório sobre tudo o que represente o elo afectivo e sexual mais corrente: a mulher!
Haja pois uma saia no horizonte e lá estará um homossexual encapotado (ou muitos mais) a exercitar sedução em catadupas e – horror dos horrores! – consumando conquistas...
Daqui à justificação para as múltiplas namoradas e amantes de Eça – «que gostava de espanholas», como muito bem se lembra o ensaísta (e porque obviamente o Cruges lho soprou ao ouvido!) – vai um passo muito curto.
Está tudo explicado: Eça apreciava sexualmente as mulheres porque – lá bem no fundo – era homossexual! Mais ainda: o psicografado de JGS alardeava o seu gosto por mulheres apenas para não ser mal visto socialmente...(1)
Haverá maior estreiteza de horizontes? Ou será que o ensaísta apenas afirma subliminarmente que todos somos um pouco homossexuais – com ele fatalmente incluído?
Mas estas são dúvidas que já não é possível averiguar – pelas razões mais óbvias.
Neste contexto não deixa de ser interessante a história pessoal de Gaspar Simões.
Foi um literato com vários interesses e apaixonou-se irremediavelmente pelas doutrinas de Freud, que ao tempo (anos 40) faziam grande furor. A tal ponto isso foi assim que JGS abalançou-se por fim a escrever aquele que, por breves momentos, foi apresentado como o primeiro romance psicológico português. Passe a ridícula presunção (é caso para perguntar se a obra de Eça não tem nada de psicológico), Elói – ou Romance numa cabeça foi um fracasso: não vingou.
Aconteceu ao romance de JGS aquilo que dá hoje substância ao neologismo flop.
Só depois disso o ensaísta se aventura nas suas biografias críticas, dotando-as de várias premissas psicológicas – que ali funcionam como alicerces e verdades únicas (onde é que já li isto?...) – sorvidas directamente dos generosos úberes cerebrais do Dr. Sigmund. O qual anos mais tarde acabaria por renegar muitas das suas teorias e generalizações, incluindo as que o ensaísta e escritor falhado utilizou para sustentar a incontornável (ainda que indetectável) homossexualidade de Eça.
À época da primeira edição de Vida e Obra de Eça de Queirós, o poeta Fernando Pessoa já morrera – não sem antes considerar publicamente as ilações psicanalíticas de JGS pejadas de conclusões arriscadas e generalizações perigosas. Pessoa foi psicografado em vida por Gaspar Simões, e em vida cilindrou o seu auto-proclamado analista de forma muito concreta.
Judicioso, o ensaísta Simões aguardou então as comemorações do nascimento de alguém que já morrera (sem margem para dúvidas!) para lhe dedicar robusto e monumental tomo pontuado com afirmações da mais pura selvajaria freudiana – que ali assume foros de ciência exacta. Mas destas Eça não se poderia defender, pelo simples facto de estar morto há cerca de 45 anos.
Isso foi óptimo para JGS.
É fácil remeter ao emissor a natureza desta espécie de vingança privada sobre o sucesso inalterado de Eça. Porque é notoriamente disso que se trata. Se assim não fosse qual a razão para todo um alarido entusiasta pela suposta «tunda» dum Machado de Assis a propósito d’O Primo Basílio – onde o ensaísta visivelmente se trai, tal é o público júbilo com que a acolhe?
Consciente ou não disso, JGS quis denegrir Eça, apesar de proclamar aos quatro ventos que o adorava. Quis que o brilho do romancista ficasse um pouco enfarruscado em sítios precisos, onde a dúvida se pudesse instalar eficazmente para se metamorfosear, com o devido tempo, em verdade praticamente universal (e dêem-se agora uns quantos vivas ao mais in dos paradigmas publicistas). 
Quis entrar na História, à força.
Daí o cínico ímpeto das suas certezas sobre a «sensualidade anómala» de Eça, pois, a um século de distância, JGS conhecia perfeitamente todas as aventuras amorosas do escritor – de trás para a frente e vice-versa. Estranhamente, esqueceu-se de Anna Conover e de Mollie Bidwell, por exemplo... Como se esqueceu também de ter o trabalho de levar em conta, para a obra em causa, a correspondência íntima do escritor – o que numa biografia que pretende ser monumento denuncia uma perigosa fragilidade de referências.
Toda a jactante segurança do ensaísta – ancorada certamente no facto de o visado não o poder contradizer – encaixa muito bem na moral cediça das críticas de Assis: em O Primo Basílio Eça só escreveu sobre o feio, o desagradável, o amoral e tudo o que é deplorável – afirmara então o escritor brasileiro.
Tal crítica não é só uma redução absurda da obra em si: é também reveladora de uma grande falta de visão de conjunto do significado do Realismo e do pensamento naturalista – o que se identifica nuclearmente com as reacções da velha guarda intelectual portuguesa, ainda muito ligada ao modelo já esgotado do Romantismo (ou romanticismo, como lhe chamava Eça).
No extremo oposto, o consagrado crítico literário Harold Bloom afirmaria anos mais tarde que Flaubert teria certamente dado qualquer coisa de muito caro para ter escrito umas quantas páginas desta obra.
Tamanha discrepância de opiniões resulta, no entanto, duma fórmula muito simples: porque enquanto o crítico norte-americano analisou Eça e a sua obra com a necessária distância e desinteresse pessoal, já Machado de Assis mostrou apenas as manchas verdes que indiciam o óxido do despeito, que é primo direito da inveja – um produto altamente tóxico mesmo para quem o manipula com os cuidados naturais duma experiência continuada(2).
Depois, Gaspar Simões apanhou do cadinho brasileiro umas quantas raspas e agrediu Eça intencionalmente – para seu exclusivo lucro e muito provável gozo pessoal. E fê-lo através da tal obra monumental que, na minha nada modesta opinião, apenas tem de válidas as datas que ali surgem e correspondentes certos episódios documentados da vida do escritor.
Porque considerar que Carlos da Maia é o escritor escondido em autobiografia implícita, e também não querer perceber que Os Maias são como que um epitáfio ao Romantismo, são provas suficientes, para mim, de que o ensaísta utilizou Eça especialmente para falar de si próprio. 
Talvez mesmo sem disso se aperceber.
Assim só me resta lamentar a impossibilidade prática de averiguar qual a percentagem de incidências auto-biográficas JGS integrou neste seu extenso livro – porque isso aconteceu.
Mas há uma sua frase que lhe trai pelo menos a paternidade das ideias: «(...) A única coisa que nele era paixão – o amor sensual anómalo (...). A única paixão que JGS identifica numa personalidade com a dimensão de Eça é meramente carnal – embora clinicamente anormal. Porque, para ele, tudo se resume à libido.
Logo a arte, as ideias, o crime, o poder, a criatividade, a aeronáutica, o bem, a astrofísica, a filosofia, o xadrez, a política, a Natureza, o futebol, os automóveis e a matemática nunca poderão suscitar paixões...
Freud não conseguiria errar com maior fragor.

