quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CAPÍTULO X – O «Irmão Rosa Cruz»



A matéria documental presente neste capítulo – inteiramente dedicado ao avô paterno de Eça de Queiroz, o desembargador Joaquim José de Queiroz e «façanhoso rebelde» (segundo os seus opositores) no levantamento liberal de 1828 – resultou da exaustiva recolha (e imensa paciência!) do meu sobrinho José Couceiro da Costa.
Isto aconteceu por duas razões: a sua inesgotável curiosidade por tudo o que diz respeito a Aveiro e à sua história, ao que se somou a feliz coincidência de também ele ter ligações familiares (1) a um dos protagonistas do momento histórico envolvente – um dos grandes inimigos políticos do homem que já antes apelidei de meu «tetravô maçon».
Aqui é utilizada informação coligida na obra de Marques Gomes intitulada Aveiro – Berço da Liberdade (1899, Porto – Imprensa Portuguesa), em que são citados textos de Soriano (História da Guerra Civil) e de Silva Maia (Memórias históricas, políticas e philosóphicas da revolução do Porto em Maio de 1828Rio de Janeiro, de 1841). O grande tribuno e jornalista aveirense Homem Cristo, Rocha Martins, Pedro A. Dias e vários artigos jornalísticos são igualmente citados.
A datação de alguns destes textos é de crucial importância na explicação deste capítulo – que não pretende ser apenas um relato de factos interessantes mas de sentido aparentemente desgarrado no contexto do presente livro. E é especialmente importante porque prova que Eça soube sempre muito bem quem tinha sido e o que tinha feito o seu muito íntegro e austero avô Joaquim José – com quem privou de muito perto nos primeiros anos de vida.
Comecemos pelos factos que antecedem esse longínquo e turbulento dia 16 de Maio de 1828. 
A cidade de Aveiro congregava então, nos mais variados níveis sociais e profissionais, um vasto e coeso grupo liberal – talvez o maior de todo o país – onde se incluía o grosso dos militares e patentes do Batalhão de Caçadores 10. À cabeça deste grupo, o núcleo duro da Loja Maçónica dos Santos Mártires de Aveiro – cujos membros se espalhavam infiltrados em toda a vida cívica da cidade – mantinha bem acesa a chama da revolução que inexoravelmente se aproximava. 
Pelo seu lado, o governo do infante regente D. Miguel e seus representantes acentuavam progressivamente as mais variadas manobras de hostilidade aos liberais, que culminam a 13 de Março com a dissolução da Câmara de Deputados, de que o desembargador Joaquim José de Queiroz fazia parte.
Tal acto anti-constitucional funcionaria como detonador do movimento que em Aveiro foi congeminado a partir de uma pequena mas muito importante reunião secreta. Diz Soriano: 
«O principal promotor d’esta reunião foi o desembargador Joaquim José de Queiroz. Na sua quinta de Verdemilho e de combinação com outras mais pessoas, crêmos que filiadas n’uma loja maçónica, propôs ele colligar por meio della os commandantes e officiais de vários corpos do exército, que ainda nas províncias do norte permaneciam fieis aos seus deveres, tendo até então escapado às demissões do governo de Lisboa, ou por falta de tempo, ou porque ainda não tinham chegado a Portugal os rebeldes, refugiados em Hespanha. Da referida loja fez ele expedir emissários de confiança para diversas terras do reino (...)». 
Este texto, embora pouco objectivo quanto à existência física da loja maçónica, prova o envolvimento de Joaquim José como principal dirigente no primeiro levantamento liberal contra o absolutismo português, que teimava em contradizer as correntes que marcavam a agenda política do chamado mundo mais civilizado de então – com a Europa em destaque. 
Tudo isto é também detalhadamente confirmado por Pedro A. Dias: 
«(...) Foi aqui» (em Verdemilho) «que elle traçou, e dirigiu, todo o plano, tendo por agentes principais o fiscal dos tabacos n’aquella cidade Francisco Silverio de Carvalho Magalhães Serrão, Manuel Maria da Rocha Colmieiro, tenente-coronel de milícias, e Clemente de Moraes Sarmento, sargento do batalhão de caçadores 10, que acabava de chegar ao seu quartel de Aveiro». 
  1. Tetraneto

Consensos a 16 de Maio 

À crescente arrogância dos que lutavam pela restauração do absolutismo somavam-se pelo país novas adesões à causa liberal, onde as que representavam a força das armas tiveram, por razões óbvias, especial importância. E a 14 de Maio, Francisco Silverio recebe uma carta de Rocha Colmieiro em que este lhe dá conta que Francisco José Pereira, coronel do Regimento de Infantaria 6, no Porto, «estava finalmente decidido, e que rompia à menor ofensa que sofresse um dos seus soldados». 
Nessa mesma noite, Queiroz – reunido em casa de Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima com o Silverio, José Júlio de Carvalho (comandante de Caçadores 10) e Francisco António de Abreu e Lima – conseguiu o consenso para que a revolução tivesse início no dia 16 em Aveiro, mas apenas a 17 no Porto. Porque era necessário dar tempo para que o Batalhão de Caçadores 10 avançasse para o Porto – e tal só era possível após a revolta em Aveiro, onde este corpo militar tinha a sua sede, ter sido consumada. 
O juiz desembargador Joaquim José
 de Queiroz, avô de Eça
No entanto, a revolta espontânea dos soldados de Infantaria 6 no Porto, motivada pela exoneração política do seu comandante, «fez com que o regimento saísse para a rua pelas quatro horas da tarde de 16, dando vivas a D. Pedro IV, a D. Maria II e à Carta Constitucional, e se fosse postar no campo de Santo Ovídeo, onde se lhe foram reunir nessa mesma noite infantaria 18 e artilharia 4» – afirma Marques Gomes. 
Seja como for, a revolução já se iniciara de madrugada em Aveiro, após reunião de emergência em casa de Abreu e Lima: 
«(...) Tomadas ali as últimas resoluções, saíram todos, mandando logo este último» (José Júlio de Carvalho) «tocar a oficiais. Às 7 horas estava o batalhão formado, e nas ruas principiava a ouvir-se vivas à Carta Constitucional, a D. Pedro IV e à rainha D. Maria II». 
O governador militar António da Silva Pinto, o juiz de fora José de Sousa Ribeiro Pinto, o comandante de Veteranos Luiz Estêvão Couceiro da Costa (1) e o escrivão da Câmara António José das Neves são detidos em suas casas por militares de Caçadores 10 e levados sob custódia para os Paços do Concelho. 
«Para o quartel do Carmo e a fim de desarmar os Veteranos, foi uma força de caçadores comandada pelo capitão José de Vasconcelos Bandeira de Lemos, depois visconde de Leiria, que não consentiu que fosse desarmada a sentinela, um velho soldado da Guerra Peninsular, de apelido Coimbra, que, armado apenas de baioneta, fez frente a cinco ou seis caçadores, que debalde tentavam desarmá-lo». 
  1. Com o fim da intentona liberal, Luiz Estêvão Couceiro da Costa voltou por breve tempo à actividade castrense. No entanto, uma doença incurável torná-lo-ia inapto para todo o serviço militar, acabando por ser nomeado vogal do Conselho de Guerra Permanente – funções que exerceu no Quartel General do Porto. Segundo familiares deste militar, terá sido o próprio Joaquim José de Queiroz quem, na madrugada de 16 de Maio de 1828, se dirigiu à sua quinta de Arnelas, nos arredores de Aveiro, e lhe deu voz de prisão. Curiosamente, já no lado vencedor, Couceiro da Costa fez questão de pagar uma dívida que contraíra em tempos junto do «rebelde Queiroz» – como ficaria para sempre conhecido nesta família o avô de Eça

Sem espaço no «Belfast» 

No meio de todas estas grandezas de sinal variável, a Rainha é aclamada em auto lavrado (ditado por Queiroz), e a revolução irá prosseguir a sua bem curta existência junto ao poder. Porque a intentona liberal durou pouco mais de um mês, e o absolutismo só se extinguiria realmente em 1835, após a Convenção de Évora Monte e consequente expulsão de D. Miguel de território nacional. 
De facto, a 2 de Julho do mesmo ano, a Junta Revolucionária do Porto é dissolvida e os seus membros rapidamente dispersos pelas suas necessidades imediatas. No dia seguinte, todos fugiam para Inglaterra a bordo do navio «Belfast». 
Com uma única excepção: Joaquim José de Queiroz ficara em terra. 
Naturalmente, o 16 de Maio produzira uma multidão de derrotados notoriamente descontente com a ameaça que representavam as forças de D. Miguel, as vinganças, os roubos e enxovalhos dos mais variados tipos que em breve sofreriam se permanecessem em Portugal. Rocha Martins sintetiza nestas palavras a repressão que acabaria por surgir: 
«Em todos os partidos há gente péssima ou bondosa; a exaltação política e religiosa produz sempre horrores. O medo sofrido por uns contendentes transformara-se no castigo fero a infligir aos que, na véspera, eram os vencedores». 
E se a sorte de existir no Porto um barco pronto a zarpar – logo no dia seguinte à derrota dos liberais – permitiu que os membros da Junta Revolucionária do Porto embarcassem para o país de exílio, o mesmo já não aconteceu com as cerca de 12 mil pessoas que, às cinco da manhã de dia 7 do mesmo mês, reunidas no campo de Santo Ovídeo (nas imediações de Cedofeita), iniciavam a partir do Porto uma difícil e tumultuosa fuga em direcção à Galiza
À frente de toda esta gente seguia um brigadeiro, de nome Pizarro, e o desembargador Queiroz – «o único membro dessa junta que fez causa com estes infelizes, ou porque os seus colegas lhe não permitiram passagem no “Belfast”, ou porque ele preferisse seguir antes as tropas e o povo, esposando seus trabalhos, do que acompanhar desertores, que levavam, é verdade, todas as comodidades, mas não menos vergonha» – escreve Silva Maia em 1841. 
O desembargador Queiroz já não é um homem novo (nasceu em 1774), mas acompanha o povo e as tropas vencidas na sua penosa marcha até à Galiza. Segundo Marques Gomes, dali embarcará para Inglaterra, rumando depois a França e finalmente a Ostende, na Bélgica – onde se baseia. 

