quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CAPÍTULO IX – Cônsul novato enfrenta perigosa campainha



Os factos de que me sirvo agora não são conhecidos da grande maioria do público leitor – mesmo de muito daquele que se considera fã incondicional de Eça. Utilizei-os para escrever um texto já destinado a este volume. No entanto, este acabaria por ser publicado previamente no Expresso/Actual sob o razoável pretexto de comemorar o 160º aniversário do seu nascimento. 
Pretendi com isto demonstrar a simbiose perfeita entre o romancista e o diplomata.

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O historial diplomático de Eça de Queiroz como cônsul português em Havana mostrou-me à saciedade a grande confiança que o jovem José Maria tinha, já então, na sua honestidade intelectual – característica que deverá envolver o todo do usufrutuário, desde o pensamento germinal até ao acto conclusivo ou à síntese absoluta.
A propósito do que então aconteceu em Cuba e da incidência dos vários momentos que o escritor ali viveu e provocou na sua posição de diplomata – aos 27 anos –, o seu amigo Eduardo Prado diria que ele «teve a rara boa sorte de iniciar a sua prática dos homens e das coisas por uma obra de realidade, de honra e de amor». 
A minha única dúvida a este respeito é se é exacto caracterizar o que Eça fez como um sucesso ou acaso da sorte – ainda que da melhor.
Estes dois anos épicos (porque não?) da presença de Eça em Cuba levaram-me também à arriscada conclusão de que toda a génese de O Mandarim, toda a matéria-prima dessa aparentemente simples fábula simbolista de Eça – no final de contas uma alusão à crónica luta entre o Bem e o Mal –, aconteceu e coexistiu com o escritor na sua passagem, enquanto responsável máximo pelos negócios do reino (económicos, políticos ou humanos), pela ainda colónia espanhola.
Olhemos os factos. 
Colocado em Havana em 1872, Eça enfrenta quase imediatamente um desafio singular e desmedido: opõe-se de forma radical à auto-denominada ‘Central de Colonização’ – um cartel empregador dominado pelos proprietários das plantações de cana-de-açúcar da ilha caribenha.
O cônsul português denuncia de forma veemente o tratamento infra-humano imposto às dezenas de milhar de emigrantes chineses chegados via Macau, que engrossam continuadamente as hordas de trabalhadores necessários ao funcionamento do grosso da economia cubana – e que à data rondariam as cem mil pessoas.
Com tal atitude, Eça conquistou de uma assentada uma grossa e entusiástica falange de ricos inimigos e umas quantas resmas de problemas – como é bom de ver e a seguir se confirma.
Eça revolta-se com especial ênfase contra a legislação local dirigida ao trabalhador ‘coolie’ (termo depreciativo para o emigrante chinês de então), que representa, afinal, uma armadilha sem saída: o seu contrato de trabalho – que lhe assegura, e mal, os limites da sobrevivência – é por oito anos; findo este tempo, o ‘coolie’ pode apenas voltar à China (com que dinheiro?), renovar o contrato na ilha, ou então recolher aos chamados ‘depósitos’ – autênticos ghettos abarracados, repletos de miseráveis permanentemente explorados por quem lhes fornece alimentação a preços da usura.
Quando alguém precisa de mão-de-obra, vai lá e requisita oficialmente... escravos. 
Considera o cônsul não haver «ninguém mais infeliz do que o ‘coolie’ (...) a não ser o ‘fellah’ no Egipto e na Núbia»...
Um dos seus relatórios, enviado ao ministério de que dependia, sintetiza toda a máquina viciosa dos senhores do açúcar: 
«(...) Assim o depósito é apenas um intervalo escravo entre duas escravidões». 
No seu livro Eça de Queiroz e o século XIX, o escritor brasileiro Viana Moog descreve a situação em que o cônsul português se encontrava no auge deste seu combate humanitário sob bandeira oficial:
«Em face desta situação, o cônsul Eça de Queiroz tem que optar por uma destas alternativas: ou adere à Comissão Central» (a famigerada ‘Central de Colonização’ que, actuando à margem de qualquer lei, boicotava todos os pedidos de nacionalidade portuguesa solicitados pelos ‘coolies’ junto do consulado português) «ou luta contra ela. No primeiro caso tornar-se-á rico, receberá toda a classe de considerações, sobretudo se soube de começo simular hostilidade capaz de alarmar os negociantes. No segundo caso, terá de percorrer um caminho cheio de lutas, de ameaças e dissabores». 