  1. Não deixa de ser divertido saber que JGS ficou conhecido por se gabar publicamente de conquistas no universo feminino
  2. Mais tarde o grande escritor brasileiro mergulharia ele próprio nas correntes do Realismo, onde também obteve notável sucesso 

desenho de Pedro Pimentel
O patusco silogismo
da cadeira e da girafa

Toda a minha investigação sobre mais este clone de Eça – o homossexual escondido, neste caso –, sugeriu-me mais tarde o estranhíssimo silogismo condicional da girafa e da cadeira. 
Porque foi aí, nesse antro de patranha, que Maria Filomena Mónica (MFM) escondeu a sua brocazinha particular quando desatou a escrever sobre o escritor. Não me espantaria muito que o seu recurso aos confessados devaneios de Flaubert nesta particular matéria mais não tenha sido uma forma elementar de aproveitar a afirmação velada que Gaspar Simões produzira cerca de 60 anos antes: é que seria um grande desperdício de sumo, especialmente num trabalho que não acrescenta nada em particular ao que já se sabe sobre o mestre do realismo português.
Senão veja-se isto: é bem natural que a maioria dos leitores de Eça não saiba que ele era fisicamente parecido com a sua mãe – a comprovação de um elo familiar contestado por alguns.
Esta poderá ser uma curiosidade interessante para várias pessoas – ou apenas uma aborrecida coincidência para quem prefere pensar que Carolina Augusta Pereira d’Eça de Queiroz não foi realmente a mãe do escritor. Mas para quem conhece as várias fotografias existentes de ambos, tal semelhança é somente uma evidência.
Ora esta é a grande novidade presente no livro de MFM: Eça era parecido fisicamente com a sua mãe!...
Entretanto, torna-se obrigatório lembrar (especialmente a quem não leu a obra da historiadora/socióloga) que Filomena Mónica declarou não ter aprofundado as complicações e implicações da natalidade de Eça dado ser este um tema que notoriamente desagradaria ao próprio. E no entanto equacionar tais causalidades, em função do escritor dentro da sua obra, seria algo de muito mais legítimo do que levantar uma certa dúvida conclusiva patente no tal silogismo pateta que atrás anunciei.
E qual é ele?
É bem simples: uma girafa tem quatro pernas e uma parte do corpo mais alta do que a outra; uma cadeira tem quatro pernas e uma parte do corpo mais alta do que a outra; logo – em determinadas circunstâncias! –, uma girafa pode perfeitamente ser uma cadeira...
Os factos falam por si. Na página 63 do seu livro sobre o escritor, MFM lança uma nota de rodapé no final da seguinte frase:
«Que se passou, nos banhos turcos, para que Eça repentinamente começasse a escrever com tal sensualidade?». 
E na nota de rodapé aparece escrito o seguinte:
«Flaubert é muito mais explícito sobre o que lhe aconteceu quando foi a um banho turco. Numa carta a um amigo, forneceu pormenores sobre a masturbação e a sodomia, que, a terem tido lugar, Eça não quis registar. Ver carta de Flaubert a Louis Bouillet, escrita do Cairo (...)».
Ou seja: ainda que noutra pessoa, há precedentes!... Ambos são escritores, ambos estiveram na mesma cidade do Oriente Médio e ambos foram aos banhos turcos...
Tanta coincidência cheira definitivamente a esturro!
Eis, pois, o silogismo da cadeira e da girafa – aqui equacionado em todo o seu resplendor pindérico de revista cor-de-rosa.
Ou não será antes que Flaubert só é «muito mais explícito» porque lhe aconteceu efectivamente qualquer coisa num banho turco que não apenas o banho propriamente dito? – e que Eça não o é principalmente pela razão inversa?!...
Filomena Mónica tenta estribar esta sua dúvida conclusiva numa «súbita sensualidade» que descobre na escrita de Eça – como se lhe tivesse sido alterada toda a forma num repente, em erótico tumulto, a partir daquele célebre banho, partilhado com o amigo de sempre e irmão da sua futura mulher, e descrito com ironia magistral em O Egipto
Então e as Prosas Bárbaras, e As Farpas? – não exibem também uma escrita sensual? E será que aquele texto específico foi escrito imediatamente a seguir ao banho, com Eça a pingar, de lápis na mão e toalha a fazer de turbante, ainda afogueado pelos estranhos momentos que então vivera e apenas abandonara para tirar umas quantas notas impressivas e necessariamente imediatas?!?...
Será assim que a historiadora/colunista escreve?...
Toda a escrita de Eça é sensual – a ironia é em si uma forma de expressão sensual. E toda a básica especulação desenvolvida por MFM nesta matéria não passa de hermenêutica de estagiária jovem em jornal tablóide.
Mas há uma desculpa razoável para tanta tacanhez: no mesmo volume onde insere esta sua ridícula teoria, a autora considera A Cidade e as Serras uma obra espúria (talvez a reboque do monumental Simões, que já antes o declarara de forma desassombrada), um livro a mais no conjunto dos que Eça escreveu. 
Ora quem pensa assim tem certamente direito a um enorme desconto.
Se no caso de Gaspar Simões e Bessa-Luis se vislumbram os fios duma agressão amparada na inveja, já em Filomena Mónica o que transparece é um oportunismo barato associado a moralismo sonso.
Veja-se isto: MFM achou um dia que a Eça desagradaria que se falasse (agora) da sua ascendência – razão por si invocada para não tocar no assunto.
O que pensar então dos fantasmagóricos sentimentos do escritor – que Mónica jura venerar – face às filoménicas propostas dumas quantas tropelias homossexuais, mais o amigo conde e uma cambada de núbios musculados e cheios de truques? Isto já não exige qualquer recato ético ou pudor retroactivo de admiradora por parte da ex-estudante de Oxford?... O mesmo tipo de respeito antes invocado, afinal!?
Muito curioso – sem dúvida.
Para encerrar de vez toda esta falsa polémica – que seria mais compreensível se os seus mentores fizessem parte dum aguerrido grupo defensor da pluri-sexualildade como único meio de atingir a arte e a sensibilidade (um nome sonante sempre daria uma ajudinha...) –, resta lembrar a Maria Filomena Mónica que o seu recente de profundis sobre o «snobismo intelectual», de que confessa ter sofrido em tempos que já lá iam (revista Pública, de 26-02-2006), não chega para lavar dos seus textos sobre Eça toda uma medonha nódoa de... petulância mental.