Daqui enviará, em Agosto de 1830, o seu célebre protesto ao marquês de Santo Amaro – diplomata brasileiro que se dirigia a Portugal em representação de D. Pedro (já imperador do Brasil) para confirmar no trono o regente D. Miguel. O emissário brasileiro estendia tal reconhecimento a um provável casamento da infanta D. Maria (futura rainha D. Maria II) com o próprio tio, que em breve seria coroado rei – aliança que Queiroz deplora. 

Gratidão no exílio 

Como seria de prever, o novo rei D. Miguel I entende-se bem com todo o poder que o reclamado absolutismo lhe confere. 
Há enforcamentos na Praça Nova do Porto (hoje Avenida dos Aliados) e, de acordo com a sentença da alçada de 25 de Novembro de 1829, a acusação considera o rebelde e revolucionário Joaquim José de Queiroz em termos particularmente gravosos: 
«Do infame, perverso e façanhoso réu Joaquim José de Queiroz mostra-se o haver sido, não só o mais atrevido e ousado conspirador, cabeça e principal auctor das tramas e machinações que urdiram e prepararam o horroroso attentado de 16 de maio de 1828 nas duas cidades de Aveiro e Porto, mas também incansavel e poderoso agente do seu desenvolvimento e acerrimo mantenedor da sua destruidora persistência e deploravel duração». 
É pois evidente que se o desembargador Queiroz não tivesse escapado em tempo útil dificilmente se teria livrado do garrote. Assim, a sentença que sobre ele impendeu materializou-se apenas na ‘pessoa’ da sua efígie. Ou seja: na falta de réu verdadeiro, os miguelistas enforcaram um boneco – tendo o mesmo acontecido com vários outros condenados igualmente ausentes. 
Mas também os bens dos revolucionários são confiscados, e a repressão sobre os opositores resvala rapidamente para a mera vingança cruel: Teodora Joaquina de Queiroz (1), mulher do «façanhoso», é presa e afastada dos filhos. 
Sobre estes factos, Homem Cristo escreve em 1940, no jornal Povo de Aveiro, um apontamento concludente sobre tão complicado momento: 
«Os filhos ficaram ao cuidado de três servos, que o amo trouxera do Brasil, e que não foram ingratos. Aquela família tornara-se paupérrima, mas, sobretudo um criado italiano de nome Martinho, acudira-lhe». 
A casa de Verdemilho onde Eça passou a infância
A até então abastada família Queiroz via-se pela primeira vez completamente esbulhada e desmembrada, e quem chama a si a responsabilidade de tomar conta das várias crianças do casal são três escravos (ainda o eram, pelo menos formalmente) «que não foram ingratos», e um criado que – tudo indica – trabalhava para lhes assegurar sustento. 
É no mínimo uma situação de notável dedicação, para mim só explicável por via de uma atmosfera generalizada de grande respeito mútuo entre empregados e patrões. 
Entretanto, o exilado chefe desta família destroçada prosseguia a sua vida de revolucionário na Bélgica, publicando textos no Brasil e em Portugal, mas sempre afastado das tricas de refugiados que conspiravam de forma barulhenta e inconsequente, procurando no duque de Saldanha o bode expiatório para toda a derrota liberal. 
Vivendo os muitos dias de tal provação, Queiroz nunca abandonou no entanto o sonho de poder regressar à pátria. O que acabaria por acontecer nos Açores, onde, aos 56 anos, se voluntariza como simples soldado no Batalhão Académico, embarcando depois na Terceira com as forças comandadas por D. Pedro IV de Portugal e imperador do Brasil, rumo à Praia do Mindelo e ao início do verdadeiro fim do absolutismo em Portugal. 
  1. Este é o nome de casada da avó paterna de Eça, embora alguns autores a citem Almeida – uma impossibilidade, dado ser este o nome materno do marido

Espólio de maçon 

Sobre a loja maçónica dos Santos Mártires de Aveiro existe alguma descrição de pormenor: seguia os ritos da maçonaria francesa (a mais ortodoxa), e conhecem-se mesmo os nomes civis e secretos de alguns dos seus principais frequentadores. 
Assim, Luiz Gomes de Carvalho, tenente-coronel de Engenharia responsável pelas obras da barra, era o «Cavaleiro da Vingança»; João dos Santos Resende era o «Irmão Andador»; o juiz de fora Caetano Xavier Pereira Brandão era o «Interrogador»; o provedor da comarca Carlos Cardoso era o «Cavaleiro do Punhal» (responsável pela segurança da loja); o desembargador e ex-deputado Queiroz era o «Irmão Rosa Cruz» (do 7º e mais importante grau segundo o rito da maçonaria francesa); o tenente-coronel António de Azevedo e Cunha era o «Irmão Venerável» (o chefe da loja); e muitos outros nomes são certos neste grupo, tais como Luiz Cipriano de Magalhães, pai de José Estêvão
Mas realmente bem pouco foi encontrado nas instalações que serviram de sede a esta sociedade secreta – obviamente esvaziada ao máximo antes das acções de busca. 
Por outro lado, destaca-se já o espólio pessoal que foi possível apreender a Joaquim José de Queiroz. 
Acomodado numa arca que foi interceptada por agentes miguelistas, este espólio incluía bens materiais consideráveis – mais de seis contos de reis em títulos de dívida nominais e pratas diversas –, bem como alguns livros com títulos mais ou menos misteriosos. Deste conjunto, publicitado no Correio do Porto em Junho de 1829, destaco dois títulos: 
«(...) Um Caderno Regulador Maçónico de folhas 1 a 39, inteiro, em 8ª, e outro com o título seguinte: A.G. do G. do V constituição da Ordem dos LLL:.M.M.M. Portugueses, com 127 capítulos, manuscrito em 4º grande...».(1)
Textos vários, de natureza revolucionária, papéis pessoais e um hábito de Cristo compunham o total confiscado, que nunca foi devolvido – mesmo após o fim do absolutismo e das vãs promessas de devolução de bens confiscados. 
Quanto a eventuais compensações, o desembargador todas recusou – preferindo antes o ponto de honra de se manter como soldado no Batalhão Académico
Tendo desempenhado funções no Tribunal de Guerra e de Justiça e sido posteriormente nomeado por decreto presidente do Tribunal de Segunda Instância do Porto, Queiroz é confrontado em 1833 com a necessidade de abandonar o seu posto de soldado no Batalhão Académico. 
Mostro agora um excerto da sua resposta ao ofício em que o seu comandante lhe solicitava o abandono do posto militar para poder continuar a exercer os seus deveres civis: 
Mausoléu do avô de Eça em Verdemilho
«Nem este, nem aquelles empregos foram por mim pedidos, nem mesmo lembrados, mas uma escolha de confiança com que S. M. F. quis honrar-me; assim não está em meu arbitrio o deixar de servir aquelle que actualmente exerço, e me é em consequência impossivel a alternativa, que de mim se exige. (...) Todavia, se a ordem que V. S.ª me communica, emana de S. M. F., o que d’ella não collijo, cumpre obedecer, e então posto na collisão de dois deveres tão sagrados, o servir um emprego para que S. M. F. Me escolheu, mas que com as aparencias de vantajoso me põem a coberto do risco pessoal, ou ter exercicio no Corpo Academico, a que jamais me recusei, onde a minha vida sim corre todo o risco, mas um risco glorioso, eu prefiro este exercicio, e S. M. F. me Fará a Graça de desonerar-me d’aquelle, já que um e outro se julgam incompativeis». 
É este o retrato sumário do avô paterno de Eça de Queiroz. 
É-me impossível acreditar que a sua dimensão, revolucionária e humana – onde o episódio do «Belfast» assume proporções épicas –, não tenha sido do conhecimento do escritor. Como me parece igualmente improvável que tais factos não o tenham influenciado de forma perene. 
O acto diplomático de Eça em Cuba parece confirmar essa influência tutelar. Tal como a criação do personagem Afonso da Maia se assemelha muito a uma homenagem especial de um neto grato ao seu bem admirável avô. 
E foi este o homem que Agustina Bessa-Luís, na sua voragem simplista, classificou algures de «patético». 
  1. Contando com uma ou outra possível gralha tipográfica, esta sigla significa algo próximo de «à Glória do Grande Arquitecto do Universo – constituição da ordem dos Irmãos Maçónicos Portugueses»

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CAPÍTULO IX – Cônsul novato enfrenta perigosa campainha



Os factos de que me sirvo agora não são conhecidos da grande maioria do público leitor – mesmo de muito daquele que se considera fã incondicional de Eça. Utilizei-os para escrever um texto já destinado a este volume. No entanto, este acabaria por ser publicado previamente no Expresso/Actual sob o razoável pretexto de comemorar o 160º aniversário do seu nascimento. 
Pretendi com isto demonstrar a simbiose perfeita entre o romancista e o diplomata.