A fortuna a um passo 

Ou seja: o diplomata sabe perfeitamente que lhe bastaria entrar no jogo do cartel cubano do açúcar para ficar rico de vez! E que está mesmo na posição ideal para o fazer. Não fugirá, no entanto, à sua atitude idealista inicial, como refere Moog:
«Não tem dúvidas ou vacilações. Fica ao lado dos chineses», lutando «contra tudo e contra todos, em defesa da massa anónima dos oprimidos que nada lhe podem dar em troca». 
Do outro lado da barreira, irritadíssimos com aquele peralvilho armado em cônsul, espantam-se os terratenientes cubanos com a «insensibilidade de Eça em frente da fortuna e a sua inacessibilidade pelas seduções». 
E é no meio desta intensa e desigual luta de já quase dois anos – durante a qual o diplomata propôs as mais variadas alterações à legislação, emitiu centenas de certidões de nacionalidade e aturou os ódios e as mais variadas altercações por parte do governo da ilha e seus senhores – que surge em cena o marquês de Chin-Lan-Pin
Tratava-se de um elemento do conselho imperial da China em função diplomática. Ele e uma comissão por si chefiada passeiam-se por Cuba, aparentando inteirar-se das condições dos seus compatriotas emigrados. Pin faz-lhes bastas promessas e juras, assume um repúdio aparentemente genuíno com tudo o que de mal ali se passa, consegue mesmo uma grande manifestação de apreço por parte de toda aquela gente perdida no meio do Atlântico..., e consegue também que os poderosos locais lhe reconheçam autoridade total (imagina-se facilmente a troco de quê) no que concerne aos ‘coolies’. 
E com isso retira todo e qualquer protagonismo ao cônsul português que, realmente, era o único ser ali preocupado com o destino de todos aqueles paupérrimos reféns – pois era afinal do que se tratava.
Eça, que coloca mesmo a hipótese de encerrar o consulado – criando assim um incidente diplomático com Espanha –, relata a situação junto de Portugal nos seguintes termos: 
«(...) Desde que o Governo da ilha reconhece a autoridade dessa comissão, todas as questões dos colonos passam, desde logo, a ser tratadas directamente entre os enviados chineses e o Governo da ilha. Eu nem mesmo posso reclamar o direito de intervenção nos interesses daqueles colonos que têm o título de nacionalidade portuguesa, pois que o Governo se prepara para anular a validade desses títulos».
Tudo isto se passa na órbita temporal da ‘Guerra Grande’ cubana e das expectativas de independência face a Espanha, que em simultâneo atravessa o seu momento de adesão ao fim da escravatura. 
Eça sabe disto e muito mais, já que numa das várias exposições que faz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal mostra mesmo as armas de que dispõe para obrigar Madrid a aceitar as reformas que continuamente tem vindo a propor: 
«No dia em que o porto de Macau se fechasse à emigração, uma grande ruína abalaria a indústria açucareira de Cuba. Por esta razão, as exigências que impõe o Governo de S. M., serão aceites».
Depois de mostrar a ameaça com que se pode esgrimir, Eça exibe o argumento prático resultante da necessidade que Cuba tem de substituir o trabalho escravo por uma colonização dotada de leis concretas: 
«Tenho a convicção de que o governo espanhol aderirá à justiça desta reforma, posto que a nação que emancipa os escravos, não pode logicamente escravizar os colonos». 
É este o teor global da guerra pessoal que o escritor ‘comprou’ em Cuba, na sua estreia como diplomata, e que terminaria apenas quando abandonou Havana de vez. 
No seu livro Eça de Queiroz, Cônsul ao Serviço da Pátria e da Humanidade, o embaixador Mário Duarte (que foi cônsul em Havana a partir de 1945) descreve pormenorizadamente o comportamento de Eça como diplomata, destacando naturalmente aquilo que comprovou de forma documentada in loco
Ou seja: uma certa ideia de que Eça foi um banal funcionário consular, um burocrata macio e inócuo, perde com estes testemunhos qualquer credibilidade. 
Neste passo, natural é que alguém se pergunte o que é que isto tudo tem a ver afinal com o livro O Mandarim – publicado seis anos mais tarde no Diário de Portugal sob a forma de folhetim. Era algo escrito há já algum tempo, porque o escritor o entregou a um nervoso editor em substituição de uns já prometidos Maias – ainda em fase de acabamentos. 