domingo, 13 de novembro de 2011

CAPÍTULO VI – Carlos escreveu a Maria Monforte

A presença permanente de coincidências – umas apenas curiosas, outras dotadas de força suficiente para terem efeitos práticos – é uma das divergências da realidade (tida por boa) que, apesar da sua frequência, consegue sempre surpreender-me.
Dá a impressão de que certos acontecimentos, por vezes bem vulgares na aparência, se conjugam de forma abstracta para me enviarem uma mensagem – que surge intermitente, por vezes absurda, mas outras vezes muito concreta.
Esta que agora vou descrever faz parte das concretas.
Tudo começou com um trabalho da disciplina de Língua Portuguesa que a minha sobrinha (então) mais nova estava a preparar. O processo começava pela escolha de um dos autores constantes do programa do ano em curso, e a Isabel, não renegando o antepassado já distante, escolheu sem hesitações o Eça.
Ora o Eça do programa – e o mesmo se passará com muitos outros autores – encontra-se desde tempos quase imemoriais preso a Os Maias, como um velho brigue atascado no lodo duma qualquer baía de mares desconhecidos.
Aparentemente, parece nunca ter havido imaginação para mais da parte dos responsáveis por tais programas – e quase parece que as grandes alterações na escolha dos autores e respectivas obras apenas se manifestam em contínuos acrescentos e abates à lista criada, muito provavelmente, nos tempos de Salazar.
Como método é do mais simples – mas esse é tema para outras batalhas.
De volta ao trabalho da minha sobrinha sobre o seu trisavô, constava dele a elaboração de um texto em que se deveria inventar uma carta que Carlos da Maia teria hipoteticamente escrito a sua mãe. Seria a primeira vez que Carlos se dirigia a Maria Monforte e, naturalmente, o assunto remetia à complexa trama de adultério e abandono que o escritor forjou para que as suas personagens pudessem existir n’Os Maias.
Isabel escreveu um texto escorreito, com ideias que vincavam bem uma crítica quase cruel do filho a respeito da mãe. Mas, de acordo com a sua professora, faltavam ali uma certa sonoridade oitocentista e referências de natureza cultural, que Eça certamente integraria em tão mirífico texto. E também uma parábolazita ou outra poderiam acrescentar alguma credibilidade à ‘falsificação’...
Perante algumas dificuldades na recomposição da carta – bem naturais numa rapariga de 16 anos –, Isabel pediu-me ajuda. E eu, a partir do seu esboço, integrei aquilo que achei poder ser alguma da tensão que Eça, também ele, poderá ter sentido e recriado de alguma forma.
A partir daí a minha sobrinha concluiu o seu próprio texto – e eu fiquei com o meu.
Aqui está ele.

A carta impossível

Lisboa, 20 de Julho de 1888                                      


Senhora:

Sabendo eu de antemão que nunca esperaria receber tal missiva, tenho obrigatoriamente de lhe revelar, antes de mais, quem de facto sou.
Chamo-me Carlos e sou seu filho – aquele que abandonou era ele pouco mais do que uma criança de cueiros.
Na verdade eu era muito mais do que uma simples criança de cueiros. Sim! – porque o seu filho deveria ser mais importante do que tudo o que a possa ter feito fugir à sua responsabilidade de mãe.
Por meios que não vêm agora ao caso, tenho na minha posse a sua morada desde há algum tempo. Todavia, em boa verdade o digo, nunca logrei juntar a necessária coragem para lhe escrever – afinal, pare tentar de algum modo cerzir aqueles laços que jamais deviam ter sido rompidos.
Agora, após muitos anos de dúvidas e angústias – que entenderá bem, talvez não como Maria Monforte mas certamente como a mulher e a mãe que nela deverão existir –, sinto-me finalmente preparado para enfrentar a verdade: conhecer as poderosas razões que a levaram a abandonar-nos ao nosso para sempre sombrio destino. A mim e a meu Pai – que tanto a amava, a pontos de cometer esse acto tão drástico e tão carregado de dramática violência como é o suicídio.
Saberá a Senhora que, quando era mais novo, não conseguia perceber porque é que todos os meus amigos tinham mãe e pai, e eu era o único que não os tinha?
Era um terrível vazio ver a felicidade estampada nos seus rostos, enquanto se aninhavam nos carinhosos abraços, sabendo pela fonte segura do coração que eles estariam para sempre a seu lado, protegendo-os com o seu cuidado e infinito amor...
Infelizmente, eu nunca pude sentir tais afectos. E assim fui tentado a disfarçar tão absoluta e física ausência com as minhas peripécias amorosas e inúteis aventuras.
Foi o meu avô, Senhora – o homem mais forte e corajoso que eu conheço –, quem me criou. Não foi certamente uma mãe ou um pai – porque esses não têm substitutos. Ainda assim, conseguiu dar-me a atenção de que eu tanto necessitava. Graças a ele tive uma educação viva e avançada, pela qual lhe serei eternamente grato. Concluí o curso de Medicina – a minha grande paixão –, e abri o meu próprio consultório.
Tudo isto a ele o devo.
E foi também ele, num fim de tarde, na quinta de Santa Olávia, quem me explicou que os cucos – sim!, esses mesmos, que ecoam nas nossas matas e Lineaus tão bem descreve e classifica! – não tinham pais como deveria de ser.
Disse-me ele que a fêmea se limitava a colocar o ovo em ninho alheio, deixando que outros cuidassem da sua criação...
Onde poderia eu evocar – utilizando palavras do grande Nerval – «le spectre funeste qui traversait ma vie»?... Onde encontrar consolo e refúgio para tamanho sofrimento, que, como médico que sou, já quase considero enfermidade?    
Em lugar nenhum! Porque aconteceu um dia, Senhora, ter eu descoberto o que levou meu Pai ao suicídio. E então fui acarinhando a certeza de nunca mais querer falar consigo.O simples pensamento de que a sua fuga fora responsável pela morte dele transportava-me para um monstruoso universo de ódio quase convulsivo. A simples ideia enojava-me! E ainda o faz, por vezes.

No entanto, dá-se agora o facto de que decidi comportar-me como um adulto e dar-lhe assim uma oportunidade para se explicar. Em boa verdade, nem sei ao certo por que o faço, mas ser confrontado com a realidade nua e crua é, certamente, um acto de adulto. Há de concordar comigo!
Esta é, pois, a razão porque apareço agora nestas linhas necessariamente amargas, para saber se sempre valeu a pena o rumo que deu à sua vida, e se acha que eu ou o meu pai merecíamos a sua traição.
Não sei se foi por amor, paixão, ódio, desgosto ou neurastenia, mas qualquer que seja a razão – nem mesmo a mais exclusiva das paixões – nunca ela justificará um dia o abandono do seu próprio filho.
Veja bem, Senhora: nem mesmo os «Misérables», de mestre Victor Hugo, viveram o que eu vivi! Porque os seus ausentes pais e mães, as suas famílias destroçadas, eram, elas próprias, «des misérables»!
O que não é de todo o nosso caso...

Na realidade, eu não tenho a menor ideia sobre o que possa ter motivado essa sua impensável e enorme loucura, porque nem o meu avô ou quaisquer outras pessoas mo revelaram. E tudo assim foi permanecendo, até ao dia em que me cansei da minha reflectida comiseração – de sentir essa pena toda de mim próprio. Então, como um ‘coolie’ chegado de Macau que aporta no outro lado do mundo disposto a começar de novo toda uma vida, consegui avançar por entre alguns sucessos amenos e um longuíssimo e extenso esquecimento.
Como tal, por mais irrealista ou estranha que seja a sua resposta às minhas justas questões, acredite que nada me poderá chocar mais.
Nem mesmo a ausência total de resposta. Uma vez que abandonou o seu filho já não poderá voltar atrás – comigo não, certamente. O Destino quis dar-me uma vida suficientemente agradável sem a sua presença, e não será agora que a vou interromper – justamente por sua causa.
Compreenderá a Senhora que é impossível perdoar-lhe tamanha falta, mas também não é esse o propósito que me move a escrever-lhe estas duras e frias palavras.
Na verdade, eu só preciso mesmo de perceber o que aconteceu, o que a levou a cometer tão nefando acto.
Como é que foi capaz? Como conseguiu eliminar um filho da sua vida? Diga-me! Não foi por minha causa – porque nessas idades não existem culpas.
Foi alguma coisa que o meu pai fez? Ou o meu avô? Poderá ter sido um rebate social tardio, a vergonha do seu pai ter enriquecido como negreiro?...
Não acredito!
E a minha irmã?, de quem só há pouco sei da existência –, também quero saber dela!
Porque é que a escolheu a ela e não a mim?
Estas dúvidas produzem uma dor insuportável – uma dor de desengano e traição! Como eu gostaria de poder desprezar olimpicamente tudo isto! Mas não consigo...
Senhora: poderei neste momento parecer-lhe a pessoa mais desagradável deste Mundo, mas tal não é necessariamente verdade. Porque, dadas as circunstâncias, sinto-me credor da sua especial compreensão e cuidado. Depois de todo o labirinto de sentimentos que fui vencendo através da vida, não serão beijos ou flores que tenho para lhe oferecer numa qualquer hora de reencontro.
Porque aqui, no fundo do meu peito, resta apenas a verdade do que eu sinto por si e a urgente necessidade de compreender o porquê da minha estranha sina.
Espero ardentemente que leia esta carta e perceba bem o quanto me afectou com os seus actos. Já não pode voltar atrás – isso é certo.Mas ainda tem essa responsabilidade moral para comigo. 