                                   &&&& 

O historial diplomático de Eça de Queiroz como cônsul português em Havana mostrou-me à saciedade a grande confiança que o jovem José Maria tinha, já então, na sua honestidade intelectual – característica que deverá envolver o todo do usufrutuário, desde o pensamento germinal até ao acto conclusivo ou à síntese absoluta.
A propósito do que então aconteceu em Cuba e da incidência dos vários momentos que o escritor ali viveu e provocou na sua posição de diplomata – aos 27 anos –, o seu amigo Eduardo Prado diria que ele «teve a rara boa sorte de iniciar a sua prática dos homens e das coisas por uma obra de realidade, de honra e de amor». 
A minha única dúvida a este respeito é se é exacto caracterizar o que Eça fez como um sucesso ou acaso da sorte – ainda que da melhor.
Estes dois anos épicos (porque não?) da presença de Eça em Cuba levaram-me também à arriscada conclusão de que toda a génese de O Mandarim, toda a matéria-prima dessa aparentemente simples fábula simbolista de Eça – no final de contas uma alusão à crónica luta entre o Bem e o Mal –, aconteceu e coexistiu com o escritor na sua passagem, enquanto responsável máximo pelos negócios do reino (económicos, políticos ou humanos), pela ainda colónia espanhola.
Olhemos os factos. 
Colocado em Havana em 1872, Eça enfrenta quase imediatamente um desafio singular e desmedido: opõe-se de forma radical à auto-denominada ‘Central de Colonização’ – um cartel empregador dominado pelos proprietários das plantações de cana-de-açúcar da ilha caribenha.
O cônsul português denuncia de forma veemente o tratamento infra-humano imposto às dezenas de milhar de emigrantes chineses chegados via Macau, que engrossam continuadamente as hordas de trabalhadores necessários ao funcionamento do grosso da economia cubana – e que à data rondariam as cem mil pessoas.
Com tal atitude, Eça conquistou de uma assentada uma grossa e entusiástica falange de ricos inimigos e umas quantas resmas de problemas – como é bom de ver e a seguir se confirma.
Eça revolta-se com especial ênfase contra a legislação local dirigida ao trabalhador ‘coolie’ (termo depreciativo para o emigrante chinês de então), que representa, afinal, uma armadilha sem saída: o seu contrato de trabalho – que lhe assegura, e mal, os limites da sobrevivência – é por oito anos; findo este tempo, o ‘coolie’ pode apenas voltar à China (com que dinheiro?), renovar o contrato na ilha, ou então recolher aos chamados ‘depósitos’ – autênticos ghettos abarracados, repletos de miseráveis permanentemente explorados por quem lhes fornece alimentação a preços da usura.
Quando alguém precisa de mão-de-obra, vai lá e requisita oficialmente... escravos. 
Considera o cônsul não haver «ninguém mais infeliz do que o ‘coolie’ (...) a não ser o ‘fellah’ no Egipto e na Núbia»...
Um dos seus relatórios, enviado ao ministério de que dependia, sintetiza toda a máquina viciosa dos senhores do açúcar: 
«(...) Assim o depósito é apenas um intervalo escravo entre duas escravidões». 
No seu livro Eça de Queiroz e o século XIX, o escritor brasileiro Viana Moog descreve a situação em que o cônsul português se encontrava no auge deste seu combate humanitário sob bandeira oficial:
«Em face desta situação, o cônsul Eça de Queiroz tem que optar por uma destas alternativas: ou adere à Comissão Central» (a famigerada ‘Central de Colonização’ que, actuando à margem de qualquer lei, boicotava todos os pedidos de nacionalidade portuguesa solicitados pelos ‘coolies’ junto do consulado português) «ou luta contra ela. No primeiro caso tornar-se-á rico, receberá toda a classe de considerações, sobretudo se soube de começo simular hostilidade capaz de alarmar os negociantes. No segundo caso, terá de percorrer um caminho cheio de lutas, de ameaças e dissabores». 

A fortuna a um passo 

Ou seja: o diplomata sabe perfeitamente que lhe bastaria entrar no jogo do cartel cubano do açúcar para ficar rico de vez! E que está mesmo na posição ideal para o fazer. Não fugirá, no entanto, à sua atitude idealista inicial, como refere Moog:
«Não tem dúvidas ou vacilações. Fica ao lado dos chineses», lutando «contra tudo e contra todos, em defesa da massa anónima dos oprimidos que nada lhe podem dar em troca». 
Do outro lado da barreira, irritadíssimos com aquele peralvilho armado em cônsul, espantam-se os terratenientes cubanos com a «insensibilidade de Eça em frente da fortuna e a sua inacessibilidade pelas seduções». 
E é no meio desta intensa e desigual luta de já quase dois anos – durante a qual o diplomata propôs as mais variadas alterações à legislação, emitiu centenas de certidões de nacionalidade e aturou os ódios e as mais variadas altercações por parte do governo da ilha e seus senhores – que surge em cena o marquês de Chin-Lan-Pin
Tratava-se de um elemento do conselho imperial da China em função diplomática. Ele e uma comissão por si chefiada passeiam-se por Cuba, aparentando inteirar-se das condições dos seus compatriotas emigrados. Pin faz-lhes bastas promessas e juras, assume um repúdio aparentemente genuíno com tudo o que de mal ali se passa, consegue mesmo uma grande manifestação de apreço por parte de toda aquela gente perdida no meio do Atlântico..., e consegue também que os poderosos locais lhe reconheçam autoridade total (imagina-se facilmente a troco de quê) no que concerne aos ‘coolies’. 
E com isso retira todo e qualquer protagonismo ao cônsul português que, realmente, era o único ser ali preocupado com o destino de todos aqueles paupérrimos reféns – pois era afinal do que se tratava.
Eça, que coloca mesmo a hipótese de encerrar o consulado – criando assim um incidente diplomático com Espanha –, relata a situação junto de Portugal nos seguintes termos: 
«(...) Desde que o Governo da ilha reconhece a autoridade dessa comissão, todas as questões dos colonos passam, desde logo, a ser tratadas directamente entre os enviados chineses e o Governo da ilha. Eu nem mesmo posso reclamar o direito de intervenção nos interesses daqueles colonos que têm o título de nacionalidade portuguesa, pois que o Governo se prepara para anular a validade desses títulos».
Tudo isto se passa na órbita temporal da ‘Guerra Grande’ cubana e das expectativas de independência face a Espanha, que em simultâneo atravessa o seu momento de adesão ao fim da escravatura. 
Eça sabe disto e muito mais, já que numa das várias exposições que faz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal mostra mesmo as armas de que dispõe para obrigar Madrid a aceitar as reformas que continuamente tem vindo a propor: 
«No dia em que o porto de Macau se fechasse à emigração, uma grande ruína abalaria a indústria açucareira de Cuba. Por esta razão, as exigências que impõe o Governo de S. M., serão aceites».
Depois de mostrar a ameaça com que se pode esgrimir, Eça exibe o argumento prático resultante da necessidade que Cuba tem de substituir o trabalho escravo por uma colonização dotada de leis concretas: 
«Tenho a convicção de que o governo espanhol aderirá à justiça desta reforma, posto que a nação que emancipa os escravos, não pode logicamente escravizar os colonos». 
É este o teor global da guerra pessoal que o escritor ‘comprou’ em Cuba, na sua estreia como diplomata, e que terminaria apenas quando abandonou Havana de vez. 
No seu livro Eça de Queiroz, Cônsul ao Serviço da Pátria e da Humanidade, o embaixador Mário Duarte (que foi cônsul em Havana a partir de 1945) descreve pormenorizadamente o comportamento de Eça como diplomata, destacando naturalmente aquilo que comprovou de forma documentada in loco
Ou seja: uma certa ideia de que Eça foi um banal funcionário consular, um burocrata macio e inócuo, perde com estes testemunhos qualquer credibilidade. 
Neste passo, natural é que alguém se pergunte o que é que isto tudo tem a ver afinal com o livro O Mandarim – publicado seis anos mais tarde no Diário de Portugal sob a forma de folhetim. Era algo escrito há já algum tempo, porque o escritor o entregou a um nervoso editor em substituição de uns já prometidos Maias – ainda em fase de acabamentos. 