Título misterioso na cabeça da página 

Na verdade, omiti até agora – propositadamente – a categoria social a que pertencia o plenipotenciário chinês que se cruzou com Eça de Queiroz em Cuba
Acontecia que o nosso já conhecido marquês de Chin-Lan-Pin – que nada terá cumprido do muito que prometeu aos seus conterrâneos emigrados – era simplesmente um mandarim de 1ª classe... 
E agora, já com o título fixado na cabeça da página, vamos à procura da tal campainha na qual nunca se deve tocar. 
E aí está ela, bem visível: a vil riqueza que Eça podia ter arrecadado facilmente se não tivesse feito as ondas que fez. Bastava ter fechado os olhos àquela infâmia. Bastava, enfim, ter feito soar a campainha – um gesto que certamente consideraria vulgar no ser muito poderoso e igualmente falso que se escondia sob a cabaia chinesa do oriental marquês. O tal mandarim a quem mais tarde Eça acaba idealmente os dias, no conto que escreveu com esse título, utilizando para tanto o medíocre, inconsistente e portuguesíssimo Teodoro
Há nesta personagem uma patética mas especial mistura de Fausto com Judas. Nela se vê a predestinação de quem entregou a alma e o consequente desconsolo pelo real valor de mercado que tão subtil parte do ser afinal representa: uma data de dinheiro que – vendo bem – para nada serve, porque nada satisfaz! 
Porque um homem que traiu os outros unicamente para enriquecer é alguém que não merece qualquer espécie de condescendência ou estima – nem de si próprio. 
Porque quem toca a campainha do Mandarim deixa de ser. 
A ser isto verdade, poder-se-á talvez questionar a forma estranha, fantasista, que Eça utilizou para desenvolver esta sua parábola – bastas vezes maltratada pela crítica. 
Mas quais seriam as alternativas? Construir um romance puro e duro sobre realismo burocrático no infecto «paliteiro de palmeiras», com marquês chinês e tudo? Armar um incidente diplomático perfeitamente imprestável ou até pernicioso? E porque não escapar antes, por momentos que fosse, à «impertinente tirania da realidade»? – como explica no prefácio à edição francesa da mesma obra... 
Para coroar esta (talvez) mirífica versão d’O Mandarim com Cuba em pano de fundo só falta recuar no tempo até ao momento em que Bernardo Pindela, chegado de Macau (pois!, de onde vinham os pobres ‘coolies’) no final duma missão diplomática ao serviço do rei D. Luís, oferece ao seu amigo José Maria a bela e sedosa cabaia mandarinesca – que hoje faz parte do espólio do escritor reunido na Fundação Eça de Queiroz/Casa de Tormes
O já então conde de Arnoso (o título é-lhe concedido em 1885, quando se torna secretário pesoal do rei) conhecia bem a saga vivida por Eça em Havana, pelo que a exótica oferta vem acompanhada de ironiazinha privada: «Não tocaste a campainha do Mandarim e, como tal, a riqueza que ofusca não te bateu à porta. Mas deixa lá que ele morreu na mesma. Como prova disso trago-te aqui a sua cabaia mais rica!» – atira Pindela, jactante.
E Eça, sorridente, e depois do apertado abraço amigo, rabujaria com humor: 
«Ora!, Bernardo, onde tenho eu sobretudo uma pança, para encher estas pregas amplas e mandarinais?»(1). 
Obviamente que não foi este o cenário coloquial do episódio da cabaia importada de Macau por Bernardo Pindela
Mas podia perfeitamente ter sido. 
Faria sentido. 
  1. Trecho retirado de uma carta em que Eça se refere à prenda de Pindela nestes exactos termos 
Dois últimos pormenores 

Posteriormente à publicação deste texto no Expresso/Actual, decidi escrever para esta edição uma breve adenda onde sublinhava os factos que me induziram a ideia original. 
Curiosamente, e quase em simultâneo, o contacto que estabeleci com uma investigadora destes aspectos da História confirmaria cabalmente, com traços ainda mais vincados, a enorme justiça e rectidão que Eça empregou neste episódio da sua vida profissional. 
O que me levou a pensar que Eça teve efectivamente um confronto moral com a simbólica «campainha do mandarim» – quem sabe se não sentindo mesmo o aguilhão monstruoso da ganância e do dinheiro fácil, que chegaria a rodos mediante uma sua indiferença estratégica para com o destino dos ‘coolies’ –, é a declaração final de Teodoro ao seu leitor, «criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão». 
Depois de legar a sua fortuna maléfica ao próprio Diabo, a personagem que se apresta por fim ao confronto com a morte confessa um estranho consolo: 
«Que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu (leitor), tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões (...)». 
O diplomata/escritor sabia perfeitamente a quem se dirigia: a todo aquele que, numa situação semelhante à sua, teria optado pelo outro lado da barreira – ou seja, o dos comerciantes de açúcar da antiga colónia espanhola. E sabia também serem muitos os candidatos a tal lugar: no mínimo tantos quantos os mandarins de toda a imensa China. 
Como que magicamente, por via de contacto estabelecido com a investigadora Maria Teresa Lopes da Silva – que na altura terminava a sua tese sobre a emigração chinesa através de Macau para Cuba e Peru (entre 1851 e 1874) –, foi-me confirmado o importante papel de Eça na denúncia do que se passava em Cuba com os chineses. 
Mas tal confirmação vinha acompanhada de informação que considero crucial para se perceber bem a dimensão da atitude do então jovem cônsul português. De acordo com a investigadora, «o cônsul Fernando de Gaver, que instalou e geriu o consulado de Portugal em Havana entre 1851 e 1872,» – imediatamente antes de Eça, portanto – «era parte interessada neste negócio».

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