                 O filho que nunca assumiu                  
                                                                Carlos da Maia


Da interacção

à extrapolação


O meu aproveitamento da mais do que académica hipótese de Eça pretender pôr um dia Carlos da Maia a falar com a sua mãe trânsfuga – que talvez até possa ser considerado um abuso, mesmo nas profundas desse imenso e inóspito matagal que é a teoria, ou simplesmente um exercício inócuo ou pretensioso (tanto me faz) – teve o condão de me levar de novo à sempre recorrente questão do nascimento e criação do escritor.
Porque, enquanto tentava encontrar algum grau de verosimilhança para incutir à falsa carta de Carlos a Maria Monforte, tive sempre presente que Eça, até ao fim da adolescência, não contactou de forma objectiva com a própria mãe.
A questão que aqui se pode colocar é se alguma vez o escritor abordou tal assunto com Carolina Augusta – porque certamente o fez com o pai. Ou se esse drama, tão real para ele, foi perdendo densidade com o tempo e a convivência, até se sublimar num respeito mútuo ou mesmo numa certa amizade.
Seja como for – e esta é certamente uma das razões porque muitos vêem nesta a mais significativa obra do escritor –, n’Os Maias existe uma real proximidade de situações entre certos protagonistas e algumas pessoas muito importantes na vida de Eça.
Os casos mais evidentes são o velho Afonso da Maia, que na sua juventude andara misturado com os liberais da maçonaria, e, por maioria de razões, Maria Monforte.
Mas enquanto a justaposição do avô de Carlos da Maia é benevolente em relação a Joaquim José de Queiroz – avô de Eça, liberal, também maçon e que, tal como Afonso da Maia, fugiu para Inglaterra depois de D. Miguel ter tomado o poder –, já os sinais utilizados para marcar Maria Monforte têm pontos de contacto meramente relativos face ao comportamento conhecido de Carolina Augusta. Porque, na realidade, esta não fugiu para sempre: apenas não quis ver o filho enquanto ele não cresceu.
No entanto, abandonou-o à nascença.
A utilização da proximidade relativa destas duas situações por parte de Eça – que dificilmente poderá ter sido inocente (na Tragédia da Rua das Flores a relação incestuosa é entre mãe e filho...) – parece revelar que, no fundo, ao recriar os acontecimentos daquela forma, o escritor quis dar a entender que, na realidade, não foi bem assim que tudo se passou... mas podia ter sido.
Este tipo de mimetismo nem sempre equidistante entre as suas personagens e a realidade pretendida, que o romancista utiliza em outras obras, é o filtro mágico que confere substância e vida própria a Basílio e Luísa, ao Conselheiro Acácio e a Juliana, a Amaro e à Cohen – e a toda a humana (talvez demasiado humana) horda de tipos que Eça criou e imortalizou.
Eles existiram de facto algures, e se o seu retrato não foi feito com absoluta definição fotográfica é porque não precisava de o ser – ou porque até era melhor que nem o fosse.
Assim, enquanto tal interacção entre a realidade e a ficção é benéfica, criativa e bem visível na fase mais realista de Eça, já as extrapolações que dela se fazem – pretendendo-se com isso dar outro papel às personagens que não o previamente atribuído pelo escritor – subscrevem quase sem excepção um certo tipo de raciocínio muito português, mesquinho e «pequinhento», que o próprio não se cansou de apontar e criticar em muitos dos seus escritos.
No realismo de Eça há sem qualquer dúvida um enorme contributo da própria realidade (como, a meu ver, em toda a sua obra).
Mas nem este contributo é absoluto, nem os vários aspectos e densidades que o traduzem podem ser manipulados a bel-prazer a partir do exterior – sob pena de tal não passar de mera subversão ou, na pior das hipóteses, da mais pura batota.
É disso que vou agora falar.

sábado, 12 de novembro de 2011

CAPÍTULO V – Uma trisavó tremenda

Uma trisavó tremenda!  – eis o que eu descobri de mais relevante nesta minha incursão pelo passado remoto de Eça.
Ela defendeu a sua acirrada teimosia, fazendo-a prevalecer sobre o senso comum mais básico – que apenas a aconselhava a aceitar com alguma humildade e muita coragem a maternidade que a vida lhe colocara tão à pressa entre mãos.
Segundo as memórias de Maria d’Eça (que, para evitar confusões, era prima afastada da minha tia-avó Maria Eça de Queiroz de Castro), Carolina Augusta reagiu violentamente à surpresa desagradável de uma gravidez que não procurara de todo, transferindo imediatamente a sua raiva para o co-responsável em tão dramática situação.
Terá com certeza pensado surdamente, e por muito tempo, na atitude terrível que tomaria ao rejeitar o filho mesmo antes deste nascer – dando já corpo à ideia de não pretender assumir as suas responsabilidades de mãe.
E se não assumia o filho, a que propósito iria assumir a relação com o pai do mesmo?
Assim, quando o juiz Teixeira de Queiroz lhe enviou uma mensagem onde a alijava da carga formal dos factos – porventura um texto idêntico ao que depois iria apensar ao assento de baptismo do filho, em Vila do Conde –, a mãe de Eça respirou fundo e rapidamente se escondeu por entre os dias da sua vida de sempre.
A espaços, mais ou menos longos, terá também fugido a tudo o que representasse uma proximidade social que lhe lembrava o passado ainda recente e acentuava mais um pouco um inevitável peso de consciência.
Tudo isto poderá ser complicado, mas também muito possível.
O testemunho de que terá sido a mãe de Carolina, antes de morrer, a obrigá-la a jurar que assumiria a criança, casando com o respectivo pai, merece-me tanta credibilidade como um outro qualquer que afirmasse que ela, por fim – talvez também pressionada pela sua recente situação de órfã total –, aceitara arcar com a sua quota-parte de responsabilidade, readquirindo simultaneamente alguma substância social por via da família que por fim integrava.
As duas situações podem mesmo ser complementares.
Mas há algo de muito concreto que sempre alimentou as imaginações mais românticas e as dúvidas mais singelas: como pode uma mulher enjeitar um filho? Ora tal pergunta tem demasiadas respostas para poderem aqui ser enumeradas. No entanto, todos nós conhecemos melhor ou pior relatos mais ou menos agressivos quando se trata de maternidade não desejada.
O caixote de lixo é apenas um exemplo do fim da linha.