Título misterioso na cabeça da página 

Na verdade, omiti até agora – propositadamente – a categoria social a que pertencia o plenipotenciário chinês que se cruzou com Eça de Queiroz em Cuba
Acontecia que o nosso já conhecido marquês de Chin-Lan-Pin – que nada terá cumprido do muito que prometeu aos seus conterrâneos emigrados – era simplesmente um mandarim de 1ª classe... 
E agora, já com o título fixado na cabeça da página, vamos à procura da tal campainha na qual nunca se deve tocar. 
E aí está ela, bem visível: a vil riqueza que Eça podia ter arrecadado facilmente se não tivesse feito as ondas que fez. Bastava ter fechado os olhos àquela infâmia. Bastava, enfim, ter feito soar a campainha – um gesto que certamente consideraria vulgar no ser muito poderoso e igualmente falso que se escondia sob a cabaia chinesa do oriental marquês. O tal mandarim a quem mais tarde Eça acaba idealmente os dias, no conto que escreveu com esse título, utilizando para tanto o medíocre, inconsistente e portuguesíssimo Teodoro
Há nesta personagem uma patética mas especial mistura de Fausto com Judas. Nela se vê a predestinação de quem entregou a alma e o consequente desconsolo pelo real valor de mercado que tão subtil parte do ser afinal representa: uma data de dinheiro que – vendo bem – para nada serve, porque nada satisfaz! 
Porque um homem que traiu os outros unicamente para enriquecer é alguém que não merece qualquer espécie de condescendência ou estima – nem de si próprio. 
Porque quem toca a campainha do Mandarim deixa de ser. 
A ser isto verdade, poder-se-á talvez questionar a forma estranha, fantasista, que Eça utilizou para desenvolver esta sua parábola – bastas vezes maltratada pela crítica. 
Mas quais seriam as alternativas? Construir um romance puro e duro sobre realismo burocrático no infecto «paliteiro de palmeiras», com marquês chinês e tudo? Armar um incidente diplomático perfeitamente imprestável ou até pernicioso? E porque não escapar antes, por momentos que fosse, à «impertinente tirania da realidade»? – como explica no prefácio à edição francesa da mesma obra... 
Para coroar esta (talvez) mirífica versão d’O Mandarim com Cuba em pano de fundo só falta recuar no tempo até ao momento em que Bernardo Pindela, chegado de Macau (pois!, de onde vinham os pobres ‘coolies’) no final duma missão diplomática ao serviço do rei D. Luís, oferece ao seu amigo José Maria a bela e sedosa cabaia mandarinesca – que hoje faz parte do espólio do escritor reunido na Fundação Eça de Queiroz/Casa de Tormes
O já então conde de Arnoso (o título é-lhe concedido em 1885, quando se torna secretário pesoal do rei) conhecia bem a saga vivida por Eça em Havana, pelo que a exótica oferta vem acompanhada de ironiazinha privada: «Não tocaste a campainha do Mandarim e, como tal, a riqueza que ofusca não te bateu à porta. Mas deixa lá que ele morreu na mesma. Como prova disso trago-te aqui a sua cabaia mais rica!» – atira Pindela, jactante.
E Eça, sorridente, e depois do apertado abraço amigo, rabujaria com humor: 
«Ora!, Bernardo, onde tenho eu sobretudo uma pança, para encher estas pregas amplas e mandarinais?»(1). 
Obviamente que não foi este o cenário coloquial do episódio da cabaia importada de Macau por Bernardo Pindela
Mas podia perfeitamente ter sido. 
Faria sentido. 
  1. Trecho retirado de uma carta em que Eça se refere à prenda de Pindela nestes exactos termos 
Dois últimos pormenores 

Posteriormente à publicação deste texto no Expresso/Actual, decidi escrever para esta edição uma breve adenda onde sublinhava os factos que me induziram a ideia original. 
Curiosamente, e quase em simultâneo, o contacto que estabeleci com uma investigadora destes aspectos da História confirmaria cabalmente, com traços ainda mais vincados, a enorme justiça e rectidão que Eça empregou neste episódio da sua vida profissional. 
O que me levou a pensar que Eça teve efectivamente um confronto moral com a simbólica «campainha do mandarim» – quem sabe se não sentindo mesmo o aguilhão monstruoso da ganância e do dinheiro fácil, que chegaria a rodos mediante uma sua indiferença estratégica para com o destino dos ‘coolies’ –, é a declaração final de Teodoro ao seu leitor, «criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão». 
Depois de legar a sua fortuna maléfica ao próprio Diabo, a personagem que se apresta por fim ao confronto com a morte confessa um estranho consolo: 
«Que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu (leitor), tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões (...)». 
O diplomata/escritor sabia perfeitamente a quem se dirigia: a todo aquele que, numa situação semelhante à sua, teria optado pelo outro lado da barreira – ou seja, o dos comerciantes de açúcar da antiga colónia espanhola. E sabia também serem muitos os candidatos a tal lugar: no mínimo tantos quantos os mandarins de toda a imensa China. 
Como que magicamente, por via de contacto estabelecido com a investigadora Maria Teresa Lopes da Silva – que na altura terminava a sua tese sobre a emigração chinesa através de Macau para Cuba e Peru (entre 1851 e 1874) –, foi-me confirmado o importante papel de Eça na denúncia do que se passava em Cuba com os chineses. 
Mas tal confirmação vinha acompanhada de informação que considero crucial para se perceber bem a dimensão da atitude do então jovem cônsul português. De acordo com a investigadora, «o cônsul Fernando de Gaver, que instalou e geriu o consulado de Portugal em Havana entre 1851 e 1872,» – imediatamente antes de Eça, portanto – «era parte interessada neste negócio».

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CAPÍTULO VIII – Retratos dispersos do jovem José Maria








Tendo em conta que este foi um dos últimos textos que escrevi para o presente trabalho a respeito de Eça de Queiroz – mais não seja pelo facto de entender, para já, não me sentir habilitado a ir mais longe –, bem depressa reparei que tinha deixado o mais complicado para o fim.
Nenhum outro capítulo – e poucos surgiram pela ordem que agora ocupam – demorou tanto a ter o seu início fixado.
Atribuo as culpas de tão complicado ‘parto’ a dois aspectos que estão seguramente interligados – embora algures, em parte incerta. 
Em primeiro lugar houve da minha parte um certo pudor, pouco explicável, que me incomodava por me dizer nas ventas que ia pôr-me a falar sobre algo de que pouco sabia – facto que já antes acontecera, mas sem produzir tais complexos. Depois, para complicar um pouco mais o meu esboço, entreviam-se na mesma página em branco, como fantasmas de anteriores tentativas, os esquissos e os gatafunhos mais ou menos em desordem que outros um dia fizeram a propósito do mesmo assunto.
Sobrepostos uns por cima dos outros, estes traços, finos ou grossos, mostravam apenas um escuro novelo de linhas deformantes, como se muitos lápis e canetas por ali tivessem andado, sofregamente, em busca de uma imagem real – ou, pelo menos, da mais credível das imagens.
O que, afinal, era também o meu objectivo.
Decidi-me então por uma experiência de auto-indução: dotado de quase nulos dotes de retratista, propus-me executar em grafite e carvão um desenho do escritor a partir exclusivamente do modelo que possuía na memória. 
Não pretendendo uma imagem simétrica do seu rosto – nenhum rosto é simétrico –, rapidamente me dei conta da notória discrepância de tipos existente entre as duas metades que o compunham no meu desenho. 
Mais adiante era a boca – muito pequena –, depois o nariz estava torto (e não adunco, como deveria ser...). E a seguir, ainda, a cara – que estava comprida e a cabeça pouco oblonga, quando deveria ser ao contrário! 
Finalmente batido, decidi-me a observar uma boa fotografia do escritor para assim estabelecer alguns termos de comparação entre o real e o imaginado.
É claro que as diferenças com o original eram muitas: dum lado parecia mais novo; por outro, o seu olhar irónico entrava em conflito com um bigode tristonho; noutro ainda, chegava mesmo a mostrar uma irreprimível inocência. 
Ali, no meu desenho, misturavam-se épocas, momentos, sentimentos e estados de espírito, dúvidas e certezas – e até mesmo outras pessoas correlacionadas (como os pais e a filha, por exemplo). 
Mas já que tinha ido até ali, decidi terminar o retrato – e a experiência sempre serviu para qualquer coisa. Não ficou famoso – mas dá uma ideia. 
Seja como for, esta complicada aventura pictórica teve o condão de me autorizar a tentar uns quantos retratos mentais (e também físicos) do meu bisavô. 
Não sem muita ajuda – diga-se de passagem. E com a certeza de que, à semelhança do que acontecera com o meu desenho, mais não conseguiria do que umas quantas semelhanças e aproximações.

Um rapazinho pouco falado 

De novo me encontrei face à carência de informações familiares, que numa situação normal não deixariam de existir, vindas mesmo de muitos quadrantes.
O jovem José Maria
Mas, como já se sabe, a situação não fora realmente normal. Especialmente numa época em que a bastardia era – ao contrário do que pensa José Hermano Saraiva – uma situação muitíssimo constrangedora (embora relativamente vulgar). No caso de Eça, tal constrangimento não pesava apenas sobre o próprio – como facilmente se percebe através dos factos conhecidos. 
Sabe-se que Eça viveu parte da infância com os avós paternos, em Verdemilho – o que suscitou sem dúvida a sua célebre auto-caracterização de «autêntico peixe da Ria». E que as residências das tias Pereira d’Eça, no Porto e em Viana do Castelo, o acolheram por diversos períodos de férias. 
Diz Tomás d’Eça Leal que numa dessas estadias chegou a namoriscar uma sua prima direita – no que terá contado com a oposição radical, quase feroz, do pai da dita menina (que era Pereira d’Eça pela mãe). 
Mas, fora umas magras memórias e seus relatos difusos, não existem dados sobre o seu comportamento ou feitio, as manias, os divertimentos e tropelias que todas as crianças ou adolescentes exibem de alguma forma e em vários momentos da sua ainda curta vida. 
Todo este vazio de informação mostra de alguma forma que, daquele rapazinho, não era costume falar muito – o que é revelador do incómodo que a sua situação, concretamente a familiar, continuava a causar. 
E a verdade é que este solitário jovem passou grande parte da adolescência num colégio interno, na cidade do Porto (o Colégio da Lapa), sem ir de férias a casa dos pais e irmãos – que chegaram a viver na mesma cidade e a escassas centenas de metros de distância do seu internato. 
O instantâneo mais objectivo da sua adolescência é feito por aquele que haveria de se tornar num dos seus maiores amigos – e também, por consequência, um dos seus grandes cúmplices intelectuais: Ramalho Ortigão
Ao referir-se a Eça, aquando da sua entrada para o Colégio da Lapa, no Porto, de que o seu pai era director, a «ramalhal figura» faz sobressair o olho bem aberto, «atento a tudo» – característica que atribui à generalidade dos filhos bastardos. Porque, se na verdade Eça deixara oficialmente de o ser no momento em que os pais casaram – e mais ainda depois, em Coimbra, quando começou também a usar nome da mãe (à semelhança dos seus irmãos) –, o facto é que o escritor fora efectivamente bastardo por via da relação pré-matrimonial dos pais. 
Eça só deixou oficialmente de ser bastardo pouco antes de casar, em 1886, quando pediu a Carolina Pereira d’Eça de Queiroz que assinasse os documentos que, de uma vez por todas, eliminariam o desagradável estatuto de «filho de mãe incógnita» que o acompanhava desde sempre. 
Mas, é claro, a marca do filho não desejado ficou. 
Presumo que tão tardia correcção deste aspecto formal se tenha ficado a dever a uma certa preguiça instalada relativamente a actos oficiais de teor tão incómodo (um deixar isso para mais tarde...), ao que se poderá juntar certamente o lento processo de real assunção vivido por Carolina Augusta. 
Por fim, o tempo acabaria por «acalmar tudo» – mesmo aquilo que a mãe de Eça, por muitos anos, não permitiu ver acalmado. 