Entre a depressão
e a rejeição social

Mas Carolina não estava propriamente no fim da linha: não sendo uma rapariga rica, era no mínimo uma pessoa integrada na sociedade e na aristocracia rural e vianense da época.
Depois do nascimento de Eça passou certamente pela terrível situação de ser o núcleo dum segredo conhecido de muitos..., que talvez não falassem disso mas que sabiam de tudo! Tantas e tão fortes tensões, suportadas até mesmo numa certa solidão, permitem imaginar que a jovem Carolina Pereira d’Eça terá reunido um bom naco de intolerância para com todo este passado tão recente, para nela encontrar também algum suporte psicológico nas horas mais deprimentes. Uma espécie de adrenalina extra, obtida por via dum ódio periodicamente realimentado.
Afinal, podia ser uma situação com fundamentos patológicos!
Eu já ouvira falar do muito agressivo síndroma de Munchausen, em que a doente provoca o sofrimento (e mesmo a morte) do filho como forma de granjear a simpatia generalizada. É claro que tal doença só tem dois pontos comuns com o caso em análise: uma mãe e um filho.
Mas?..., e não existiriam patologias associadas?
A ideia esvoaçou-me na cabeça e orientou o meu braço até ao telefone mais próximo: urgia procurar novo combustível no vasto e boschiano universo da psiquiatria.
A minha fonte foi o médico psiquiatra e professor universitário Manuel Freitas Gomes.
À pergunta sobre complicações congéneres da que me interessava, o especialista fala-me imediatamente da «psicose pós-parto», que deveria – no seu entender – classificar-se antes como um tipo muito profundo de depressão. «Uma coisa gravíssima», sublinhou de forma veemente. Fui ainda informado de que este tipo de diagnóstico é de elaboração recente, com pouco mais de meio século de investigação.  
No entanto, perante as informações circunstanciais que lhe forneci, o psiquiatra concluiu que o caso de Carolina Augusta prefigurava antes uma relativamente vulgar e muito egoísta reacção de medo a uma presumível rejeição social resultante do então muito complicado estatuto de mãe solteira.
Tal «atitude rejeitante» terá sido, portanto, «uma resposta organizada não patológica, com fundamento social, e fruto exclusivo da sua personalidade» – expôs o médico, lembrando que reacções deste teor são bem mais comuns do que aquilo que um leigo pode imaginar.
O facto de Carolina ter posteriormente casado com o pai da criança e de ter com ele tido mais filhos exclui à partida qualquer patologia, e explica simplesmente que o seu medo primário se foi esbatendo com o tempo e as circunstâncias, onde a sua recente orfandade terá tido «um papel crucial na mudança de atitude» – conclui Freitas Gomes.
E reza a verdade que Carolina Augusta só não quis a proximidade de Eça enquanto criança e adolescente.
Porque com o passar do tempo, com os novos filhos, acomodou-se também ela à situação e o seu egoísmo foi-se mesmo mimetizando com num certo orgulho por aquilo em que o filho primogénito se ia progressivamente transformando: um grande e reconhecido artista.

Filho natural, naturalmente!

Eis pois todo o tremendismo da minha trisavó Carolina, que assim se explica não por ser um caso do foro clínico mas antes pelo seu horror à situação que viveu e respectivo impacto social – que à data só podia ser muito negativo.
A sua neta e minha tia-avó Maria descreve-a como «muito viva e autoritária e fazia-nos rir com as suas respostas prontas. Muito janota e muito boa dona de casa; eu não me fartava de admirar a mesa onde a Avó não dispensava dezasseis sobremesas!»... (in Eça de Queiroz Entre os Seus). 
Com toda esta arrumação militante e tantos cuidados na aparência, não espanta em demasia que uma inesperada gravidez de solteira tenha deixado Carolina Augusta completamente fora de si.

Será que isto não é bem mais razoável do que uma data de trapalhadas que, a poderem minimamente ter acontecido, teriam de contar com a simpática colaboração duma considerável quantidade de doidos ou igual número de cretinos?...
Eu acho que sim, e a documentação existente apoia-me. Ao contrário do que acontece com as enviesadas teorias de J.H. Saraiva e A. Bessa-Luís.
Como apontamento marginal, recorro a uma carta de Eça dirigida à sua mulher, remetida de Lisboa (25 de Março de 1889), onde descreve com pormenor a chegada a casa dos pais:
– «Encontrei a minha Mãe triste, mas forte de corpo; a Miló» (irmã do escritor) «com uma sombra de tristeza também, mas mais gorda; e meu Pai realmente bem, graças a Deus. A própria Mamã dizia que “o tempo tudo acalma, mesmo quando se deseja resistir à influência do tempo!».
Este pouco animado relatório e respectivos estados de espírito resultavam do facto de Alberto Eça de Queiroz – irmão mais novo do escritor – ter morrido poucos meses antes.
Nota-se na frase de Carolina, usada pelo seu filho José Maria para reflectir sobre tal ocasião, que ela vem de alguém que sabe perfeitamente do que está a falar, desde há muito e em diferentes contextos: – «(...) O tempo tudo acalma, mesmo quando se deseja resistir (...)».
O que é bem verdade.
Paralelamente, haverá quem possa questionar também como é que uma família da alta nobreza de Portugal – como era a Casa de Resende – aceitou com grande naturalidade a ascendência conturbada deste seu novo membro (pelo casamento, claro está), afinal uma visita habitual desde há muito por via da sua longa relação de amizade mantida com os irmãos Luís e Manuel de Castro Pamplona* (que usavam o nome familiar da mãe em último lugar, à maneira espanhola).
No entanto, a aceitação de Eça pelos Resende é um falso problema e tem um muito banal antecedente. Porque o amigo Luís – 5º conde de Resende e irmão de Emília, futura mulher do escritor – tivera, ele próprio, um filho natural (e para sempre de mãe incógnita, embora se conte que chegou a encontrar a mãe uma única vez).
Ficou conhecido na família como o Luís ‘Grande’, por ser efectivamente de grande estatura – aliás como a maioria dos Resende. E, tal como aconteceu com Eça, a Luís (‘Grande’) de Castro nunca ninguém perguntou o que se tinha passado afinal com a sua mãe.
Isto sucedia por uma simples questão de bom gosto e de real respeito e lealdade para com os envolvidos, que certamente iriam sentir-se extremamente magoados face a semelhante exposição.
Para mim, esta é a única razão que levou o meu tio-avô António Eça de Queiroz a escrever o que escreveu sobre o seu pai – texto de que o plumitivo sr. Valdemar tanta chacota fez no seu miserável ‘relato’ publicado no ‘DN’ em Junho de 2004.
  • Manuel de Castro Pamplona sucedeu ao seu irmão Luís como 6º conde de Resende, casou Com Maria das Dores da Câmara (Carvalhal) e foi pai da minha avó Matilde de Castro - que mais tarde iria casar com o seu primo direito José Maria, filho de Eça e da sua tia Emília de Castro Pamplona

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CAPÍTULO IV - O oráculo de Agustina



É bem verdade que a teoria de José Hermano Saraiva foi a que melhor substância exibiu como matéria-prima para um Eça alternativo. Baseava-se, pelo menos, em algo que tinha hipóteses de ir a discussão.
Porque a minha primeira experiência nesta matéria foi, bem pelo contrário, muito penosa.
Surgiu na forma dum inacreditável texto da escritora Agustina Bessa-Luís (AB-L), publicado no ano do milénio a propósito das comemorações do centenário da morte do romancista.
Num primeiro texto, publicado no semanário Independente a 21 de Julho de 2000, a escritora apresenta, na sua coluna de bíblico nome ‘As sete chaves’, uma prosa crítica a respeito de uma «pequena festa» da efeméride que a terá enchido de irritação. 
Até aí tudo bem, e alguns dos aspectos mais ferozmente atacados por Agustina – como «aquelas mulheres embrulhadas em cortinas e colchas de cama» – são mesmo compreensíveis dada a imagem de pobreza envergonhada que correm o risco de transmitir.
Infelizmente (para a própria escritora, a meu ver), decidiu a 8 de Setembro voltar a falar do assunto, mitigando substancialmente a potência do seu desagrado inicial – vá-se lá saber porquê... –, mas dando à troca um muitíssimo singular contributo para as festividades em causa.
Como expliquei no primeiro texto publicado no Expresso (‘Fábulas circulares...’), Agustina entende que Eça de Queiroz podia perfeitamente ser filho de uma das quatro meninas da família Carneiro Pizarro.
Dentro desta lógica toda abrangente, e alargando mesmo um pouco mais democraticamente a copa desta autêntica ‘árvore ginecológica’(1) a todo o universo feminino que rodeava o então muito jovem José Maria, é caso para dizer que ele poderia perfeitamente ter sido filho duma boa dúzia de mulheres...
Ora a escritora portuense – certamente baseada em misteriosos e telúricos murmúrios – entende simplesmente que Carolina Augusta Pereira d’Eça nunca fez parte de tal universo. Ao que lhe soma a ainda mais estapafúrdia (im)probabilidade de também José Maria Teixeira de Queiroz nada ter tido a ver com o sucedido!...
Eis como AB-L chega às suas absurdas conclusões, em textos do Independente que adiante reproduzo nas partes que abordam o assunto. 
O primeiro, crítico das tais comemorações a que assistira, acaba na fórmula sentenciosa a que autora de Mundo Fechado sempre foi tão apegada: 
–«Não o comemorem com lengalengas e teatradas. Leiam-no, mas não se metam com ele. Deixar uma obra não é deixar o corpo na escada. Não passem por cima dele, se fazem favor».
Pois bem!, isto até se pode perceber.
Sendo assim, e depois de tão assisadas palavras, a última pessoa que se imaginaria ver a passear «por cima» do corpo de Eça – a meter-se com ele – seria, obviamente, Agustina.
Mas a vida – mesmo a de alguns escritores muito publicados – tem por vezes contradições bem profundas. E foi certamente num desses momentos de caótica sublevação interior que AB-L volta a pegar no tema, mês e meio depois – mas desta vez numa toada tão cacofónica que, se fosse música, deixaria Stockhausen e Peixinho literalmente à beira duma neurastenia sem retorno.
Como se verá, é um discurso próximo do inimputável, de técnica pueril e argumentação leviana, onde a escritora afirma imensas certezas sem conseguir identificar uma única. Trata-se de genuína peça agustiniana, quer pelo estilo embrulhado, quer pelo enorme desprendimento que exibe – a pontos da mais pura lógica ser objecto do seu distante menosprezo. 

  1. (Esta definição tem direitos de autor: foi inventada inadvertidamente pela minha prima Mariana, aos 12 anos. O seu pai e meu tio, Manuel Eça de Queiroz, usava-a sempre que tal viesse a propósito) 

As chaves do pavor 

Diz Agustina Bessa-Luís, num texto titulado de ‘Pavor’, na sua coluna ‘As sete chaves’:

–«Não me vou desdizer, mas aquilo que eu disse sobre as comemorações queirosianas referia-se a uma pequena festa que me foi dado observar e que me encheu de irritação. Era a força pimba a entrar na área da cultura espirituosa a que Eça pertence. Dum modo geral as comemorações sejam do que for obedecem a propósitos reservados e são movidas pela impaciência. Não se escolhem os melhores para comparticipar num programa, e compreende-se porquê. Os melhores têm por eles a tirania das próprias opiniões, que são capazes de fazer adeptos no sentimento do público. Os melhores envenenam essa proeza de fazer coisas, porque são em muitos aspectos intratáveis e inimigos da tradição.
Desenho de Pedro Pimentel
Ainda é talvez cedo para levantar o véu da fantasia sobre a vida de Eça de Queirós. Quando eu vivia na Póvoa contavam-se as peripécias do seu nascimento duma maneira muito menos confidencial do que agora. José Régio mostrou-me em Vila do Conde a casa da roda onde o recém-nascido teria sido posto e depois entregue a uma ama de ocasião. Era triste de ouvir uma história à Dickens que não foi ainda escrita, como outras não foram.
Tanto Póvoa do Varzim como Vila do Conde disputam a honra de serem berço de Eça de Queirós. A mãe, figura controversa e mal explicada, foi quem conduziu a história, com mais orgulho do que sentimento brando no coração. Era natural de Viana do Castelo e há notícia de Eça ter nascido lá e depois levado para Vila do Conde, para casa dos Carneiro Pizarro, parentes prováveis da dita menina Carolina Eça. São coisas para desvendar e pôr em ordem. Muita gente mentiu nisto do nascimento de Eça de Queirós. A primeira foi Carolina, que disse que o filho nasceu na Póvoa. Talvez para despistar os curiosos da casa da Costa cuja gente ela respeitava e na sombra de quem andou a criança até deixar o colo da ama e depois provavelmente também. Estes segredos espevitaram o snobismo do escritor, com sangue de reis nas veias? Seria Eça filho natural dos Carneiro Pizarro, o que simplificava muito a sarabanda de contradições e fingimentos com que o próprio romancista pactuou? Eça tinha verdadeiro pavor de que lhe fizessem a biografia, e disse: “Eu não tenho história, sou como a República de Andorra”. Nesse caso tanto a desalmada Carolina Augusta como o magistrado Teixeira de Queirós não passariam de pais putativos. José Carneiro Pizarro de Magalhães regressou do Brasil a Portugal em 1821, vindo habitar a casa da Costa em Vila do Conde. Uma filha morreu louca, outra foi freira, outra, açafata de D. Carlota Joaquina, morreu solteira, assim como a irmã Maria Henriqueta. Qualquer delas podia ter sido mãe de Eça de Queirós, e só assim havia razão para tanto mistério. Eu lavo daí as mãos, mas tão manchadas de tinta andam que nunca mais vão ficar limpas de balbúrdias em risco de serem verdade. O meu contributo para o centenário de Eça de Queirós é este: ele podia ter sido um Carneiro Pizarro. 
Eu acrescento alguma coisa, não corrijo”, como diria o mestre Montaigne».