A amizade de uma vida 

Há uma imagem que Eça transmite de si próprio que não pode ser escamoteada.
Ela surge no coração e na cabeça do jovem estudante de Direito que, em plena noite coimbrã, descobre pela primeira vez aquele que haveria de ser para sempre (e sem interrupções) um dos seus mais importantes e venerados amigos: o filósofo, o poeta, o idealista, o «santo» Antero de Quental
Antero de Quental
Este encontro casual – porventura inevitável –, foi na realidade uma autêntica descoberta para o futuro romancista. É um dos primeiros contactos dele com o idealismo que, por várias formas, o foi acompanhando pela vida fora. Tratava-se então do mais puro idealismo seminal, e não de uma qualquer ideologia germinal absorvida em Voltaire ou Proudhon, como o foi o socialismo que ambos acompanharam a espaços e de maneira diversa.
Eça viu em Antero (e julgo que nunca mudou de opinião) o arauto imutável da verdade, o coração mais aberto, amigo e honesto que alguma vez conhecera. O poeta açoriano funcionou, ele próprio, como uma obra de arte suprema perante os olhos ainda encandeados daquele iniciado recente. 
E o escritor recorda esse momento na abertura do seu in memoriam dedicado ao velho amigo. 
Recuando no tempo, Eça lembra a noite em que, no Largo da Feira, em Coimbra, vira «sob as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela Lua, que nesses tempos era romântica, um homem, de pé, que improvisava». 
A pequena mas atenta audiência de estudantes deixava-se hipnotizar por aquele «bardo dos tempos novos», que assim ia «despertando almas, anunciando verdades. O homem com efeito cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura (...)». 
Depois vieram a proximidade e a camaradagem próprias de tal química, sempre bem alimentadas pela grande curiosidade intelectual que Eça nutria em relação ao novo e singular amigo e às suas ideias enormes. 
A par desses momentos de alegria generalizada e grande êxtase estético e intelectual, ocorria também em Coimbra uma forte renovação cultural sustentada no permanente acesso a obras de autores como Hugo, Heine, Baudelaire, Nerval, Hegel, Michelet, Darwin ou Poe
Com a chegada dos caminhos-de-ferro à Península, «rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (...), torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários... Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo» – recorda o escritor. 
Tal caldeirão mental haveria de produzir efeitos de vária natureza – incluindo política: Garibaldi era o Che desses tempos que corriam encantados, e o anarquismo de Proudhon somava adeptos – materializados em grupos circunstanciais de estudantes que iam «ganindo a marselhesa» em marchas ruidosas e levantamentos pontuais. 
E «o ar de Coimbra, de noite, andava fremente de versos»... 
Eça vê em Antero a imagem do académico «revolucionário e racionalista», a mover-se com grande liberdade no seio de uma «Universidade ultraconservadora e ultracatólica», que «era não só uma escola de revolução política, mas uma escola de impiedade moral». 
E relata o mítico e incerto momento em que o poeta/filósofo, numa noite de forte tempestade eléctrica, «de relógio na mão, intimou Deus a que o partisse com um raio, dentro de sete minutos, no caso de existir»... 
Antero representou para Eça – e não só para ele – o cume da autoridade moral e da bondade em «constante aperfeiçoamento». 
Mas era também «o erudito pessimista», onde sempre coexistiu um inocente. «A justiça era nele ingénita. Assim era a verdade» – sintetiza o escritor. 
Também «o claro riso dos heróis» – «um riso generoso do ser que ama todos os seres» –, com que aquela espécie de irmão mais velho frequentemente se manifestava, nunca foi esquecido. Como também não o foram as ciclópicas dúvidas existenciais que, trinta anos mais tarde, acabariam por levar esse amigo tão especial – que «era um génio e era um santo» – ao suicídio. 
Foi pois com Antero de Quental que Eça de Queiroz conheceu o idealismo em plena actividade. 
Tal marca perdurou para sempre no íntimo do escritor. 

O bárbaro prosador 

Depois de Coimbra, Eça atinge uma idade em que a sua dimensão pessoal começa a ser episodicamente notada.
Vive agora em Lisboa – e finalmente com a sua família.
Jaime Batalha Reis
Tem um diploma de bacharel, mas passa a vida metido em jornais. Comporta-se como um dandy, veste-se de forma extravagante (mesmo para a época), levanta-se bem tarde e ceia lá pelo amanhecer. 
E se por momentos tenta o escritório, bem mais o tentarão a discussão criativa e a escrita – que chega caótica, por vezes rude, mas em torrentes contínuas. 
O retrato mais característico do José Maria chegado à idade adulta fê-lo de forma magistral Jaime Batalha Reis (JBR), no prefácio à edição póstuma de Prosas Bárbaras
A cumplicidade intelectual e a grande amizade que nasceu entre os dois é aqui descrita não só com graça superior mas também com um grande rigor documental. 
Entre outras coisas é um testemunho íntimo da Geração de 70
O primeiro contacto entre ambos deu-se numa altura em que Eça já publicara uns quantos folhetins, em ritmo mais ou menos incerto, na Gazeta de Portugal
A descrição de Batalha Reis, relativa a 1866, é demasiado divertida para ser truncada: 
«Uma noite, junto da mesa onde escrevia o Severo» (um velho redactor da Gazeta), «vi uma figura muito magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça pequena e aguda, que se me mostrava inteiramente desenhada a preto intenso e amarelo desmaiado. Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até à barba, uma gravata alta e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lívidas e magríssimas, o cabelo corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa triangular, ondulante, na testa pálida que parecia estreita, sobre olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito negros. Um bigode farto, e também muito preto, caía aos lados da boca grande e entreaberta onde brilhavam dentes brancos. As mãos longas, de dedos finíssimos e cor de marfim velho, na extremidade de dois magros e longuíssimos braços, faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéu de copa alta e cónica, mas de feltro baço, como os chapéus do século XVI nos retratos do Duque d’Alba, de Filipe II de Espanha, ou de Henrique III de França.
Era o Eça de Queiroz». 
A imagem de avis rara um pouco agoirenta que JBR aqui descreve mostrava-se nervosa, e contava «o que quer que fosse a um tempo trágico e cómico (...), dando a espaços gargalhadas (...) curtas e sinistras». 
Já fora do jornal, Batalha e Eça procuraram onde jantar. Depois «passámos a noite juntos, e desde então, por anos, não nos separámos quase». 
Há um aspecto notável neste encontro objectivamente fortuito. Pois – à semelhança do que acontecera antes com Antero – também aqui tudo resultou numa amizade para a vida. E Eça fez, de várias formas e em vários momentos, muitos amigos deste calibre. 

Superstições, manias e experiências 

Auto-caricatura de Eça
«Sou eu e os meus abutres: vimos criar, devorando cadáveres!» 
Eis como José Maria se apresentava, já tarde, em casa do seu amigo Jaime, fazendo prever uma noitada movida a litros de café e varrida por farta ventania filosófica, que fatalmente terminaria numa ceia quase matutina frente a um bacalhau de cebolada e duas garrafas de Collares – algures num tasco escondido de Alfama
Mas este novo amigo de Batalha Reis tem várias manias! 
As correntes de ar aterrorizam-no como o silvar uivado da pneumonia, e sistematicamente interrompe a escrita para lavar a ponta dos dedos – como precaução contra eventuais infecções microbianas... Mostra um comportamento um pouco hipocondríaco, e é muito supersticioso nos actos mais vulgares. 
Explica então: 
«É preciso obedecer com fé e sem exame às leis subtis das coisas. Ninguém sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos acontecimentos e o mistério complicado dos Fados». 
Os dias virados em noites multiplicam-se na relação entre JBR e Eça, habitualmente entremeados por ceias matutinas para as quais nem sempre há dinheiro e em que muito se improvisa. Até o dinheiro. 
No mesmo texto, Batalha Reis discorre no tempo e nas suas circunstâncias – as tendências artísticas, as influências que o futuro escritor então assimilava, as peripécias em que ambos se metiam, a criação do Cenáculo –, descrevendo pelo meio algumas experiências com hachisch
Tais experiências tinham então como precedente mais conhecido o de certa intelectualidade parisiense, com destaque para os poetas Charles Baudelaire e Teophille Gautier
E é em 1869, quando Eça de Queiroz e Luís de Castro Pamplona regressam da sua viagem ao Egipto – onde tinham assistido à inauguração do Canal de Suez –, que o hachisch entra na casa que Batalha Reis e Antero de Quental (integrando já o Cenáculo) dividiam em S. Pedro de Alcântara
A descrição que JBR faz da súbita aparição de Eça é de tal ordem que, como já antes aconteceu, só me resta transcrevê-la na íntegra: 
«Trajava uma longa sobrecasaca aberta de cuja botoeira saía, com coloridos, um enorme ramo de flores; cobria-lhe o peito, em relevo, um plastron que nos pareceu imenso, sobre o qual se erguia um colarinho altíssimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os botões uniam pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande parte das mãos metidas em luvas cor de palha. Vestia calças claras, arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas pintas amarelas e sapatos muito compridos, ingleses, de polimento. Tinha na cabeça um chapéu alto, de pelo de seda brilhantíssimo. E olhava-nos com um monóculo que lhe estava sempre a cair e que ele, por isso, abrindo a boca em esgares sarcásticos, amiúde reentalava junto ao lacrimal do olho direito. Abraçámo-lo com entusiasmo – e cobrimo-lo com epigramas». 
Imagina-se a pose de Eça – que toda a vida foi um elegante –, já então reveladora da sua propensão para uma certa mania das grandezas, onde o principal opositor seria sempre uma irredutível e intermitente magreza de fundos. 
O recém-regressado conta agora aos amigos as suas aventuras pelo Oriente, as características e tipos das terras visitadas, «os guias, os cheiks, e à noite, em volta das fogueiras, os camelos “de expressão humorística, sorrindo ironicamente” e alongando as cabeças para escutar o narrador, por sobre os ombros dos beduínos atentos, graves e encruzados. Analisou, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso do hachisch, e as visões fantásticas que nos preparava – porque ele e o conde de Resende haviam-nos trazido hachisch misturado a geleia, a bolos, e a pastilhas que se fumavam nuns cachimbos especiais». 
Luís de Castro Pamplona e Eça 
À semelhança de muitos outros intelectuais, Eça não deixou de experimentar os chamados paraísos artificiais que Baudelaire imortalizou em Du vin et du hachisch
Experimentou ele e trouxe também para os amigos – como é costume nestas coisas. 
No entanto, todas as excentricidades e esquisitices reveladas então pelo futuro escritor parecem apenas esconder uma personalidade peculiar que nada tem de contraditória – simultaneamente espalhafatosa e muito criativa. 
Em Évora faz um jornal quase por inteiro; com Ramalho Ortigão publicou O Mistério da Estrada de Sintra e o maior enxovalho à política nacional sob o título de As Farpas; finalmente, já em Leiria, onde foi administrador de distrito, congeminou O Crime do Padre Amaro
Ou seja: cedendo ao exterior uma imagem bastante exótica e por vezes algo estranha – provavelmente compulsiva e certamente pouco compatível com a ideia feita na época sobre a dignidade credível –, Eça revelar-se-ia rapidamente um homem para muitas obras. 
E até mesmo para grandes causas – como posteriormente se verá. 

Rindo-se muito, até de si próprio 

Como apontamento final a este retrato provável, entendo ser muito natural existirem leitores de Eça que desconhecem certos aspectos específicos do humor deste indivíduo singular, que conseguiu elaborar livros tão pesados como Os Maias, O Primo Basílio ou O Crime do Padre Amaro, e outros tão divertidos como A Relíquia ou tão belos como A Cidade e as Serras.
E admito mesmo que algum desse desconhecimento derive directamente de biografias deficientes ou da bravata redutora de pretensos conhecedores profundos do escritor e de toda a sua vida e obra.
Um dos exemplos mais interessantes desse humor subtil, que o escritor utilizava na generalidade da vida e nos mais diversos momentos – como testemunharam amigos, familiares e várias outras fontes –, sobressai na descrição que faz de João da Ega quando este visita o amigo Carlos da Maia no seu consultório do Rossio, chegado da Foz do Douro e da órbita sensual de madame Cohen
A meu ver, em Ega dá-se um caso verdadeiramente estranho, especialmente para quem o tenta perceber à distância de mais de um século. 
Trata-se da impossível apropriação, por parte do escritor, duma imagem que ainda não tinha sido exibida à data da publicação do seu romance mais celebrado. Refiro-me às descrições que Jaime Batalha Reis faz do seu amigo José Maria no prefácio às Prosas Bárbaras, que atrás citei, e que foi escrito três anos após a morte de Eça. 
Comecemos então pelos preparos elegantes e de exagerado espalhafato com que Ega se apresenta a Carlos, no final do capítulo IV de Os Maias: 
«Por aquele sol macio e morno de um fim de Outono português, o Ega, o antigo boémio de batina esfarrapada, trazia uma peliça, uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tísico uma rica e fofa espessura de peles de marta». 
A descrição prossegue, aqui e acolá, a espaços, até ao fim do capítulo: 
«Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e, de monóculo no olho, examinou o gabinete». 
Mais adiante, reagindo o visitante ao calor excessivo que começava a sentir, «desembaraçou-se da opulenta peliça, e apareceu em peitilho de camisa». 
Já despido «da majestade que lhe dava a peliça, o antigo Ega reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mefistófeles em verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes frases, numa luta constante com o monóculo, que lhe caía do olho, que ele procurava pelo peito, pelos ombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. (...) Discutiam o naturalismo, Gambetta, o niilismo; depois, com ferocidade e à uma, malharam sobre o país...». 
Relendo o texto em que Batalha Reis relata o seu primeiro encontro com o futuro romancista, na redacção da Gazeta de Portugal, bem como a chegada de Eça da sua viagem ao Egipto, é imparável a tentação de apontar várias semelhanças físicas entre estes velhos instantâneos do escritor enquanto jovem e a personagem literária João da Ega. 
As roupagens não são exactamente as mesmas, mas quem as veste é igual a Eça: o «pescoço esganiçado e os pulsos de tísico», os «gestos aduncos de Mefistófeles» e o «sapato de verniz muito bicudo» compõem a imagem de alguém que cruza a sala com movimentos largos, «como se fosse voar ao vibrar as suas grandes frases, numa luta constante com o monóculo, que lhe caía do olho»... 
O escritor constrói a personagem exótica que Ega é, mas que é simultaneamente o jovem Eça mostrado por Batalha Reis: uma espécie de figurante principal na trama d’Os Maias, que ali se move comicamente e com muito estardalhaço – mas sempre na esfera da intimidade mais próxima do seu principal actor, como que vigiando-o. 
Imagino que, tal como eu, muitos serão os leitores desta obra que encontram mais semelhanças do escritor em Ega do que no futuro amante incestuoso – o quase introvertido e muito rico enfant gâté Carlos da Maia. 
Porque o romancista incorpora o sentido do cómico e do ridículo – que conhecia e explorava como ninguém – menos nas suas personagens centrais do que noutras que, sendo laterais (mas nunca periféricas), se apresentam por vezes num tom caricatural notoriamente autobiográfico. 
O escritor, detectável em Carlos da Maia unicamente por via do drama inequívoco do filho abandonado em criança pela mãe, serve-se de Ega como contraponto divertido à densidade por vezes sombria do conjunto do livro. 
Mas também, e claramente, para rir-se de si próprio. 
Esta é para mim a característica menos portuguesa de Eça. E talvez uma das maiores vitórias da sua personalidade. 
A propósito da capacidade de rir de si próprio – que nós, os latinos, atribuímos em especial aos ingleses –, vou novamente cair na tentação de estabelecer paralelos que, porventura, alguns acharão abusivos. 
Mas como é uma tentação não há nada a fazer. 
Refiro-me ao livro A Relíquia, que para o fantástico mas muito sisudo Fernando Pessoa terá sido a pior obra de Eça de Queiroz
Vale a pena lembrar o que disse Harold Bloom sobre este livro. Para ele, o romancista português conseguiu ali algo de verdadeiramente inédito: 
«Ele juntou Voltaire e Robert Louis Stevenson num único corpo, e deu-nos um romance genérico que é também uma soberba sátira, um triunfo único da literatura». 
Como esta obra representa o meu primeiro encontro privado com o meu bisavô escritor, não posso estar mais de acordo com a opinião do crítico americano. Porque, com a pouca idade que então tinha, A Relíquia foi realmente o primeiro livro que me fez rir a sério. 
E concluindo aqui a minha proposta sobre o humor do escritor – mas desta vez numa personagem bem central –, só posso acrescentar que não é muito difícil encontrar algo de Eça no malandríssimo, bastante despistado e muito divertido Raposão.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CAPÍTULO VII – A alternativa mais radical

A abordagem de um novo rumor mal disfarçado – que me parecia especialmente temerária por decorrer num território só efabulatório e pouco cartografado (a bem dizer nada cartografado, pois trata-se de considerando post-mortem) –, acabou por se simplificar repentinamente quando me apercebi de que todos os boatos sobre uma suposta homossexualidade do escritor se resumiam, no que lhes era nuclear, à extrapolação velada que João Gaspar Simões produziu no capítulo VII (‘Plenitude’) da sua monumental biografia crítica (ou ficção psicológica datada) sobre Eça.