«Peripécias» e José Régio 

Ora aqui está um bem sinuoso exercício de malabarismo mental! 
A escritora parte das mais hipotéticas condicionais, ergue um enorme e grotesco edifício de causalidades inaceitáveis num discurso lógico..., e tudo com base em quê? Em conversas de café tidas com o poeta e escritor José Régio – provavelmente na naturalíssima posição de aluna do professor
E acha que isso prova tudo!, e que assim já se obtém toda a clareza sobre o caso, que se «simplificava a sarabanda de contradições»... 
Eu, muito sinceramente, considero que trocar a versão que conheço por semelhante confusão seria como renegar a antiga e difícil estrada que ligava o Porto a Guimarães – antes das auto-estradas – para me enfiar de cabeça no medonho labirinto de Minos (se é que tal coisa alguma vez existiu!). 
Mas, à boa maneira romântica, a escritora gosta mais dos labirintos pavorosos...
Diz a dado momento AB-L que «ainda é talvez cedo para levantar o véu da fantasia sobre a vida de Eça de Queirós», dando a entender que um dia o fará. Recua depois sob a protectora asa de Régio até aos dias em que vivia na Póvoa do Varzim, quando se contavam «as peripécias do seu nascimento» (de Eça) «duma maneira menos confidencial do que agora». 
Ficamos assim a saber que nesses tempos já idos havia, tal como hoje, muita balela e ‘conversa de soalheiro’. 
Régio mostrou-lhe a casa da roda onde o recém-nascido «teria sido posto» – ou não!, convém lembrar... «Era triste de ouvir uma história à Dickens que não foi ainda escrita, como muitas outras» – compadece-se finalmente AB-L.
E tão compadecida estava nesse momento de zénite emocional, que não hesitou em meter-lhe pelo meio umas quantas malaguetas da sua lavra. Para dar mais picante à coisa. 
Peremptória, Agustina afirma: 
«Muita gente mentiu nisto do nascimento de Eça de Queirós. A primeira foi a Carolina,» (Pereira d’Eça) «que disse que o filho nasceu na Póvoa do Varzim, talvez para despistar os curiosos da casa da Costa» (propriedade dos Carneiro Pizarro), «cuja gente ela respeitava e na sombra de quem andou a criança até deixar o colo da ama e depois provavelmente também»...
Que diabo! Um hipotético mas ainda presumível «respeito», um mero e meio perdido «talvez» e um vaguíssimo «provavelmente» não auguram nada de bom a uma acusação onde se começa por classificar taxativamente como manipuladora e mentirosa jubilada a mulher que assumiu e confirmou, de jure, ser a mãe do escritor.
Como diria o próprio Eça ao amigo e historiador Oliveira Martins, a propósito de minuciosa reconstituição histórica da Batalha de Aljubarrota que este fizera: «Mas diga-me aqui uma coisa: você esteve lá?!...»
Depois, o total desconchavo explode em farândolas no momento em que a autora de Sibila se propõe encarnar uma das sacerdotisas de Delfos – que, como toda a gente sabe, era um oráculo que escondia a sua paupérrima objectividade numa infinidade de pormenores circunvizinhos e inúteis.
Responde, a dado momento, uma agora inquisitória AB-L: «Estes segredos espevitaram o snobismo do escritor, com sangue de reis nas veias? Seria Eça filho natural dos Carneiro Pizarro, o que simplificava muito a sarabanda de contradições e fingimentos com que o próprio romancista pactuou?» (coisa espantosa!, esta última...). 
Em seguida pega na célebre frase em que Eça diz não ter história e ser «como a República de Andorra» para concluir que «nesse caso» (mas qual caso?!?) «tanto a desalmada menina Eça» como Teixeira de Queiroz seriam apenas «pais putativos»... 
Depois, subitamente, encerra a questão com um breve historial dos Carneiro Pizarro, que tiveram quatro filhas: uma maluca, outra freira, outra criada da rainha e solteirona – «assim como a irmã Maria Henriqueta. Qualquer delas podia ser mãe de Eça de Queirós, e só assim havia razão para tanto mistério». 

Uma carta em branco 

Como já antes afirmei, não acredito na existência de uma só pessoa no mundo inteiro que, no seu perfeito juízo, aceitasse desempenhar tamanha farsa sem fortíssimas razões. Ora AB-L descobre logo duas numa penada. E consegue mesmo casá-las – embora não nos consiga explicar quais as fortíssimas razões que levaram duas pessoas distintas a praticar tão improvável acto em simultâneo. 
A seguir (claro!), põe-nas a perfilhar uma suposta criança enjeitada (não se sabe ao certo por quem...) e, ao mesmo tempo, obriga-as a inventar toda uma complicada história de amantes desavindos em que até as famílias – presentes e futuras – deverão pactuar.
É, sem dúvida, uma história absolutamente única – mas com factos apenas imputáveis a um razoável bando de doidos reunido especificamente para o efeito, a pedido exclusivo da escritora Agustina Bessa-Luís, que, além de acrescentar «alguma coisa» e não corrigir, como diria mestre Montaigne!, parece também gostar de se vestir de pitonisa, lá pela Rua do Gólgota... 
Pessoalmente estou convencido de que no meio de toda esta salgalhada monstra (ou será apenas uma «sarabanda de contradições»?...), onde a escritora presume «levantar o véu» a apolíneos mistérios, medra um desejo bem real e antigo: o de um dia pôr as mãos na célebre carta (que nunca ninguém viu!), que poderia (talvez...) estar na posse de herdeiros da família Carneiro Pizarro... 
Isso era cá uma festa!
Mas, com tantas incógnitas subjacentes, é aceitável duvidar que tal coisa possa algum dia acontecer.
Tenho, no entanto, uma convicção intuitiva: se semelhante documento existe de facto, mais não é do que o texto original da carta apensada por Teixeira de Queiroz ao assento de baptismo do filho. Apenas porque não é crível que a missiva entregue em Vila do Conde ao padre Domingos de Sillos fosse fisicamente a mesma que dias antes – por prioridade natural – informara Carolina Augusta das decisões do homem com quem acabaria por casar quatro anos depois.
Há ainda uma curiosa interrogação da escritora cuja origem julgo vislumbrar. Trata-se da frase «com sangue de reis nas veias». A origem do pretenso «snobismo» para que Eça, espicaçado por Carolina, despertou um dia – segundo depreende Agustina. 
Aqui convém lembrar que snobismo é, antes de tudo, uma pose caracterizada pelo empolar do próprio bem-estar material e de falsos feitos, ou de pretensas ligações familiares nobres, como forma de esconder uma evidente e (assim) bisonha vulgaridade. Utilizando o próprio bestiário queirosiano, Dâmaso Salcede e a sua muito chic coroa de conde a encimar o cartão-de-visita representam, da cabeça aos pés, o snob completo.
Thackeray não explicaria melhor. 
Assim, considerar os tiques de elegância que Eça exibia como o resultado dum seu qualquer «snobismo» parece-me um julgamento no mínimo destemperado. 
Mas há também o enigmático «sangue de reis». E é tão mais enigmático porque, certamente, AB-L não lhe confere substância pelo facto de todos os genealogistas portugueses (pelo menos os que conheço) considerarem que o nome Eça foi usado pela primeira vez em Portugal por um neto de D. Pedro I e Inês de Castro (D. Fernando d’Eça).
Não! – é evidente que a ideia da escritora deve ser bem outra, muito mais secreta e bem mergulhada nos mistérios tortuosos do real «tronco» e do romance... 
Seja como for, e considerando: que Agustina Bessa-Luís nasceu numa família de algumas posses; que não lhe é conhecida nenhuma ascendência aristocrática; mas que também não se reclama duma inequívoca extracção popular; é pois aceitável considerá-la inserida num meio sócio-cultural eminentemente burguês. 
E este estatuto assume-se por vezes no Porto como bastante anti-aristocrático.
Ou seja: é de aceitar, porventura, que o tal «sangue de reis» misturado no de um congénere de letras (e logo de tamanha dimensão) possa ser coisa para deixar agoniada uma burguesa implícita do calibre de AB-L – como poderá, bem entendido, ser o caso.
E isto também explicaria muito do que resolveu escrever no Independente.
No fim a escritora «lava daí as mãos», encerrando com uma pomposa declaração paternalista de Montaigne esta sua espécie de conglomerado de paralogias erráticas, só possível na cabeça duma pessoa dotada de alguma imaginação mas (talvez por viver num condomínio fechado da existência) muito inexperiente no palco da vida real. 
O que também acontece. 

‘Doidos e amantes’,
à falta de melhor... 

Já em meados de 2005, a publicação do romance (?) Doidos e amantes (Guimarães Editores) acabaria por provar que AB-L não deitou mesmo as mãos à tal carta misteriosa que deveria explicar em definitivo o nascimento de Eça.
Esta insuficiência – que certamente emperrou a criação duma obra de maior fôlego (algo «à Dickens», por exemplo...) – exigiria à escritora um plano de contingência que lhe permitisse, pelo menos, contar mais um pouco das historietas que ouviu a Régio.
Para tanto, aglutinou-as numa espécie de pequeno quisto caloso, improvável, que sobressai sem elegância ou préstimo na superfície plana da sua átona narrativa sobre uns certos amores incompreendidos e maltratados.
Como fonte ideal para as suas ‘secretas verdades’, Agustina saca dum tal Freirão – um alegado rei da má-língua vilacondense dos meados do séc. XX (talvez uma espécie de alter-ego de Régio) – para tornar a desenrolar as «peripécias» do seu Eça facultativo. 
Freirão regurgita um veneno vulgar, engrossado ao sol dos portais de quintais onde passa a vida a caçar pardais (percebe-se do relato de Agustina...), falando de tudo e de todos com a prontidão exibicionista dum qualquer ‘papagaio’ social – que na melhor tradição meridional deveria ser barbeiro ou cabeleireira.
Com isto permite-se a narradora ao alinhavar duma amálgama de impropérios, quer a respeito de Eça, quer dos seus ascendentes: o «avô patético»(1), a roda, as saias das burguesas onde Eça se refugiava (quanta psicologia!), o escritor em Paris, «de monóculo, como um prior no seu priorado» (os priores desse tempo usavam todos monóculo, fica-se portanto a saber...) – e até, imagine-se!, a duvidosa qualidade da sua obra –, são apenas alguns dos mimos que Freirão debita, AB-L ciosamente aponta no seu filofax mental, e eu por fim li, consideravelmente estupefacto.
A casa importante já não é a da Costa, dos Carneiro Pizarro. É da Cerca.
Mas o ‘diz-que-disse’ é sensivelmente o mesmo que espetou no Independente. Só que agora com mais uma pouca de paprika. Porque Agustina também desenterra um certo Dantas – muito calisto! – para dizer que Eça «era um diletante» e que sabia muito bem «quem lhe pagou a carreira».
É curioso ver como Agustina redimensiona e redesenha o escritor/diplomata através do tal Dantas (será o mesmo que eu imagino?...). No seu lucubrar, o nosso Dantas diz a AB-L (e a todos os que por fatalidade a leram depois) que o indivíduo José Maria Eça de Queiroz – o homem, o escritor, o diplomata – era apenas um diletante e que só entrara na carreira com a ajuda de gorda cunha.
Em relação ao diletantismo propriamente dito, não deixa de ser interessante verificar como um escritor tão prolífico como Eça constrói a sua obra: furiosamente, trabalhando sempre que pode e até altas horas, revendo provas até à exaustão (dele e dos editores) e não publicando múltiplos trabalhos por entender que não estavam no ponto certo – afinal, todo um vasto conjunto de textos publicados postumamente pelo seu filho (e meu avô) José Maria.
Convenhamos que, como mero diletante – que será sempre alguém que está na arte com ligeireza, num exercício sem profundidade ou real empenho –, Eça não se saiu nada mal. Mesmo nada! 
Quanto às queixinhas ruminadas pelo velho Dantas (sempre serviu para tudo, pobre coitado!...) sobre as putativas cunhas na carreira diplomática do romancista, só consigo lembrar o que sempre valeu por verdade dentro da família: que Eça concorreu ao cargo, obteve a melhor qualificação possível, e o governo de então ter-se-á sentido bastante aliviado por poder mandá-lo para bem longe de Portugal.
E para longe ele foi, porque o seu primeiro cargo consular seria na longínqua Cuba colonial – e não numa qualquer capital europeia bem mais habilitada a aconchegar convenientemente um diplomado em cunhas. 
Foi por ali, esquecido no meio do Caribe, no «infecto paliteiro de palmeiras» (a sua classificação para a antiga colónia espanhola), que Eça de Queiroz iniciou a carreira de cônsul de forma absolutamente exemplar.
Ou seja: se foi cunha, o escritor justificou-a muito bem – como mais adiante demonstrarei.
A concluir o dossier AB-L, resta-me uma observação sobre a relação acre que sinto nas suas ideias e juízos a respeito de Eça: parece esconder mal uma estranha e dúplice atmosfera de amor/ódio, qualquer coisa de muito – mas mesmo muito! – freudiana. Ou que o valha.
Porque considerando de boa fé que a citada senhora não é pessoa intrínseca e naturalmente malévola, torna-se então quase inevitável pensar que ela se expôs, nos seus textos sobre o escritor, como alguém tomado por um totalmente descontrolado sentimento de inveja. Visível na forma tentada e constante de ‘destruição do mito’ a que se agarra ferozmente quando decide falar dele. Talvez por desconfiar que daqui a cem anos não serão muitos os que saberão o que ela escreveu – enquanto Eça, muito provavelmente, continuará a ser lido, comentado, criticado, analisado e discutido.
Como costuma acontecer aos vultos de dimensão mundial.

E agora, seguindo o elevado exemplo da muito publicada e bastante premiada Agustina – que é também elemento frequente de júris literários e demais festividades (mas só das melhores!) –, também eu lavo daqui as minhas mãos... 

  1. É evidente que a escritora portuense nada sabe sobre o avô de Eça, o juiz-desembargador Joaquim José de Queiroz. Como tal remeto-a para o capítulo X, onde abordo a vida deste meu «patético» tetravô maçon... 

Nota do autor à edição digital:

[Já depois de publicado este meu Eça de Queiroz e os seus clones, tomei conhecimento das razões que estiveram por trás desta especulação selvática por parte de Agustina. De acordo com tal informação, a escritora portuense enveredou pela sua teoria quando soube que um médico brasileiro afirmava ir provar que Eça tinha morrido com paramiloidose – a tristemente célebre Doença dos Pezinhos. Daí a achar que o Eça era afinal filho dum pescador poveiro (a doença é endémica da comunidade piscatória e seus descendentes) foi uma questão de dar corda ao relógio. No entanto, bastava-lhe ter verificado previamente que Eça nunca apresentou nenhum dos sintomas desta doença, a qual antes de matar deforma o corpo nas extremidades. Na verdade, os estudos mais recentes da sintomatologia conhecida (porque relatada pelo escritor aos seus médicos) parecem apontar para uma igualmente grave e mortífera maleita: a doença de Crohn, uma inflamação estomacal crónica que provoca a magreza extrema e dores agudas do estômago – entre outros sintomas evidenciados por Eça no fim da sua vida.]