Tudo nascia ali e ali morria, exibindo uma grande incapacidade de se sustentar como argumento.
A revelação deste facto ficou a dever-se em boa parte ao acaso, que sempre me tem protegido neste animado e por vezes escorregadio périplo.
Mas torna-se aqui necessário fazer uns parênteses, em tudo semelhantes aos que fiz a respeito das divergências sobre a filiação de Eça: se tal hipótese fosse minimamente aceitável – porque apoiada em alegados comportamentos ou, pelo menos, em vagos testemunhos –, só me restaria então encarar tal possibilidade, reflectindo talvez ainda mais maduramente sobre coisas tão diferentes como o são os estranhos caminhos que a vida toma e o indiscutível apreço e amizade verdadeira que nutro por alguns homossexuais assumidos.
Dado que actualmente poucas ou nenhumas dúvidas se me colocam sobre tal assunto, sobra a madura reflexão anteriormente proposta na segunda alínea agendada.
De qualquer forma, também essa reflexão já se deu – e há muito.
Quero com isto dizer que não me move qualquer sentimento de homofobia, mas tão-somente uma grande raiva para com aqueles que pretendem forçar tal nota apenas com o intuito de mostrar a sua própria e soberba sagacidade – independentemente da bondade dos métodos ou da firmeza dos juízos utilizados para chegarem a semelhante conclusão.
Trata-se de gente a quem não interessa especialmente a obra do escritor, mas antes este enquanto objecto de esbulho fácil. Possivelmente crêem estes ‘detectives do passado’ que, procedendo a tão barulhentas exumações, lhes sobrará sempre no meio do cotão das bolsas alguma da poalha das estrelas que se supõe ter impregnado o ambiente em que os seus ‘investigados’ um dia se movimentaram.
O que é um péssimo motivo.
Curiosamente, cheguei à evidência dos factos por via do paupérrimo comentário à propos que Maria Filomena Mónica (MFM) produziu na sua análise aos escritos de Eça sobre o Egipto (in Eça de Queirós, edição Quetzal).
Aconteceu que o meu amigo e confrade Joaquim António Gonçalves Guimarães disse-me um dia – durante uma reunião da Confraria Queirosiana, como sempre realizada na Casa de Cultura de Gaia/Solar Condes de Resende, de que é curador – que o tal comentário de MFM seria completamente despiciendo quando comparado ao que o professor e escritor José Rentes de Carvalho (JRC) sabia sobre o tema.
Conhecendo já muito bem o pouco (ou melhor: o nada) que Filomena Mónica lograra garimpar sobre o assunto – e mesmo assim entendeu ser suficientemente válido para integrar o seu livro sobre o escritor –, resolvi contactar o citado professor, pedindo-lhe informação concreta.
A resposta rápida veio pelo correio, remetida da Holanda (onde JRC vive e trabalha), e na forma de dossier completo copiado directamente da sua matriz informática.
Afinal tratava-se simplesmente dum comentário que o próprio Rentes de Carvalho produzira num texto em que apresentava Eça, sob a forma de introdução à recente edição da obra do romancista português na Holanda.
Em dado ponto da sua muito completa apresentação – onde Gaspar Simões é sobejamente citado na condição de «maior biógrafo de Eça» –, Rentes de Carvalho positivamente exulta ao declarar «a homossexualidade de Eça!» (com ponto de exclamação e tudo).
Releio para trás, avanço bem para a frente, e... só há referências ao livro de JGS. 

Do romance flop
à biografia ficcional

E que referências! Veja-se na última página da terceira parte (Os Maias, capítulo VII):
«De facto, Eça de Queirós, que (...) salvara das ruínas da sua vida emocional alguém condenado desde a infância a uma perversão dos sentidos só saciável na vida sensual, e numa vida sensual condenada pela sociedade, pudera tomar à conta de romantismo aquela profunda verdade proferida pelo seu amigo Ega». Ou seja: o que dá «sabor e relevo à vida» é a paixão. E é numa difusa e desequilibrada simbiose entre Ega e Carlos da Maia, criada a partir de um Eça retintamente seu, que JGS fundamenta a sua sentença minimalista sobre o todo do escritor:
«Eis como Os Maias, muito mais que um romance de crítica social, são como que um inventário de toda uma vida, de toda uma acção».
Trata-se, diz o ensaísta, de «um juízo sobre a sua própria existência de homem e de escritor. Como homem, julgou-se nela um romântico, porque a única coisa que nele era paixão – o amor sensual anómalo – a razão não lho consentia; como crítico de costumes e agente civilizador, condenou-se a si mesmo, em vista da degenerescência da civilização que ele apontara como salvadora aos portugueses...».
Comecemos pelo fim, que é um ponto tão bom como outro qualquer para começar. 
Então Eça apontou a «degenerescência da civilização» como a salvação dos portugueses? N’ Os Maias, n’ O Crime, em Basílio, a degenerescência civilizacional salva alguma coisa ou alguém? Estranha conclusão esta.
Porque me parece bem mais razoável ter Eça reparado no atraso continuado e persistente do país, e ter daí concluído uma inevitável e concomitante resultante: se o desenvolvimento e a civilização demoravam a chegar a Portugal, então também as muitas chagas que lhes estão associadas (que ele já muito bem conhecia) só atingiriam o país mais tarde e com resultados práticos mais suavizados.
O que – relativizando os acontecimentos aos tempos de globalização que agora correm – continuou a suceder desta forma até há bem pouco tempo.
Mas mais curiosa é a certeza simonesca de que Eça estava condenado à nascença a «uma perversão dos sentidos só saciável na vida sensual» – e, inevitavelmente, numa vida sensual «condenável pela sociedade», numa «sensualidade anómala» que a razão nunca lhe permitiria pôr em prática!...
Com isto fica-se a saber de uma vez por todas – e afinal à boa maneira de muito amante da psicologia para principiantes – que qualquer ser humano com atribulações de índole maternal (sejam de que natureza forem) está irremediavelmente condenado a uma sensualidade anómala (o mesmo que sexualidade socialmente condenável - conceito que naqueles tempos inscrevia exclusivamente a homossexualidade).
Ao pobre Édipo não bastará portanto mutilar-se, furar os olhos: é obrigado também a ser homossexual – sem possibilidade de excepção ou escolha! 
E é isto o que Gaspar Simões afirma.
desenho de Pedro Pimentel
Depois, seguindo tão arrasadora lógica – e dando-se o possível caso de haver sérios pruridos pessoais por parte deste predestinado da sociedade e da Natureza (e mais ainda de JGS!) –, o dito homossexual em potência esconder-se-á sine die no respectivo armário, vingando-se em seguida do destino com autêntico instinto predatório sobre tudo o que represente o elo afectivo e sexual mais corrente: a mulher!
Haja pois uma saia no horizonte e lá estará um homossexual encapotado (ou muitos mais) a exercitar sedução em catadupas e – horror dos horrores! – consumando conquistas...
Daqui à justificação para as múltiplas namoradas e amantes de Eça – «que gostava de espanholas», como muito bem se lembra o ensaísta (e porque obviamente o Cruges lho soprou ao ouvido!) – vai um passo muito curto.
Está tudo explicado: Eça apreciava sexualmente as mulheres porque – lá bem no fundo – era homossexual! Mais ainda: o psicografado de JGS alardeava o seu gosto por mulheres apenas para não ser mal visto socialmente...(1)
Haverá maior estreiteza de horizontes? Ou será que o ensaísta apenas afirma subliminarmente que todos somos um pouco homossexuais – com ele fatalmente incluído?
Mas estas são dúvidas que já não é possível averiguar – pelas razões mais óbvias.
Neste contexto não deixa de ser interessante a história pessoal de Gaspar Simões.
Foi um literato com vários interesses e apaixonou-se irremediavelmente pelas doutrinas de Freud, que ao tempo (anos 40) faziam grande furor. A tal ponto isso foi assim que JGS abalançou-se por fim a escrever aquele que, por breves momentos, foi apresentado como o primeiro romance psicológico português. Passe a ridícula presunção (é caso para perguntar se a obra de Eça não tem nada de psicológico), Elói – ou Romance numa cabeça foi um fracasso: não vingou.
Aconteceu ao romance de JGS aquilo que dá hoje substância ao neologismo flop.
Só depois disso o ensaísta se aventura nas suas biografias críticas, dotando-as de várias premissas psicológicas – que ali funcionam como alicerces e verdades únicas (onde é que já li isto?...) – sorvidas directamente dos generosos úberes cerebrais do Dr. Sigmund. O qual anos mais tarde acabaria por renegar muitas das suas teorias e generalizações, incluindo as que o ensaísta e escritor falhado utilizou para sustentar a incontornável (ainda que indetectável) homossexualidade de Eça.
À época da primeira edição de Vida e Obra de Eça de Queirós, o poeta Fernando Pessoa já morrera – não sem antes considerar publicamente as ilações psicanalíticas de JGS pejadas de conclusões arriscadas e generalizações perigosas. Pessoa foi psicografado em vida por Gaspar Simões, e em vida cilindrou o seu auto-proclamado analista de forma muito concreta.
Judicioso, o ensaísta Simões aguardou então as comemorações do nascimento de alguém que já morrera (sem margem para dúvidas!) para lhe dedicar robusto e monumental tomo pontuado com afirmações da mais pura selvajaria freudiana – que ali assume foros de ciência exacta. Mas destas Eça não se poderia defender, pelo simples facto de estar morto há cerca de 45 anos.
Isso foi óptimo para JGS.
É fácil remeter ao emissor a natureza desta espécie de vingança privada sobre o sucesso inalterado de Eça. Porque é notoriamente disso que se trata. Se assim não fosse qual a razão para todo um alarido entusiasta pela suposta «tunda» dum Machado de Assis a propósito d’O Primo Basílio – onde o ensaísta visivelmente se trai, tal é o público júbilo com que a acolhe?
Consciente ou não disso, JGS quis denegrir Eça, apesar de proclamar aos quatro ventos que o adorava. Quis que o brilho do romancista ficasse um pouco enfarruscado em sítios precisos, onde a dúvida se pudesse instalar eficazmente para se metamorfosear, com o devido tempo, em verdade praticamente universal (e dêem-se agora uns quantos vivas ao mais in dos paradigmas publicistas). 
Quis entrar na História, à força.
Daí o cínico ímpeto das suas certezas sobre a «sensualidade anómala» de Eça, pois, a um século de distância, JGS conhecia perfeitamente todas as aventuras amorosas do escritor – de trás para a frente e vice-versa. Estranhamente, esqueceu-se de Anna Conover e de Mollie Bidwell, por exemplo... Como se esqueceu também de ter o trabalho de levar em conta, para a obra em causa, a correspondência íntima do escritor – o que numa biografia que pretende ser monumento denuncia uma perigosa fragilidade de referências.
Toda a jactante segurança do ensaísta – ancorada certamente no facto de o visado não o poder contradizer – encaixa muito bem na moral cediça das críticas de Assis: em O Primo Basílio Eça só escreveu sobre o feio, o desagradável, o amoral e tudo o que é deplorável – afirmara então o escritor brasileiro.
Tal crítica não é só uma redução absurda da obra em si: é também reveladora de uma grande falta de visão de conjunto do significado do Realismo e do pensamento naturalista – o que se identifica nuclearmente com as reacções da velha guarda intelectual portuguesa, ainda muito ligada ao modelo já esgotado do Romantismo (ou romanticismo, como lhe chamava Eça).
No extremo oposto, o consagrado crítico literário Harold Bloom afirmaria anos mais tarde que Flaubert teria certamente dado qualquer coisa de muito caro para ter escrito umas quantas páginas desta obra.
Tamanha discrepância de opiniões resulta, no entanto, duma fórmula muito simples: porque enquanto o crítico norte-americano analisou Eça e a sua obra com a necessária distância e desinteresse pessoal, já Machado de Assis mostrou apenas as manchas verdes que indiciam o óxido do despeito, que é primo direito da inveja – um produto altamente tóxico mesmo para quem o manipula com os cuidados naturais duma experiência continuada(2).
Depois, Gaspar Simões apanhou do cadinho brasileiro umas quantas raspas e agrediu Eça intencionalmente – para seu exclusivo lucro e muito provável gozo pessoal. E fê-lo através da tal obra monumental que, na minha nada modesta opinião, apenas tem de válidas as datas que ali surgem e correspondentes certos episódios documentados da vida do escritor.
Porque considerar que Carlos da Maia é o escritor escondido em autobiografia implícita, e também não querer perceber que Os Maias são como que um epitáfio ao Romantismo, são provas suficientes, para mim, de que o ensaísta utilizou Eça especialmente para falar de si próprio. 
Talvez mesmo sem disso se aperceber.
Assim só me resta lamentar a impossibilidade prática de averiguar qual a percentagem de incidências auto-biográficas JGS integrou neste seu extenso livro – porque isso aconteceu.
Mas há uma sua frase que lhe trai pelo menos a paternidade das ideias: «(...) A única coisa que nele era paixão – o amor sensual anómalo (...). A única paixão que JGS identifica numa personalidade com a dimensão de Eça é meramente carnal – embora clinicamente anormal. Porque, para ele, tudo se resume à libido.
Logo a arte, as ideias, o crime, o poder, a criatividade, a aeronáutica, o bem, a astrofísica, a filosofia, o xadrez, a política, a Natureza, o futebol, os automóveis e a matemática nunca poderão suscitar paixões...
Freud não conseguiria errar com maior fragor.

  1. Não deixa de ser divertido saber que JGS ficou conhecido por se gabar publicamente de conquistas no universo feminino
  2. Mais tarde o grande escritor brasileiro mergulharia ele próprio nas correntes do Realismo, onde também obteve notável sucesso 

desenho de Pedro Pimentel
O patusco silogismo
da cadeira e da girafa

Toda a minha investigação sobre mais este clone de Eça – o homossexual escondido, neste caso –, sugeriu-me mais tarde o estranhíssimo silogismo condicional da girafa e da cadeira. 
Porque foi aí, nesse antro de patranha, que Maria Filomena Mónica (MFM) escondeu a sua brocazinha particular quando desatou a escrever sobre o escritor. Não me espantaria muito que o seu recurso aos confessados devaneios de Flaubert nesta particular matéria mais não tenha sido uma forma elementar de aproveitar a afirmação velada que Gaspar Simões produzira cerca de 60 anos antes: é que seria um grande desperdício de sumo, especialmente num trabalho que não acrescenta nada em particular ao que já se sabe sobre o mestre do realismo português.
Senão veja-se isto: é bem natural que a maioria dos leitores de Eça não saiba que ele era fisicamente parecido com a sua mãe – a comprovação de um elo familiar contestado por alguns.
Esta poderá ser uma curiosidade interessante para várias pessoas – ou apenas uma aborrecida coincidência para quem prefere pensar que Carolina Augusta Pereira d’Eça de Queiroz não foi realmente a mãe do escritor. Mas para quem conhece as várias fotografias existentes de ambos, tal semelhança é somente uma evidência.
Ora esta é a grande novidade presente no livro de MFM: Eça era parecido fisicamente com a sua mãe!...
Entretanto, torna-se obrigatório lembrar (especialmente a quem não leu a obra da historiadora/socióloga) que Filomena Mónica declarou não ter aprofundado as complicações e implicações da natalidade de Eça dado ser este um tema que notoriamente desagradaria ao próprio. E no entanto equacionar tais causalidades, em função do escritor dentro da sua obra, seria algo de muito mais legítimo do que levantar uma certa dúvida conclusiva patente no tal silogismo pateta que atrás anunciei.
E qual é ele?
É bem simples: uma girafa tem quatro pernas e uma parte do corpo mais alta do que a outra; uma cadeira tem quatro pernas e uma parte do corpo mais alta do que a outra; logo – em determinadas circunstâncias! –, uma girafa pode perfeitamente ser uma cadeira...
Os factos falam por si. Na página 63 do seu livro sobre o escritor, MFM lança uma nota de rodapé no final da seguinte frase:
«Que se passou, nos banhos turcos, para que Eça repentinamente começasse a escrever com tal sensualidade?». 
E na nota de rodapé aparece escrito o seguinte:
«Flaubert é muito mais explícito sobre o que lhe aconteceu quando foi a um banho turco. Numa carta a um amigo, forneceu pormenores sobre a masturbação e a sodomia, que, a terem tido lugar, Eça não quis registar. Ver carta de Flaubert a Louis Bouillet, escrita do Cairo (...)».
Ou seja: ainda que noutra pessoa, há precedentes!... Ambos são escritores, ambos estiveram na mesma cidade do Oriente Médio e ambos foram aos banhos turcos...
Tanta coincidência cheira definitivamente a esturro!
Eis, pois, o silogismo da cadeira e da girafa – aqui equacionado em todo o seu resplendor pindérico de revista cor-de-rosa.
Ou não será antes que Flaubert só é «muito mais explícito» porque lhe aconteceu efectivamente qualquer coisa num banho turco que não apenas o banho propriamente dito? – e que Eça não o é principalmente pela razão inversa?!...
Filomena Mónica tenta estribar esta sua dúvida conclusiva numa «súbita sensualidade» que descobre na escrita de Eça – como se lhe tivesse sido alterada toda a forma num repente, em erótico tumulto, a partir daquele célebre banho, partilhado com o amigo de sempre e irmão da sua futura mulher, e descrito com ironia magistral em O Egipto
Então e as Prosas Bárbaras, e As Farpas? – não exibem também uma escrita sensual? E será que aquele texto específico foi escrito imediatamente a seguir ao banho, com Eça a pingar, de lápis na mão e toalha a fazer de turbante, ainda afogueado pelos estranhos momentos que então vivera e apenas abandonara para tirar umas quantas notas impressivas e necessariamente imediatas?!?...
Será assim que a historiadora/colunista escreve?...
Toda a escrita de Eça é sensual – a ironia é em si uma forma de expressão sensual. E toda a básica especulação desenvolvida por MFM nesta matéria não passa de hermenêutica de estagiária jovem em jornal tablóide.
Mas há uma desculpa razoável para tanta tacanhez: no mesmo volume onde insere esta sua ridícula teoria, a autora considera A Cidade e as Serras uma obra espúria (talvez a reboque do monumental Simões, que já antes o declarara de forma desassombrada), um livro a mais no conjunto dos que Eça escreveu. 
Ora quem pensa assim tem certamente direito a um enorme desconto.
Se no caso de Gaspar Simões e Bessa-Luis se vislumbram os fios duma agressão amparada na inveja, já em Filomena Mónica o que transparece é um oportunismo barato associado a moralismo sonso.
Veja-se isto: MFM achou um dia que a Eça desagradaria que se falasse (agora) da sua ascendência – razão por si invocada para não tocar no assunto.
O que pensar então dos fantasmagóricos sentimentos do escritor – que Mónica jura venerar – face às filoménicas propostas dumas quantas tropelias homossexuais, mais o amigo conde e uma cambada de núbios musculados e cheios de truques? Isto já não exige qualquer recato ético ou pudor retroactivo de admiradora por parte da ex-estudante de Oxford?... O mesmo tipo de respeito antes invocado, afinal!?
Muito curioso – sem dúvida.
Para encerrar de vez toda esta falsa polémica – que seria mais compreensível se os seus mentores fizessem parte dum aguerrido grupo defensor da pluri-sexualildade como único meio de atingir a arte e a sensibilidade (um nome sonante sempre daria uma ajudinha...) –, resta lembrar a Maria Filomena Mónica que o seu recente de profundis sobre o «snobismo intelectual», de que confessa ter sofrido em tempos que já lá iam (revista Pública, de 26-02-2006), não chega para lavar dos seus textos sobre Eça toda uma medonha nódoa de... petulância mental.